revista bula
POR EM 16/11/2009 ÀS 02:34 PM

Jornalistas raramente entendem o regime totalitário de Cuba

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Fidel Castro

Mesmo repórteres experimentados têm dificuldade para explicar o regime totalitário de Cuba. O correspondente do “El País” em Havana, Mauricio Vicent, publicou ótima reportagem sobre Fidel Castro no domingo, 8, mas, como muitos outros jornalistas, não interpreta com precisão o funcionamento do sistema comunista. Traduzo e comento alguns trechos de seu texto, expandindo aquilo que mostra e discute de modo superficial.

Mauricio Vicent construiu sua longa reportagem, “Vida secreta de Fidel Castro”, baseado quase que exclusivamente em fontes anônimas, o que é natural, pois os cubanos, mesmo autoridades graduadas, temem dizer qualquer coisa a respeito do chefão; o que parece agradar pode desagradar. A intimidade e a saúde do Al Capone da esquerda são segredo de Estado. “Hoje”, diz uma fonte anônima, Fidel “verdadeiramente está fora do poder, dedicado às grandes estratégias e aos problemas mundiais”. Se está fora do poder, como aceita o repórter do principal jornal espanhol, como pode se dedicar “às grandes estratégias”? Elabora estratégias para quem? Para o regime do qual é tutor. Na “ausência” do imperador, Raúl Castro, o irmão Débil & Loide, é no máximo regente.

Embora não tenha conseguido entrar na casa de Fidel, Mauricio Vicent colheu informações detalhadas. “Punto Cero [Ponto Zero] é o nome para designar o lugar da residência de Fidel.” O chefão “aposentado” e sua mulher, Dalia Soto del Valle, com quem tem cinco filhos, moram numa casa de quatro quartos, com piscina (luxo em Cuba) e amplo jardim. Nas casas próximas moram filhos, noras e netos. O “sultão comunista” teme ser morto e é protegido 24 horas por dia. Paranoico, costuma dizer que é vigiado, até quando vai ao jardim, por satélites espiões americanos.

Antes de Fidel ficar doente, “o lugar era reservado exclusivamente para a família”. Sobrinhos e irmãos eram mantidos a distância. Hugo Chávez é um dos poucos que visitaram o Chefão nesta residência. Porque a Venezuela, sob Chávez, se tornou a nova União Soviética da velha Cuba. O petróleo venezuelano faz a economia local funcionar — aos trancos e barrancos. Chega quase de graça, subsidiado politicamente. Gabriel García Márquez, embora íntimo de Fidel, não tinha as portas da mansarda abertas. “Tudo começou a mudar depois da crise de diverculite que o comandante sofreu. Sabe-se que, devido a erros médicos iniciais e a complicações diversas, Castro esteve meses entre a vida e a morte.” Os erros médicos foram cometidos por especialistas locais. Mais tarde, uma sumidade espanhola teve de “limpar” a sujeira dos profissionais cubanos. É provável que tenham errado porque operar um “santo”, ainda que ímpio, é de uma responsabilidade (e risco) aterradora. Fidel ficou dois anos hospitalizado, a maior parte do tempo em dependências do Centro de Investigações Médico-Cirúrgicas (Cimec), “um moderno e bem equipado hospital” — vedado à maioria dos cubanos.

Sua Eminência — Ao voltar para sua casa, Fidel decidiu flexibilizar as medidas de segurança (teme mais cubanos do que possíveis assassinos da CIA, que não tem mais interesse em matá-lo). Aos poucos, começa a receber visitas estrangeiras, como o sociólogo argentino Atilio Borón, acólito, o cineasta Oliver Stone, que faz documentários (suspeitos) sob o ditador, e o documentarista americano Saúl Landau.

Landau diz que Fidel “segue com paixão as notícias da atualidade mundial. Lê vorazmente, vê televisão ‘de maneira seletiva’ e está contente por haver abandonado a política”. Abandonado? Quando? Onde?

Uma fonte de Mauricio Vicent diz que “Fidel recebe em sua casa mais do que sai na imprensa”. O presidente do Chipre, Demetris Christofias, esteve em Cuba em setembro deste ano. O líder chipriano falou com Raúl, espécie de intermediário, mas não foi embora sem dialogar com o Chefão. “As reuniões de Castro com dignatários e amigos estrangeiros são cada vez mais frequentes.” Mas, ressalva o jornalista, “Castro passa a maior parte do tempo rodeado de familiares, dedicado à leitura e tomando notas ou escrevendo suas reflexões”. Durante duas horas por dia, faz exercícios físicos. Pode parecer que Fidel tenha se tornado uma espécie de Lênin embalsamado no mausoléu do Kremlin, mas não é bem assim. Na verdade, mantém-se no centro do poder, acompanhando e palpitando em tudo. Tanto que, como informa Mauricio Vicent, Raúl “o consulta a respeito dos temas mais importantes”, inclusive sobre mudança de quadros no governo. Se está fora do poder, por que é consultado? A contradição não é enfrentada pelo “El País” (a Espanha é parceira comercial de Cuba). Numa frase, abandonada no final de um parágrafo, Mauricio Vicent, contraria quase toda sua reportagem, que insiste que Fidel está fora do poder, ao escrever que “a existência” de Fidel “condiciona tudo”. Noutras palavras, enquanto estiver vivo, Fidel manda — sob o disfarce de que está apenas “orientando”. Morto Fidel, o que deve acontecer? O regime tende a cair. A abertura relativa promovida por Raúl não tem como objetivo democratizar Cuba, e sim é uma tentativa, razoavelmente inteligente, de sugerir que, sendo Raúl mais aberto do que Fidel, com este morto, não será preciso derrubar o regime. Raúl “será” capaz de, ao longo do tempo, abrir um pouco mais o país. O que é falso: comunismo não se abre (nem a China é aberta, exceto, e em termos relativos, na economia). O Raúl menos estatista é isto: uma forma de, Fidel na cova, tentar impedir a queda do comunismo. Porque Fidel é o totem que impede a queda do regime. Falta a Raul — apresentado como “moderado”, o que não é — a autoridade e o carisma do irmão mais velho.

