revista bula
POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

Literatura para quem?

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A recorrência à nossa subjetividade, ao nosso imaginário particular, faz da literatura a expressão legítima de arte da intimidade, e nos convida a pensar na figura impar do leitor, que renova o poema, conto, romance ou texto teatral em cada leitura

A leitura é, antes de qualquer coisa, uma atividade mental, pois embora leiamos com os olhos, não podemos atribuir à visão (exceto em experiências concretistas) a apreensão do sabor estético da literatura. Assim talvez seja porque, apesar de o som que as palavras bem colocadas que reboam em nossa mente no momento da leitura nos trazerem impressão de beleza, a visualização particular e íntima das imagens que concebemos daquilo que nos é narrado ou descrito nos remete ao nosso repertório pessoal. Fala-nos o teórico do efeito estético, Wolfgang Iser, nome grande da turma apelidada de Escola de Constança, no seu já clássico “O Ato da Leitura”, que “à medida que os vazios indicam uma relação potencial, liberam o espaço das posições denotadas pelo texto para os atos de projeção do leitor. Assim, quando tal relação se realiza, os vazios desaparecem”.

Não há como nos desvincularmos da nossa ideia de “bela casa” quando lemos uma descrição do que seria essa “bela casa” que o narrador pretende nos fazer visualizar. Talvez por isso eu atribua maior deleite à apreciação da literatura que à do cinema, já que na arte do audiovisual a imaginação está descartada, pois o repertório de imagens nos obriga a ver o que o diretor e sua equipe definem como “bela casa” ou algo que o valha. Pois bem, essa recorrência à nossa subjetividade, ao nosso imaginário particular, faz da literatura a expressão legítima de arte da intimidade, e nos convida a pensar na figura impar do leitor, que renova o poema, conto, romance ou texto teatral em cada leitura, reservada, privada, feita por um indivíduo em sua solidão, que nada tem de crepuscular ou taciturna, e se o tem, falamos das sombras a que se refere o poeta inglês John Milton, em seu grande “Paraíso Perdido”, a obscuridade chamada por ele de “clara escuridão”, já que a boa literatura mais nos leva a ler a nós mesmos que ao mundo que nos é pertinente.

Esse aprendizado do ato da leitura, essa espécie de educação sentimental pela qual deve passar o leitor, a mim parece-me mais necessária ainda na apreciação da poesia, já que o fenômeno da hipersemanticidade (hiper significação de uma palavra ou transmutação de seu sentido sintático ou morfológico dentro da obra literária) é mais comum na poesia que na narrativa, salvo em experiências como o brilhante “Casa Entre Vértebras”, de Wesley Peres, no qual a definição do que é poético e do que é narrativo fica salutarmente obscura.

Outrora chamei atenção para a dificuldade de termos leitor de poesia quando escrevi a respeito de “Trompa de Falópio”, de Valdivino Braz, no qual o fenômeno da hipersemanticidade está aliado a uma erudição singular e uma vastidão de citações e referências a figuras icônicas da cultura ocidental. Nesse ponto até mesmo a teoria do efeito estético de Wolfgang Iser, segundo a qual o leitor recorre a seu repertório idiossincrático para preencher os lugares vazios deixados pelo texto literário, parece-me problemática. A que repertório ele poderá recorrer se não tiver as leituras das obras às quais o poeta se referiu na construção de seu texto?

Mas para além das questões teóricas e categoriais do leitor enquanto objeto de estudo acadêmico, que não é o mais relevante para o presente ensaio, lembro-me do famoso fragmento do poema “Trouxeste a chave”, de Carlos Drummond de Andrade, contido em “A Rosa Do Povo”, no qual ele, sublime, nos coloca, de chofre, ante à questão pertinente e lapidar:  “[…] / Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: / Trouxeste a chave? / Repara: / ermas de melodia e conceito / elas se refugiaram na noite, as palavras. / Ainda úmidas e impregnadas de sono, / rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.” O poeta aqui nos convida a desvendar a magia da poesia em transformar a palavra ou extrair dela, numa contemplação que nada tem de letárgica, e que, ao contrário, muito traz de ativa e astuta, o mundo que essa palavra esconde e carrega, misteriosa, em si. Portanto, mais do que o elemento que se encontra na leitura, o importante seria para o poeta o ato em si de ter a chave, desvendar o mistério, atravessar a porta que, como apregoa o poeta Carlos Willian Leite em seu recém lançado “Noves Fora: Nada”, “[...] aberta / toda porta / é viagem”.

Mas para mim, a chave drummondiana esconde uma questão mais complexa, levantada por Fernando Pessoa no poema “Liberdade”. Diz-nos Pessoa que “Grande é a poesia, a bondade e as danças... / Mas o melhor do mundo são as crianças, / Flores, música, o luar, e o sol, que peca / Só quando, em vez de criar, seca”.

Se isso nos reflete e nos explica, fazendo-nos perceber que o enigma não é a falta de leitores, mas sim esse embrutecimento da alma, talvez movido por uma cultura de mercado empobrecida e ordinária, por meios de comunicação que, numa espécie de conchavo imaginário, asfixiam a produção artística impedindo que a mesma seja ventilada; ou pela vulgarização da violência, pela escassez da delicadeza, pelo emudecer da elegância, pela falta da gentileza, pela patologia do amor mal vivido, desprovido de leveza, sorriso fácil e alma leve; pela morte das amizades puras e despojadas de apego ou instância, pela velocidade com que os gostos mudam guiados por efemeridades banais, pela morte da inocência, que nada tem a ver com alienação ou misticismo, mas sim com o que há dentro de nós que possa almejar, de algum modo, o sublime; enfim, tudo isso e mais talvez seja o mote, o problema real, a verdadeira chaga: os livros fechados tornam-se assim mera e triste consequência de um mundo tétrico, árido, estéril.

Mas se não temos mais alma, se um poema nada mais pode, se escritores escrevem para escritores, tal qual pintores para seus pares, atores montam peças para os seus iguais, pergunto-me: literatura para quem?
 

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