revista bula
POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

Os sertões de Euclides da Cunha e outros sertões

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Um livro escrito com tanta mestria e percuciência que passa à linhagem da literatura. Canudos parece não ter podido existir, exceto na realidade encantada da literatura, numa invenção da pena euclidiana 

Euclides da Cunha

Umas tantas vezes, poucas, eu havia começado a leitura de “Os Sertões” de Euclides da Cunha e interrompido, fustigado pela aridez das primeiras cem páginas (mais ou menos) — sei de gente, no entanto, que um tanto idiossincraticamente as declaram as melhores do volume. Desta vez, rompi e fui.
 
Há leituras que de tão surpreendentes nos deixam abismados (tomados pela sensação do abismo). Eu que, embora tenha tido ainda no colegial um ou dois bons professores de literatura que certamente terão comentado com entusiasmo sobre “Os Sertões”, nunca fui capaz de aprender grandes coisas em escolas, de repente sou assombrado, precisamente, por aquela sensação. E, também, por uma certa vergonha. Explico.
 
Só encontrei energia para vazar o cerco das tais primeiras cem páginas ao ler uma pequena novela do húngaro Sándor Márai, de quem tomei conhecimento pelo também húngaro, e absolutamente essencial, Imre Kertész (quantos belos nomes os desses húngaros, quanta música!) chamado “Veredicto em Canudos”. Foi preciso o encanto de um europeu (ainda que de uma Europa, como este país onde vivemos nós, considerada periférica) para me convencer da completa necessidade de afinal ler “Os Sertões” — depois, para alimentar o reconhecimento da genialidade única e gigantesca de Euclides da Cunha bastou, é claro, sua escrita tão impregnada de luz e revelação. (Se confesso o crime, quem sabe não me amenizam a pena.)
 
Muito provavelmente, todos os meus comentários já terão sido feitos por outros. Estarei me repetindo. Mesmo assim, me arrisco. É que é preciso saldar a dívida — e amenizar a vergonha. Imagino que, talvez, o qualificativo mais batido de tantos quantos os usados para definir “Os Sertões” (e seu autor) é o ser único. Pois, como defini-lo sem partir daí?
 
Uma reportagem no sertão da Bahia longa o suficiente para se tornar um caudaloso livro — e uma épica do humílimo sertanejo, talvez nos revelando que na ousadia da rebelião a mais disparatada pudesse aquele homem do sertão se fazer notável, ao invés de insigne no aceitar ser manietado pelo despudor imoralíssimo dos poderosos. Um livro escrito com tanta maestria e percuciência que passa à linhagem da literatura. Uma literatura que se revela tão vastamente rebuscada, seja no ângulo da visada, seja na tocada do verbo que a conduz, que se torna praticamente inclassificável, mas certamente enorme.
 
E a reportagem penetra as intricadas e tortas ramagens do sertão até alcançar as beiradas da mais sublime poesia: “um brado de alarme estala na mudez universal das coisas...”.
 
E, de novo, de novo, há um ímpeto de repetir os incontáveis flashes de incontido brilho que nos conduz ao fundo dos abismos.
 
Quantos, ao mesmo tempo, já não terão dito (não sei, não posso garantir, embora possa, sim, ter lido aqui e ali ao longo do tempo escritos sobre o livro, mas não que me tenham ficado disponíveis na memória, se apagaram, desconheço e, assim, apenas suponho) que sem Euclides o Conselheiro não seria mais que uma dessas tantas figuras místicas que costumam assaltar no meio da miséria a alma desamparada dos miseráveis? Ao invés, graças a “Os Sertões”, temos um mito. Ou, ao invés uma vez mais, quantos não terão sido ao longo da história os mitos inconsiderados justamente pela ausência daqueles que os pudessem dimensionar e expressar? Inda mais quando se recorda que a história é no geral e quase sempre a versão da história ofertada pelos vencedores. Embora haja também os que imaginem existir para cada evento histórico um relato à altura.
 
Seja como for, por vezes Canudos parece não ter podido existir, exceto na realidade encantada da literatura, numa invenção da pena euclidiana.
 