Ao cúmplice Borón, Fidel disse que o ex-vice-presidente Carlos Lage e o ex-chanceller Felipe Pérez foram defenestrados porque se “iludiram em relação ao inimigo externo” e cometeram “erros, às vezes produto de excessivas ambições políticas ou impaciência”. Em Cuba, diante de fracassos colossais, a culpa é sempre dos subalternos, como se o sistema não fosse absolutamente centralizado nas mãos da família Castro. Fidel e Raúl sempre têm de culpar alguém pelo desastre do regime. Porque, para os velhos ditadores, falíveis são seus auxiliares, não eles e o sistema inviável que criaram e só mantêm à força. Há pouco tempo, quando a imprensa internacional descobriu que Cuba havia se tornado entreposto da cocaína colombiana, Fidel e Raúl mandaram matar uxiliares, como o general Arnaldo Ochoa, o “culpado”. O regime não incentiva o tráfico e o consumo de cocaína diretamente, mas, como precisa de dólares com premência, acaba por fazer qualquer negócio. A “sorte” é que, como apareceu um anjo da guarda, Chávez, Fidel pôde dispensar os narcotraficantes colombianos.

Os cubanos não podem ler publicações estrangeiras e o acesso à internet é restrito (recentemente a blogueira Yoani Sánchez foi agredida e detida pela polícia da dinastia Castro). Fidel, pelo contrário, pode ler tudo. Se sai um livro que lhe interessa, mas não há tradução para o espanhol, uma equipe de especialistas, que fica à sua disposição, põe-se a traduzi-lo imediatamente. Traduzido, o livro é lido só por ele. Jornalista rigoroso, “independente”, “não engajado”, Mauricio Vicent não tripudia da informação, mas Fidel repete Stálin: tem o controle do fogo, do conhecimento. Oliver Stone, a besta quadrada do cinema americano, diz que flagrou Fidel lendo um livro de Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia. Cuba traduz livros de autores estrangeiros e não paga direitos autorais, o que o repórter do “El País” não diz. Se escrever, vira persona non grata e tem de sair de Cuba.

Atento, Fidel leu os livros do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Saúl Landau viu um exemplar de “Os Sonhos de Meu Pai” (1995) “sublinhado e com notas à margem em quase todas as páginas”. Fidel disse a Landau que “Obama, além de comover, também pode ser irônico. É um homem que mostra grande inteligência, tem o dom da escritura e bons valores. Mas está limitado no que pode fazer. Está atado pelos interesses” do Império.

Um dos trechos mais sugestivos da entrevista é aquele no qual Mauricio Vicent relata que Fidel já não convoca ministros em busca de informações. “Quem o faz em seu nome é o chefe do Departamento Ideológico do Partido Comunista, Rolando Alfonso”, conta o correspondente internacional. Observe bem o que vou dizer: aquele que controla o setor ideológico do partido está subordinado a Fidel, como seu “secretário particular”. Em países comunistas, quem controla a ideologia, a verdade que é imposta à sociedade, tem o controle do poder. Noutras palavras, por meio da hegemonia ideológica, Fidel continua mandando. É o verdadeiro secretário-geral do PC Cubano.

"Ambientalista" é a faceta "moderna" de Fidel, o que dá razão ao sociólogo francês Guy Sorman, que diz que o ambientalismo é a nova estratégia da esquerda para tentar travar o capitalismo. O capitalismo agora não faz mal apenas aos traba-lhadores, mas ao meio ambiente, ou seja, a todos, portanto deve ser combatido e superado. O dia-gnóstico de Matusalém, mas politicamente simpático, de Fidel: "O problema da humanidade é sobreviver à sociedade de consumo". É óbvio que Fidel tem razão — ainda que sua sugestão, o socialismo, não tenha contribuído para melhorar a humanidade —, mas seus objetivos são outros. Meio desnorteado, Mauricio Vicent avalia como "fabuloso" o título de uma reportagem da "Paris Match" (ah, os franceses, não raro são beócios. O que seria da França sem Stendhal, Balzac, Flaubert e Proust?): "Castro, o inoxidável". Confesso: leio a imprensa brasileira e mundial com um sorriso nos lábios. É quase tudo uma piada. Sem graça, mas piada. Uma piada ideológica. No fim da reportagem, Mauricio Vicent diz que Fidel é chamado por todos de "O Chefe". Chamá-lo de poderoso chefão talvez seja mais apropriado, porque o regime comunista é uma máfia política.

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