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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

Mínimo múltiplo comum

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Rubem Fonseca é um dos principais pontos de referência contemporânea. Alguns dizem que sua qualidade foi antecipar os traços da violência das cidades, mas outros têm certeza de que estamos diante da exploração barata de crimes e do rebaixamento das mulheres – numa versão urbanizada de Jorge Amado

Ler a literatura contemporânea é sempre muito perigoso. Causa medo errar na avaliação. O autor pode simplesmente sair de moda ou ter a obra morta antes de sua própria morte. Por isso, algumas universidades definem hoje que o contemporâneo no Brasil termina em Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Há, porém, quem encare o desafio de entrar no terreno movediço da produção a quente. Os mortos estão frios e conservados para degustação segura e deliciosa de um tempo que louva o ideal abstrato e vazio de conhecer e valorizar apenas os clássicos. Na verdade, são as estudiosas brasileiras que mais se debruçam sobre uma produção variada e, como no espírito da época, fortemente pressionada pelos padrões de mercado.

Beatriz Resende enxerga três aspectos na produção literária atual no Brasil: fertilidade, qualidade e multiplicidade. A síntese de sua análise está em “A literatura brasileira na era da multiplicidade”, no livro Contemporâneos (2008). O terreno fértil revela que nunca se escreveu tanto como agora. A qualidade aparece, segundo ela, na “escrita cuidadosa, o conhecimento das muitas possibilidades de nossa sintaxe e uma erudição inesperada, mesmo nos autores muito jovens deste início de século”. O lado múltiplo fica evidente na variedade de tons e formas. Beatriz tem uma visão que destoa do pessimismo superficial que só vê fracassos nos autores brasileiros contemporâneos.

Os autores representativos para Beatriz Resende são os suspeitos de sempre: Sérgio Sant´anna, Rubem Fonseca, João Gilberto Noll e Silviano Santiago. Mas, no livro, ela faz apostas em análises mais aproximadas de Bernardo Carvalho, Cecília Gianetti, Paloma Vidal, Santiago Nazarin, Luiz Schwarz, Daniel Galera, Joça Terron, Maira Parula e Ana Paula Maia. Não existe uma preocupação de eternizar o que se faz na atualidade, mas sim de avaliar o que essas pessoas estão dizendo e escrevendo para merecer a atenção dos leitores atuais. As narrativas podem sair tanto em livros lançados por grandes casas editoriais, como em páginas na internet.

Ao seguir o pensamento de Beatriz, o leitor vai conhecendo certas características partilhadas por autores brasileiros contemporâneos. Há, segundo ela, a presentificação das coisas, como se não houvesse passado nem futuro. Bem ao sabor da época, tudo se resolve no presente mínimo e que desacredita no amanhã superior ao hoje. O progresso material ou das relações humanas desaparece nas metrópoles, onde é possível apenas o destino trágico. Dessa maneira e como o mercado (e não o diabo) gosta, a presença da violência urbana vira um segmento de best sellers. É bom negócio narrar o medo de uma classe média ao encontrar pobres, pretos & favelados. O outro se torna o monstro a assombrar becos e vielas das grandes metrópoles.   


Corpo vivo da cidade

Em “Os caminhos da cidade”, do livro Despropósitos (2008), Tânia Pellegrini traça um arco histórico de três décadas para analisar as transformações do país mais urbanizado e da literatura brasileira. O artigo saiu numa primeira versão em 2001 (aqui). A autora identifica uma “ficção em trânsito”, pois a produção sai de um período marcado pela censura dos anos 1970 para uma perspectiva de mercado a partir da década de 1980. São novas questões colocadas, de 1985 em diante, por autores que abandonam o enfoque dos conflitos históricos (urbano/rural, moderno/arcaico, local/cosmopolita) para mergulhar na vida flexível, líquida e angustiante das cidades.

