revista bula
POR EM 27/06/2009 ÀS 09:12 AM

Mercado global das letras

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Quando se cobra de um autor brasileiro uma presença na república mundial das letras, deve-se ter em conta que o desafio não é de qualidade literária. A questão é de mercado, de estar dentro de um padrão

  Saul Bellow e Philip Roth

Nos últimos anos, ressurgiu um debate a respeito da existência ou não de uma literatura mundial. A discussão segue uma linha de pensamento proposta no século XIX (época das narrativas nacionais de fundação) por ninguém menos que Marx e Engels, no “Manifesto Comunista”. “Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolvem-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual. As criações intelectuais de uma nação tornam-se propriedade comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tomam-se cada vez mais impossíveis; das inúmeras literaturas nacionais e locais, nasce uma literatura universal”, diz o conhecido texto que fala de um espectro rondando a Europa.

Alguns estudiosos investigam na atualidade o que seria essa literatura mundial. Franco Moretti observa a combinação de formas literárias européias com expressões locais espalhadas pelo mundo. É deste encontro que floresce uma produção com alcance em diversas partes do mundo. Pascale Casanova tomou outro caminho e buscou ver como os escritores escapam de uma camisa de força da tradição nacional. A leitura de autores de outras línguas ajudam a criar obras diferenciadas e inovadoras, abrindo novos caminhos. Hoje, segundo ela, várias cidades disputam com Paris a posição de centro da “república mundial das letras”, de centro irradiador de influências. O risco do descentramento do mercado editorial, porém, é a criação de uma globalização cultural que acaba com a diversidade cultural.

“As regiões mais livres do espaço literário mundial estão portanto fortemente ameaçadas pelo poder das leis do comércio internacional que, transformando as condições de produção, modifica a forma dos próprios textos. O desenvolvimento de multinacionais editoriais que imitam as aquisições de autonomia e a enorme difusão desses romances de sucesso internacional, que conseguem aparentar uma produção literária das mais autônomas, colocam em perigo a própria ideia de uma literatura independente dos circuitos comerciais”, assinala Casanova. O que ela apontou é a possibilidade de os alemães da Bertelsmann, os espanhóis da Alfaguara ou os norte-americanos da Random House se tornarem o McDonald´s das letras e inibirem a pluralidade de formas culturas.

No livro “Linhagens do Presente”, Aijaz Ahmad analisa os efeitos dessa concentração do mercado global das letras em poucas editoras localizadas em Paris, Londres, Madri, Frankfurt e Nova York. Para ele, as grandes editoras têm alcance mundial por centralizar a distribuição de títulos e disseminam livros por meio de traduções que passam a ser a “voz” de um determinado país. Apaga-se todo um conjunto de obras que não conseguem entrar no circuito globalizado das letras. Ahmad cita o caso da Índia: “Os poucos escritores que por acaso escrevem em inglês são valorizados além da medida. Testemunhe-se, por exemplo, a caracterização de “Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, no “New York Times” como ‘um continente encontra sua voz’— como se não tivéssemos uma voz são não falarmos inglês”.

A discussão aberta por Moretti, Casanova e Ahmad é importante no momento em que mercados editoriais como o brasileiro recebem uma onda grande de livros oriundos de fora dos Estados Unidos e da Europa. A produção que chega ao Brasil é filtrada por grandes casas editoriais dos já citados centros econômicos da globalização. Quase nada que vem para cá é trazido diretamente de países africanos, asiáticos e sul-americanos. Trata-se, portanto, de uma mega-mercado global de best sellers que reúne desde um Philip Roth, um José Saramago, um J.M. Coetzee, passando até por um Thomas Bernhard – este teve há 20 anos uma explosão nos países de língua espanhola semelhante ao que está tendo no Brasil, conforme já relatou Javier Marías (mais um autor globalizado).

Quando se cobra de um autor brasileiro uma presença na república mundial das letras, deve-se ter em conta que o desafio não é de qualidade literária. A questão é de mercado, de estar dentro de um padrão. “Pessoalmente, não acredito que o best seller ajude realmente o público leitor a crescer culturalmente ou a levar à leitura aqueles que anteriormente não liam. O best seller é, em certo sentido, um ‘antilivro’, um livro ‘mata-livros’. Dá aos leitores o inebriamento de terem lido, em um só livro, o essencial e o melhor de todos os livros em circulação. Faz esquecer que os livros são muitos (talvez demasiados) e que, seja como for, essa multiplicidade reclama ser descoberta pessoal e vagarosamente”, diz Alfonso Berardinelli, em “Não Incentivem o Romance”, que coloca Philip Roth, Saul Bellow e Umberto Eco no balaio dos best sellers.

Se tomarmos uma periodização proposta por Berardinelli ou por Sergio Miceli, que analisa o caso brasileiro, é possível concluir que a literatura deixou de ser o centro da cultura na virada dos anos 1950 para os 1960. Depois disso, impera o best seller, o blockbuster. Os escritores tiveram de dividir o status de antenas culturais com diretores de cinema, músicos, artistas plásticos etc. Contra os fetichistas da escrita, pode-se seguir a sugestão de Giorgio Agamben e adotar o método da “profanação” (mas não de achincalhe). Profanar é recolocar obras auratizadas pelo mercado (best sellers com pretensões de alta cultura) entre os comuns. Clássicos podem sim morrer, e que o digam os anatolianos do começo do século XX – alguém se lembra?  
 
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