Lá pelas tantas: “Canudos só seria conquistado casa por casa. Toda a expedição iria despender três meses para a travessia de cem metros, que a separavam do apside da igreja nova. E no último dia de sua resistência inconcebível, como bem pouco idênticas na História, os seus últimos defensores, três ou quatro anônimos, três ou quatro magros titãs famintos e andrajosos, iriam queimar os últimos cartuchos em cima de seis mil homens!”
 
Cago Montes Para a República — “Foi isso que vi e ouvi na edificação do Rancho do Vigário no dia 5 de outubro, entre as cinco horas da tarde e as nove horas da noite. Contei como pude. Não lembro mais nada de Canudos”. Assim termina a citada novela de Márai, que data: “Salerno, 1969”.
 
“Três ou quatro magros titãs famintos e andrajosos” resfolegam orgulhosos e atrevidos à frente dos maiorais da República, derrotados e no mesmo instante desafiadores. Márai os retira de “Os Sertões” e os traz ao centro da trama para que nos falem também do nosso tempo. De 1969. Ano post-mortem.
 
O marechal vitorioso conduz o interrogatório dos vultos esqueléticos e discursa: “Na anarquia há força, e a força é sempre possibilidade. Isso nós, democratas devotos, também sabemos. Mas a força em que não existe razão é possibilidade apenas no hospício. Seu marido sabia disso?
 
“Sabia o que todos em Canudos sabiam. Sabia que às vezes o impossível é a única coisa que vale a pena acreditar” — responde a prisioneira andrajosa, como se reverberasse, por uma curvatura do espaço tempo, a frase inscrita nos distantes muros parisienses tantas décadas após aquele 5 de outubro de 1897.
 
Agora, na nossa contemporaneirade, os “Bittencourts” vitoriosos ocupam todas as “fímbrias” do poder enquanto suas falas sensatas operacionais preenchem cada mínima fresta eventualmente aberta nas superfícies perfeitamente lisas e apenas umas poucas literaturas parecem nos redimir — em lapsos curtos, brevíssimos cada vez mais.
 
“A linha férrea corre no lado oposto. Aquele liame do progresso passa, porém, por ali, inútil, sem atenuar sequer o caráter genuinamente roceiro do arraial. Salta-se do trem; transpõe-se poucas centenas de metros entre casas deprimidas; e topa-se para logo, à fímbria da praça — o sertão...”
 
Confrontado com o poder da República (a força das instituições e da institucionalização da vida social, do pactuado como bem universal entre os donos da civilização e da razão — quando, na verdade, razão e civilização provavelmente já há muito se avessaram, e a permanência das condições espirituais, e da cultura política que alimentaram o nazismo na Europa é apenas um dos sintomas disso) o sertanejo, de joelhos, responde gigantesco: “Cago montes para a República.”
 
Civilização e barbárie se enfrentam. Não restam dúvidas sobre quem é quem. E, no entanto... Invertem-se os signos. Oximoros abundam. Em “Os Sertões” tanto quanto na paisagem recriada de Márai, tanto lá quanto aqui, tanto antes quanto agora. Frente à barbárie travestida de civilização das grandes ordens das grandes Repúblicas unificadas, à anarquia predatória recoberta pelo verniz brilhoso da mercadoria, à ignorância de semi-letrados acoitada na irracionalidade bruta e sob os trajes da razão, gozando com a morte e o desejo de matar em impulsos apenas circunstancialmente contidos (civilizadamente contidos) pela “res publica”, seria melhor que se dissesse “cago montes para a República”. Mas, nesses nossos tempos de mundo próspero (do projeto liberal-social-democrata), quem ousaria? Onde estão os cabras machos (e fêmeas) capazes de uma tamanha audácia?
 
A Língua Vibrátil — Onde outro qualificativo possível para “Os Sertões” que não o de uma épica? E onde uma outra épica em nossa história tão famélica de eventos notáveis?
 
De outra parte, a exploração/a perscrutação incessante e destemerosa dos recursos da língua e da concretude (fisicalidade) das palavras, numa elegância vibrátil inquietada pela vitalidade parece indicar também a intenção de fazer essa épica avançar até o cerne da própria linguagem (a palavra) onde geme como um rato do agreste a urgência de uma literatura suja de vida, úmida de selvageria.
 
