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POR EM 06/11/2009 ÀS 11:18 PM

Da crítica exacerbada e da percepção estrábica

publicado em

Crítica literária séria não é agressão, como não é para o bico medíocre, gratuito agitador que, vez por outra, se mete no que não lhe compete, e tão-só com o intuito de tumultuar, açular, com os cães de sua nulidade intelectual, as discussões em pauta 

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Eventos Pastelaria. Saborosos pastéis de vento e sopro, fritos na hora. Entre, prove, confira. Sinta no rosto o bafor ao sabor do nada dentro do pastel empapuçado. Mas então o nada não é o vento que há lá dentro? Opa! Ó paí ó! Não é este o assunto. Afasta de mim o homem do megafone, apregoando pastel de vento. Sai do meio, recheio! 

Antes de prosseguir, afixo o aviso aos navegantes do Nautilus, a lâmina prateada dos oceanos e do capitão Nemo — “Vinte mil léguas submarinas”, de Julio Verne —, bem como aos internautas da nave Bula, visitantes e colegas: o texto que se segue é longo, sujeito a mutucas e pernilongos. E o bafo quente por aqui é outro, quente que andou o tempo num entrevero de linhas cruzadas — bu(r)lesco episódio — em que os contendores iam de meros comentários ao tirocínio de seus talentos, que cada um os tem a seu tanto, alguns mais, outros menos; já outros, por certo, movidos por inconfessas idiossincrasias de foro íntimo, parece que um despeito próprio de mentes incultas, ou menos cultas. Uma gente pequena e complexada no rodapé de seu pobre intelecto; uma sombra esperneando-se na obscuridade da massa cinzenta. De alto ou mediano talento, e de outros nem tanto, o que às vezes falta é o mútuo respeito, equilibrado pela consideração dos limites — tanto intelectuais quanto morais —, ponderado pelo bom senso de cada um, aparadas as arestas das diferenças, sopesada a intempestividade, contido o explosivo temperamentalismo. 

À parte a crassa ignorância, que a essa não é mesmo de se respeitar — nem há como ela própria (com moela, galinha cega) se dar o devido respeito —, conquanto ser de se levar em conta por alguma tolerância, mas sendo de ressalvar-se, todavia, que também a tolerância tem limite; nem por isso partir para a barbárie verbal, que só faz rebaixar ainda mais o nível dos debates. A questão crucial é: como contornar a cega ignorâcia, que prescinde do aprendizado e persiste na burrice, na idiotice, primando pelo patético, pelo ridículo, apenas pelo prazer do espírito de contradição? Ó trevas! Haja sabedoria! Corolário do conhecimento. 

Se Freud não se comunica, também não se explica; o diálogo se complica, o entendimento se estrumbica e o saber se debanda pras bandas do caixa-pregos, o cafundó em que se perde a essência da humanidade; a humanidade que, temos dito, e se não de todo, em muito perdeu a qualidade. Lidar com a treva da ignorância que se compraz com a própria escuridão, é bater em pedra, dar murro em ponta de faca, comer vidro moído, perder tempo com causa perdida. Nesse caso, resta-nos a indiferença, não obstante lamentarmos a (in)consequência que só conduz à perdição do ser pensante que, de resto, nem pensava, ou pensava com deficiência, por insuficiência de cálcio ou fosfato cerebral. 

Como eu dizia, e repito, o tirocínio do talento, cada um o tem a seu tanto. Logo, a propósito do tiroteio verbal que por aqui presenciamos ainda há pouco, brinco com o chocalho das palavras, onde os vocábulos se assimilam e tirocínio reboa como tirocínico, macaqueia como tirossímio, ricocheteia e ecoa misto de tiro e assassínio, de coisa que se leva a mau termo, pelas vias de fato. Exagero meu, é claro, como é vero que me dou a brincar com tudo, por vezes primando pela inconveniência, feito menino intrometido na conversa, desviando a atenção dos adultos, ou querendo atrair para si as atenções da audiência. A questão em pauta continua a ser de mútuo respeito, que não é sinônimo de condescendência para com a ignorância, como não se trata de abrir concessão à mesma. 