A pós-ditadura representa a dissolução na crença de incorporação das classes sociais mais pobres à modernidade. A nação deixa de ser o aspecto único de identidade. Não há mais sertanejos, malandros ou mulatas atraentes. Surgem, por exemplo, novas vozes de literaturas com as temáticas feminina e homossexual. Segundo Tânia, as escritoras que se destacam são Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Edla Van Steen, Sônia Coutinho, Lya Luft, Helena Parente Cunha e Patrícia Bins. Mais recentes são Clara Averbruck, Lívia Garcia Roza, Cíntia Moscovich, Adriana Lisboa e Heloísa Seixas. A escrita com enfoque gay aparece nas obras de Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll e Silviano Santiago.

A presentificação traz de volta e contraditoriamente a ficção histórica, porém em molde diferente do que se fez no século XIX. Como não se acredita mais em progresso, a literatura volta-se para trás em busca de rupturas e continuidades do passado com o presente. Registre-se que se trata de um movimento da literatura mundial e não apenas do Brasil. Há o retorno do romance histórico com Márcio Souza, João Ubaldo Ribeiro, Luiz Antônio Assis Brasil e até com Raquel de Queiroz de Memorial de Maria Moura (1992). Juntando a perspectiva feminina e histórica, aparece Ana Miranda. Nesse olhar ao passado, às raízes, também cresce a literatura da imigração: Raduan Nassar, Milton Hatoum, Moacyr Scliar e Domingos Pellegrini.

O palco da produção pós-1985 é definitivamente a cidade. Tânia Pellegrini lembra a expressão “realismo feroz” usada por Antonio Candido para enquadrar as obras de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Ambos são modelos para uma escrita concisa, elíptica, fragmentária e focada na violência da grande cidade brasileira. Cria-se, no rastro disso, uma narrativa policial cujos representantes são Luiz Alfredo Garcia Roza e Alcides Nogueira, sem esquecer Patrícia Melo. O brutalismo urbano gerou ainda Paulo Lins. O romance Cidade de Deus (1997) trata da “vida de crime e marginalidade na favela de mesmo nome, no Rio de Janeiro, com dicção acentuadamente naturalista, apresenta traços inconfundíveis do feroz realismo fonsequeano”, diz ela.

A esse enfoque mais naturalista, escapa a noção da cidade como um “corpo vivo” altamente complexo, mutável e conectado com o mundo. É desta vivacidade urbana, afirma Tânia, que nasce em décadas recentes a literatura de Sérgio Sant´anna, Silviano Santiago, João Gilberto Noll e Chico Buarque. O consumo, as simulações, os simulacros e as angústias da vida moderna encontram nesses autores uma tradução para os códigos literários. “O espaço urbano ficcionalizado passa, gradativamente, a abrigar significados novos, ampliando o seu espectro simbólico, hoje já muito diferente daquele das origens. De cenário que funcionava apenas como pano de fundo para idílios e aventuras, locus amenus, foi aos poucos se transformando numa possibilidade de representação dos problemas sociais”, diz.
 

Cerco à literatura

Rubem Fonseca é um dos principais pontos de referência contemporânea. Alguns dizem que sua qualidade foi antecipar os traços da violência das cidades, mas outros têm certeza de que estamos diante da exploração barata de crimes e do rebaixamento das mulheres – numa versão urbanizada de Jorge Amado. Com essas ressalvas, Walnice Nogueira Galvão começa pelo autor do romance Agosto o ensaio “Tendências da prosa literária”, de As musas sob assédio (2005). Um resumo está no original de “Musas sob assédio”. Especialista em Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, a decana dos estudos literários no Brasil mantém um olhar permanente na produção atual.

Segundo ela, Fonseca abre uma tendência do thriller urbano que ressoa em autores como Patrícia Melo, Paulo Lins, Nelson de Oliveira, Fernando Bonassi, Luiz Rufafto, Marçal Aquino, Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Ronaldo Bressane e até em mais intimistas como Rubens Figueiredo e Amílcar Bettega Barbosa. Todos seguem, na verdade, a trilha aberta na ficção por João Antônio, embora este estivesse mais atento à vida popular dos pobres e menos ao estilo policial. Cada um segue caminhos próprios, indo do mais convencional de Patrícia Melo ao mais experimental de Luiz Ruffato, com o romance aos pedaços Eles Eram Muito Cavalos (2001). O risco que se corre é a mímese barata da metrópole caótica, na verdade, uma imagem muito recorrente nos meios de comunicação com sua pregação por mais e mais segurança pública.