A Vida na Urbs Monstruosa — Invertem-se os signos. Interpenetram-se. Não por acaso, oximoros abundam na frase euclidiana, em parágrafos de estupendas ambiguidades, e terríveis prenúncios, grávidos de possibilidades e de re-significações.
 
De um lado, a barbárie: “...comunidade homogênea, uniforme, massa inconsciente e bruta, crescendo sem envolver, sem órgãos e sem funções especializadas... Não cogitava de instituições garantidoras de um destino na Terra. Eram-lhes inúteis. Canudos era o Cosmos. E este mesmo transitório e breve: um ponto de passagem, uma escala terminal, de onde decampariam sem demora. O último pouso na travessia de um deserto — a Terra.”
 
Aquela “cidade selvagem”, a “urbs monstruosa” cujas fundações foram lançadas por aquela “... espécie de grande homem pelo avesso” urge ser “...esmagada pela civilização...”
 
De outro, a civilização: Passar a borracha sobre o borrão, lobotomizar, medicalizar/drogar (a ciência a serviço do bem coletivo, como a República), amputar, excluir, submeter a ferro e a fogo (a degola era o método favorito das tropas republicanas), assim procedeu a “res publica”, a civilização contra o chaga representada pelo perverso Conselheiro e seu bando alucinado de pervertidos — os selvagens, os monstruosos, os vertidos pelo avesso.
 
“O Conselheiro continuou sem tropeços na missão pervertedora, avultado na imaginação popular...” “Arrastava o povo sertanejo não porque o dominasse, mas porque o dominavam as aberrações daquele...” “Parou nas fronteiras oscilantes da loucura, nessa zona onde se confundem facínoras e heróis, reformadores brilhantes e aleijões tacanhos, e se acotovelam gênios e degenerados.”
 
A barbárie: “A urbs monstruosa, de barro, definia bem a civitas sinistra do erro. O povoado novo surgia, dentro de algumas semanas, já feito ruínas. Nascia velho... Não se distinguiam as ruas. Substituí-as dédalo desesperador de becos estreitíssimos, mal separando o baralhamento caótico dos casebres feitos ao acaso, testadas volvidas para todos os pontos, cumeeiras orientando-se para todos os rumos, como se tudo aquilo fosse construído, febrilmente, numa noite, por uma multidão de loucos...”
 
A barbárie, de novo: “...aquela fachada estupenda, sem módulos, sem proporções, sem regras; de estilo indecifrável; mascarada de frisos grosseiros e volutas impossíveis cabriolando num delírio de curvas incorretas; rasgada de ogivas horrorosas, esburacada de troneiras; informe e brutal, feito a testada de um hipogeu desenterrado; como se tentasse objetivar, a pedra e cal, a própria desordem do espírito delirante.”
 
Poesia (ou quase poesia): “...volutas impossíveis cabriolando num delírio de curvas incorretas...”
 
A civilização: “Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República... Era o prólogo invariável de uma cena... Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão. Um golpe único, entrando pelo baixo ventre. Um destripamento rápido...”
 
A civilização, mais uma vez: “A degolação era... infinitamente mais prática, dizia-se nuamente. Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada. Não era a ação severa das leis, era a vingança. Dente por dente. Naqueles ares pairava, ainda, a poeira de Moreira Cesar, queimado; devia-se queimar. Adiante, o arcabouço decapitado de Tamarindo; devia-se degolar. A repressão tinha dois pólos — o incêndio e a faca.”
 
A República — Erradicar o mal absoluto pelo bem da assepsia do processo civilizatório. Assim ainda agora se procede, embora os métodos tenham eventualmente se tornado mais limpos e mediados, até porque os desviantes se tornaram eles próprios mais mansos — há um coisa que acima de todos nós, e metida entre nós, mediando nossas relações, suga as energias (e as pulsões e os desejos) as mais extremas, e contamina até a fúria dos enfurecidos.
 
Isso, no entanto, é apenas uma hipótese...
 
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