Dá-se, como se me dá, que brinco com quase tudo, a ver o que extraio de sério; já quase nada levo a sério neste mundo ilusório; de ilusão é que vivemos; e sou desses que costumam ficar rindo sozinho, ruminando as maquinações de sua mente anárquica e caótica. Rio-me do mundo em que vivo, amiúde minha forma de chorar, como vivo repetindo. Mais me dói a parte machucada do mundo, que me toca doer. De mim mesmo, só dói quando eu rio. Rio-me do meu semelhante, meu espelho, então rio-me de mim — uma qualidade, pois não?, que assim me julgo e me reservo um “isso” de autoconsideração  —; e, não raro, nessas horas, em contrapartida, ainda que movido por um espírito menino, exercito um mínimo de autocrítica. Moleque, eu? Moleque é pé-de-moleque. E meu nome não é Ricardo, o moleque no romance de José Lins do Rego. Por vezes, ainda rindo, lembro-me do poema “Interjeição”, de Bruna Lombardi, em seu primeiro livro, “No ritmo dessa festa”, onde se lê, fechando o poema: “Moço, que incongruência um sorriso numa hora dessas”. 

Certo é que se têm a crítica e a Crítica — sistemática, holística na sua visão de conjunto —, a menor e a maior; uma que apenas se agita, gesticula e grita, e outra que realmente se exercita. A terceira via, dialética, é a crítica da crítica, num contraponto à crítica, num confronto abalizado de parte a parte; combater o bom combate, aqui reportando o romance — uma história fragmentado em contos — de Ary Quintela (“Combati o bom combate”, 1971). E não foi a primeira vez que o terreiro de bate-papo aqui na Bula serviu de arena ou palco ao duro confronto, um troca-tapa verbal em que as palavras soavam mesmo como bofetes, ou estalos de mão aberta no pé-do-ouvido, logo resvalando para o rodapé do intelecto, baixando o nível e atacando a moral dos oponentes. Nesse aspecto, já tivemos pronúncias grosseiras e inconvenientes por aqui, abominavelmente ofensivas, até de âmbito conjugal. Um esguicho de perdigotos biliosos, virulentos, espirrando bactérias; o bate-boca a ponto de reduzir homens a vírgulas. De permeio, surge algum provocador barato, riscando o seu palito de fósforo e logo também chamuscado, o intruso, ao fragor do tiroteio, do fogo cruzado, caso que seria de gritar-lhe: Saia do meio, miudeza! Se quer aparecer, vira carne moída para o pastel de vento da Eventos Pastelaria. 

Foi por essas e outras, ao rebaixamento das idéias e discussões, com a ígnea refrega de egos humilhados e ofendidos exaltando ainda mais os ânimos, azedando humores, em detrimento do bom combate e da sadia amizade; foi por conta de tal “armistício”, que, lamentavelmente, já perdemos a boa companhia de alguns dos colaboradores da Bula, não bastassem os que a morte já nos leva, como levou o saudoso Alcimar Fernandes. Pesarosos, pois então já prezamos a todos os articulistas desta webrevista, ressentimo-nos das perdas, ou “baixas”, no campo do intelecto, da permuta de informação e conhecimento, da boa polêmica, da política de boa vizinhança, do convívio pacífico. De minha parte, lamento, sim, pelos que se afastam melindrados pelos meus às vezes irrefreados modos francos e autênticos, se bem que um ou outro colega sempre volta com a capa do pseudônimo, e volta ressentido, procurando atazanar, querendo ofender, diminuir, ridicularizar. Olha um ali, ó, espi(on)ando-nos pelas frestas da sessão de Comentários. 

Somos o que somos ou não somos; o que nos cumpre é melhorarmo-nos enquanto pessoas. Eis o grande desafio: vencermo-nos a nós mesmos, e uma vitória deste quilate não intenta esmagar ou aniquilar a nenhum outro. Não nos queremos virulentos, malgrado, e por vezes, destilarmos o veneno das palavras, ou palavras de cunho venenoso, provenientes de mente venenosa; palavras até mesmo traumáticas à força de suas contundências. De fundo patogênico, a virulência, como se sabe, provém de microorganismo cuja capacidade destrutiva se mede pelo seu poder de invasão aos tecidos do hospedeiro —  órgão do corpo —  e pela mortalidade que produz. Pois não, Dr. Flávio? E não, Dr. Eberth? Corrijam-me. Parada para a sapiência de Paranhos. Com Vêncio me convenço. 

