revista bula
POR EM 30/01/2011 ÀS 12:07 PM

Tréplica: Pelé nunca pretendeu ser santo, aliás ser Senna

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Pelé é rei, enquanto Senna, na F1, é um fortíssimo candidato a rei. É possível que Senna seja mesmo o melhor piloto de todos os tempos, mas não é uma obviedade. Existem diversos candidatos sérios ao trono do automobilismo. Por outro lado, apenas excêntricos questionam o reinado de Pelé
 
PeléMeu ensaio Senna Não é Pelé produziu reações diversas. Vários leitores concordaram com meu raciocínio, outros discordaram parcialmente, muitos ficaram indignados, houve quem suscitasse a possibilidade de que Senna teria praticado conjunções carnais com membros do “sexo feminino” de minha família, um amigo próximo acusou-me de desonestidade intelectual, dois cavalheiros mais exaltados mandaram mensagens eletrônicas me ameaçando de morte etc, etc, etc. Em sua maioria, como imaginei, as reações foram passionais. Infelizmente, afinal, não há possibilidade de debate civilizado quando um dos lados está vermelho, arrancando os cabelos, rasgando as roupas e batendo contra o peito. Como diz a tradição: apelou perdeu, playboy! 
 
Porém, dentre os discordantes, houve notáveis exceções. Por exemplo: Renan do Couto e Joubert Barbosa procuraram responder meus argumentos com outros argumentos, não com xingamentos vazios. Rodrigo Duarte Oliveira escreveu que “um texto pode acrescentar muito ao leitor. Porém, o texto do senhor Ademir, apenas nos acrescenta informações sobre a sua personalidade, o seu apelo a autopromoção”. Um primor de elegância e minimalismo, quase irrespondível. Renato Pujol questionou-me educadamente, acrescentando ao final uma tirada impagável: “abraço de uma viúva passional agarrada ao seu lencinho”. Hilário!
 
Merece destaque o professor de línguas Marcel Pilatti, autor da réplica mais extensa e interessante, intitulada Senna Não é Pelé (Ainda Bem!) . Pilatti partiu do pressuposto de que cometi dois equívocos: “1) não buscou em nenhum momento ‘compreender’ o mito Senna, 2) mitificou ainda mais, e blindou, de questionamentos, o mito Pelé”. Acredito que sou inocente na primeira acusação e parcialmente culpado na segunda.
 
Meu ensaio, que é menos pretensioso do que parece, não pretendia desvendar o mito Senna. Sua motivação original foi fazer uma crítica positiva do belo documentário do inglês Asif Kapadia, aproveitando o gancho para tentar problematizar a estranha canonização do piloto. Listar seus inúmeros grandes feitos seria redundante. Primeiro porque já são amplamente conhecidos, segundo porque o documentário já o fez. O outro lado de Camelot, sim, é obscuro e instigante. Na réplica, no que deve ser sua tentativa de compreender o mito, Pilatti citou dezenas de enquetes e entrevistas que apontam Senna como “o melhor piloto de todos os tempos”. Eu deveria ter feito algo semelhante? Não creio que outra apologia vá ajudar na compreensão do fenômeno. Como escrevi “essa deificação de um atleta de um esporte elitizado, baseada em sua perseverança e hombridade, em um país conformista e cínico como o Brasil, famoso por seus macunaímas, heróis sem nenhum caráter, é um fenômeno sociológico complexo, que merece ser estudado com profundidade pela academia”. Trata-se de uma ampla pesquisa que ainda está por ser feita e que eu não poderia ter a pretensão de realizar sozinho. Portanto, não prometi, não precisei cumprir.
 
Blindei o mito Pelé? Possivelmente, mas em momento algum estendi a regalia ao senhor Edson Arantes do Nascimento. Como frisei, Pelé morreu em 1978. Embora tenha sido bastante explícito, Pilatti não captou o teor irônico da utilização da palavra “cavalheiro”. Ao contrário dos sennistas não-conscientes, nunca sugeri que Pelé fosse perfeito em campo e um cidadão acima de qualquer suspeita fora dele. Citando-me: “Parte da irrefutabilidade do reinado de Pelé é o fato dele ser ótimo ou excepcional em todos os fundamentos do futebol, sem, necessariamente, ser o melhor em nenhum”. Foi um jogador desleal? Sim, foi. Caçado em campo, tinha orgulho de revidar. Não sem alguma razão. Senna também nunca pareceu se arrepender de ter jogado o carro em Prost em 1990, embora pudesse ter quebrado não só as pernas, mas também os braços e o pescoço do francês. Apenas para as viúvas, “uma deslealdade de outro piloto é a deslealdade de outro piloto, a deslealdade de Senna é arrojo”. Sobre o caráter pessoal do Edson, não serei moralista; entende? Não existe vestal em orgia. Ele tornou-se político. Isso diz tudo. Ademais, Pelé, assim como Maradona, Romário, Garrincha, George Best, Renato Gaúcho e outros, não foram e não quiserem ser santos. Ainda bem! Nada mais chato do que receber lições de moral de celebridades esportivas. O importante é competir? No mundo do esporte profissional não é bem assim.
 
Muitos não entenderam o título de meu ensaio. Acharam que eu estava comparando o piloto com o futebolista. Longe disso. Apenas destaquei que, no futebol, Pelé é rei, enquanto Senna, na F1, é um fortíssimo candidato a rei. Defendi que é possível que Senna seja mesmo o melhor piloto de todos os tempos, apenas que não é uma obviedade. Existem diversos candidatos sérios ao trono do automobilismo. Por outro lado, apenas excêntricos questionam o reinado de Pelé. O próprio Pilatti admite o fato, embora não concorde que sua distância para os concorrentes seja oceânica. Não parece pensar o mesmo quanto a Senna e seus rivais, tendo em vista o título da réplica, “Senna Não é Pelé (Ainda Bem!)”, e o destaque dado com força de argumento para frase “Senna foi a oitava maravilha do mundo”, de Clay Regazzoni. Nota-se que dentre nós dois, Pilatti tende mais a mitificar do que eu. Aconselho-o a reler sua corretíssima frase de abertura: “Todos os mitos — sejam eles religiosos, culturais, esportivos, históricos ou de outra ordem — podem e devem ser questionados”. Amém.

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