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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

Michael Jackson: uma figura trágica

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Como estrela maior de seu tempo, ele era fascinante, e como a figura trágica da qual temos notícias desde os anos 90, também. Ninguém subiu tão alto, e nenhum caiu de forma mais trágica, a ponto de transformar o trágico em patético

Michael Jackson

Sempre escrevi sobre literatura por ser ela o meu material de estudo. Eu estudo para ser crítico literário e sempre o farei para ser sempre crítico, já que nesse ofício nunca estamos completamente formados. Na literatura, além da forma e da sensação estética, percebo o mais profundo estudo da personalidade humana que se pode fazer. Isso, em forma de palavra, encanta-me. Como escritor romancista (tenho um romance inédito que pode sair esse ano) o comportamento humano me interessa. Parafraseio o historiador Marc Bloch: “tudo que é humano me interessa”, e sendo eu um homem que atravessou os anos oitenta e noventa assistindo a mais incrível ascensão e queda de uma figura pública, como não poderia ter me interessado por Michael Jackson, para mim, a figura mais trágica dos últimos trinta anos do século XX.

Donald Prater, na biografia que escreveu sobre o Thomas Mann, diz em seu prefácio que seu retratado era fácil de admirar e difícil de amar. Para Thomas Mann – ególatra que buscou durante toda a vida correspondência entre si mesmo e Goethe, filho de família burguesa que jamais teve que “trabalhar” na concepção mais genuína da palavra, que sempre buscou a reclusão e nunca teve problemas em sacrificar quem estivesse ao seu redor por causa de sua arte e de suas idéias, e que disse, enfaticamente, certa vez ser a juventude uma farsa da qual jamais gostou e que só conhecera a felicidade na velhice –, essa frase de Prater não teria grande efeito. Mas para Michael Jackson – que nascera negro em um país no qual o racismo era muito mais declarado que no Brasil, no qual este mesmo racismo resultava não só em agressões verbais, mas também em violência física; que fora filho de um pai violento e tosco, arrimo de família aos 10 anos de idade, vítima do ciúme infantil de seus irmãos que o viam já criança roubar a cena no palco, com uma infância furtada pela própria família e consumida pelo mundo e que por isso jamais desejara crescer quando, livre do jugo do pai, teve a oportunidade de ser a criança castrada em sua natural criancice; e mais e principalmente, com um talento de gênio e alma excessivamente sensível – tal afirmação poderia ser, como lhe foi, sempre, fatal. Shmuley Boteach, rabino e mentor de Jackson por muitos anos, do qual se afastou depois de ter filmado um documentário que pretendia resgatar sua popularidade e só serviu para lhe render outro processo de abuso sexual, disse certa vez que Michael lhe declarou: “Fiz tudo o que fiz para ser amado. Não gostava do que via no espelho, meu pai, quando criança, sempre me provocava, dizia não entender como gostavam de mim sendo que, dos meus irmãos, eu era o mais feio.” Cresceu rejeitado na sua face subjetiva, carente de amor, e na sua aparência física, rejeitada pelo pai que enriquecera às suas custas.
 
Otto Maria Carpeaux, em seu ensaio “O Admirável Thomas Mann”, diz também que o escritor alemão, enquanto figura trágica era fascinante, mas enquanto escritor, o melhor dentre os de segunda classe, opinião da qual discordo, mas cuja discussão não cabe aqui, no entanto, podemos dizer que é algo que não se pode dizer de Michael Jackson, símbolo de uma arte (a música pop de mercado) que, diferentemente da literatura, tem a fugacidade como marca para a maioria dos seus nomes. Michael revolucionou essa música pop, influenciando-a e sendo seu símbolo por quase quarenta anos. Sua magnitude nesse âmbito torna-se visível se fizermos um fácil exercício: pensemos na música pop mundial das últimas décadas sem a sua presença. Essa mesma história tomaria outros rumos e seria algo diferente do que é hoje. Melhor? Pior? Não se pode saber, mas seria diferente, isso podemos afirmar com absoluta certeza.
 
Como estrela maior de seu tempo, ele era fascinante, e como a figura trágica da qual temos notícias desde os anos 90, também. Ninguém subiu tão alto, e nenhum caiu de forma mais trágica, a ponto de transformar o trágico em patético. Sua figura física tornou-se piada para todos; sua música, pouco ouvida; seus discos, pouco vendidos em relação ao que foram no passado; sua dança sumira dos palcos. O que restou dele nos últimos anos foi uma sucessão de escândalos, processos, dificuldades financeiras e atos bizarros, além de um silêncio musical tremendo.

Não teço aqui juízos a respeito da sua música por não conhecer música o suficiente para fazê-lo. Não tenho como situá-lo, criticá-lo enquanto músico. O que me interessa aqui é sua figura humana trágica. Mas hoje, depois de sua morte, comentam sua obra sem conhecê-la a fundo, sem verem a repercussão que ela teve, dizem aquilo que eu ou qualquer pessoa pode afirmar: fixam-se nos clichês que todos conhecem, e mesmo assim reconhecem sua genialidade, que foi forte e criativa em todas as coisas que almejou fazer enquanto tinha lucidez para fazê-las.

Curioso observar que o infantiloide Michael à medida que envelhecia caia mais, pelo fato óbvio de não saber ser grande, de não estar preparado para isso e de nem querer fazer isso. “Eu sou o Peter Pan”, disse ele em uma entrevista. E assim, agora que as luzes se apagam e as cortinas se fecham, esse Peter foi – não como a criança ditosa da lenda, mas ainda assim –, para a terra do nunca, na qual jamais envelhecerá, assumindo, creio, o lugar que lhe é de direito na história da música pop, que foi seu reino de fantasia e sua mais dura realidade. Para mim, o que o faz gênio é o superlativo em tudo o que fez, para o bem e para o mal, e sua influência inegável. Para Harold Bloom a influência dá lugar aos gênios na literatura, penso que se o crítico norte americano fizesse um cânone da música pop, Michael seria o centro desse cânone, pois como astro influente de seu tempo, ele é canônico.
 

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