Walnice vê continuidade também em relação à narrativa regionalista nas obras de João Ubaldo Ribeiro, Francisco Dantas, Antônio Torres, Luiz Antônio Assis Brasil, Tabajara Ruas, Márcio Souza, Domingos Pellegrini e Ronaldo Correia de Brito. A herança regionalista é uma das mais persistentes da literatura brasileira, ao ponto de Mário de Andrade tê-la chamado de “praga” por recorrer ao pitoresco. O tom regional vem misturado a uma rememoração do passado, de onde se desenvolve um romance histórico moderno (João Ubaldo e Márcio Souza). Mas essa narrativa histórica tem outra vertente que expande horizontes geográficos e de metalinguagem (João Silvério Trevisan, Isaías Pessotti, Silviano Santiago e Ana Miranda).

Por outro caminho e distante do tradicionalismo, há um grupo de autores que “põem em xeque a narrativa, estilhaçando-a, manejando a intertextualidade, a colagem e a montagem, em certos casos até recorrendo à ilustração”, diz Walnice Nogueira. São eles Sérgio Sant´anna, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Chico Buarque, Bernardo Carvalho, João Almino e Valêncio Xavier. Esse lado mais experimental se contrapõe a uma tradição realista da literatura brasileira que, em seus melhores momentos, teve Graciliano Ramos. O mais recorrente, no entanto, é o uso da ficção como documento da realidade, de uma tentativa de espelhar os problemas do cotidiano – e isso se vê na produção recente.
 

Além do real

Um bom panorama das recentes tendências formais vem sendo feito por Flora Süssekind. Em 2000, ela escreveu o ensaio “Escalas & ventríloquos, que deu sequência a sua leitura de produção dos anos 1970 (com os romances-reportagens e o memorialismo) e dos anos 1980 (repletos de “vitrines” e “dobradiças”). Estamos diante de uma estudiosa acostumada a pensar os longos movimentos de produção literária contemporânea. Sua última síntese focaliza os caminhos tomados pela escrita dos anos 1990, época de pressão redobrada dos padrões de mercado. 

Segunda ela, houve uma crise de escala das obras. Os poetas adotaram, por exemplo, uma “narrativização da lírica” (Waly Salomão, Sebastião Uchoa Leite, Paulo Henriques Britto, Carlito Azevedo, Haroldo de Campos e Bernardo de Mendonça). Abriu-se até um espaço para o poema em prosa de Angela Melim, Duda Machado, Rodrigo Garcia Lopes, Augusto Massi, João Moura Jr., Josely Vianna Baptista, Leonardo Fróes, Rubens Rodrigues Torres Filho, Júlio Castañon Guimarães e José Paulo Paes. Ao mesmo tempo, ocorre uma “miniaturização narrativa” nas obras de Dalton Trevisan, Silviano Santiago, Jean-Claude Bernadet, Modesto Carone, Zulmira Ribeiro Tavares, Vítor Ramil, Valêncio Xavier, Vilma Áreas e João Gilberto Noll. São fenômenos que chamam a atenção do leitor.

Uma segunda tendência é o que Flora chamou de “tensão enunciativa”. Os poetas brasileiros estão recorrendo a um “monólogo dramático” que se aproxima da fala teatral (Francisco Alvim, Paulo Henriques Britto, Glauco Mattoso e Lu Menezes). Na prosa, essa fala aparece nas “cisões numa só voz” dos narradores. Nunca se sabe ao certo quem está contando a história (Silviano Santiago, André Sant’Anna e Bernardo Carvalho). É uma narrativa difícil, afastada do padrão do best seller. Por outro lado, autores tentam a “geminação entre econômico e cultural”, o que seria a terceira tendência apontada por Flora, cuja representante notória é a narrativa histórica (Isaias Pessotti, João Silvério Trevisan, Rubem Fonseca e Jô Soares).

A prosa sintonizada com as exigências de mercado globalizado é um dos traços mais ressaltados pelos estudos literários de hoje. O que foge do padrão “vale tudo” das vendas é a poesia. “Não se pode deixar de constatar que a poesia escapou, pelo menos por enquanto, à mercantilização. À míngua de público, o mercado não se interessa por ela, o que pode infligir considerável frustração a seus cultores, mas de certo modo a preserva. Todavia há poetas produzindo material de qualidade, embora de modo quase clandestino, e até revistas especializadas, que lançam poetas novos enquanto servem de escoadouro à criação dos veteranos”, nota Walnice Galvão, em “Musas sob assédio”.

Um dos mais interessantes balanços sobre poesia foi feito recentemente por Iumma Simon, no ensaio “Situação de sítio”, publicado em novembro de 2008. A autora escreveu nos anos 1980, em parceria com Vinícius Dantas, uma das principais análises da produção daquele período, “Poesia ruim, sociedade pior. Para ela, ocorreu no Brasil uma retradicionalização da poesia: “A poesia deixou de ser companheira de viagem do presente, deu as costas aos acontecimentos, os quais no entanto a afetavam no mais íntimo de sua capacidade criativa”. Os sintomas dessa busca estariam no ideal de alta cultura; na depuração e refinamento poético; e na crença de que os poetas podem ser intérpretes da tradição literária mundial.

De acordo com a análise de Iumma, os anos recentes trouxeram uma mudança e chamaram sua atenção os trabalhos de Carlito Azevedo, Tarso de Melo, Ronald Polito, Ricardo Domeneck, Frederico Barbosa, Régis Bonvicino, Fabio Weintraub e Alberto Martins. Vale ressaltar que uma das maiores descobertas dela foi a poesia de Valdo Motta . A primeira parte de “Situação de sítio” dá essa visão panorâmica da poesia brasileira contemporânea para, em seguida, introduzir a leitura do poema Sítio” (2001), de Claudia Roquette-Pinto. Segundo Iumma, “a poeta contemporânea que parecia até então trancada no seu universo privado e burguês, alinhada a uma poesia delicada, erótica e feminina” saiu ao encontro do mundo. E lá encontra: “O morro está pegando fogo/ O ar incômodo, grosso,/ faz do menor movimento um esforço,/como andar sob outra atmosfera,/entre panos úmidos, mudos,/num caldo sujo de claras em neve”. Trata-se de uma descoberta e tanto.


PS: conclusão parcial


Jacques Derrida criou 40 anos atrás o conceito de desconstrução – não se trata de demolição. Descontruir é um método de leitura para expor as contradições ou ambivalências de textos e, principalmente, dos discursos hegemônicos. Vai contra o fonocentrismo. Onde há consensos permanentes e considerados eternos, a desconstrução provoca a desestabilização. Tudo que parece ser o centro passa a dividir espaços com o que está nas margens, escondido nos rincões. O pensamento entra em movimento. Abundam expressões “por um lado isso”, “por outro lado aquilo”. O texto desconstruído cria verdades parciais que, mais adiante, podem ser novamente desconstruídas.

Para o medo dos tradicionalistas, a desconstrução diz que a letra muda ao longo do tempo. Significados se alteram. O que é “isso”, hoje, vai se tornar “aquilo” décadas ou séculos depois. Os textos não são transparentes absolutos. Os cânones literários, por exemplo, devem se abrir para incorporar novos autores e obras. Jamais podem se fechar. Como disse Borges, o autor inventa sua tradição, reescreve letra por letra o Quixote e assim cria um novo texto, pois muda a forma de ler. Os contemporâneos fertilizam os do passado que, por sua vez, anteciparam muito do que existe hoje. Se perguntarmos para um marxista que movimento é esse, ele chamará de dialética. Não contem para os desconstrucionistas, mas eles podem estar mais pertos de Marx do que imaginam.

 
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