Poupemo-nos, uns aos outros, de nossas virulências, via de críticas exacerbadas em demasia. Aqueles que sabem mais, repassem; os que sabem menos, aprendam. Particularmente, aprendo mais nas vezes em que me afasto e não participo de certas contendas, de resto infrutíferas, ou com os acirrados e cítricos frutos da discórdia pela discórdia, sobretudo se aparece alguma besta de permeio, botando brasa em palha seca. Também, de parcos recursos na discussão das Letras, prefiro-me aprendiz. Ouço, leio, observo, apreendo, aprendo. Se me intrometo e percebo que estou sendo ridículo, constranjo-me a mim mesmo, então me retiro e reflito. O tal de desconfiômetro, de que muitos são faltos. Incomoda-me remoer o arrependimento e o vexame — o “mico” — de ter-me enfiado em discussão de matéria que não domino em profundidade e de forma mais elevada, mais ao nível dos debates, quando o nível é bom. E agora é minha vez: Saia daí, Braz! Vá estudar mais, e volte depois. Tipo assim: cresça e apareça. Até hoje, aproximando-me dos setenta anos (chego a 67 neste mês, e, cara-de-pau, aceito livros como presente), não sei o que serei quando crescer. Devo pagar para ver. Ou será que estou é me diminuindo com a idade? Ah, meu pai, quero mamãe! Mas ambos já se foram. Aqui estou comigo mesmo. Tenho que me encarar. 

Ao espelho, às vezes me desconheço, e me lembro de Aristóteles: Conheça-te a ti mesmo. É o que procuro fazer dentro de mim mesmo, num processo que exteriorizo nos poemas que escrevo na primeira pessoa, malgrado alguma crítica condenar-nos, aos poetas, a prima pessoa dos escritos. Somos cobrados por isso, mas há que estar-se, o crítico, atento ao processo de autoconhecimento do poeta, com a ressalva, é claro, de que a escrita na primeira pessoa não pode ser excessiva. Sim, os excessos, nesse caso, empobrecem ou podem empobrecer o poema, sobretudo quando o poeta é raso na busca de si mesmo, do entendimento de si mesmo. De poetas “menores”, digamos assim, sem a noção real do que seja poesia, há uma chusma deles na primeira pessoa, de forma piegas, pobre, quase lixo. Nesse, caso, sob o risco da contradição ao que defendo de civilidade aqui, vou apelar: são uns pretensos e abomináveis poetazinhos do ego, com uns versinhos de merda, e Goiás está cheio deles. 

Voltando ao tema das contendas verbais, é visto que, no chuvisco dos perdigotos e no lança-chamas de bocas draconianas, volta e meia confundimos diálogo com diábolo, amável com inflamável; alguns, gratuitamente, jogando lenha na fogueira, outros atirando combustível sobre a lenha, para se verem mais avassaladoras as chamas do circo pegando fogo, ou se alastrando feito queimada no cerrado. Há que filtrar isso, evitando ou contornando o jogo da provocação dos desocupados, meros sapeadores no jogo do intelecto — com idéias e palavras —, rodeando a mesa e buscando empurrar os jogadores uns contra os outros, e daí a tudo assistindo de arquibancada. Sem pagar ingresso, já que o processo das discussões é democrático, do que muitos se aproveitam para provocar, assim como quem, num campo de futebol, provoca o juiz, xingando-lhe a mãe. 

Crítica literária séria não é agressão, como não é para o bico medíocre, gratuito agitador que, vez por outra, se mete no que não lhe compete, e tão-só com o intuito de tumultuar, açular, com os cães de sua nulidade intelectual, as discussões em pauta. Tipos assim são frutos de “mentes desordenadas”, na expressão do argentino Henrique Anderson Imbert (1910-2000) — escritor, ensaísta, professor universitário —, que aqui se coloca a propósito, e do qual falaremos daqui a pouco. Claro que não se quer excluir ou alijar, de ninguém, o direito de participação e de expressão — o aparte, a opinião, o questionamento —, mas sim discordar do sujeito que, consciente (?) de sua pequenez — siamesa de uma surda, subterrânea negação do outro —, em nada contribui nas discussões, senão e somente para envenenar a atmosfera e alimentar o solitário e malevolente cão que ladra nos porões de seu ego, ou no aleijão de seu caráter. Ah, que cachorro é este latindo na penumbra do meu próprio ego? Misto de cão e morcego, o ego é o vampiro negro que suga a alma do indivíduo. 

Atacar, ofender ou afrontar pelo simples prazer de fazê-lo. Não é por aí, não passa por aí o caminho da inteligência. Estamos no campo da cultura ou da barbárie? Respeito, consideração, amabilidade, civilidade, diálogo — modos finos, no dizer dos antigos (ah, como estou velho!) —, se não são, “in totum”, sinônimos entre si, são análogos por contiguidade, senão que sejam opostos como as figuras de rei, rainha e valete nas cartas do baralho, num jogo que deveria levar em consideração as diferenças, consoante o discernimento de cada naipe entre o fino trato e a espessura de cascos quadrúpedes. Mas olha só quem está falando!, dirão, certamente, os que me conhecem a verve exacerbada da veia crítica, com a diferença de que os meus maus modos verbais não apelam para o jogo-baixo da sordidez nos argumentos. 

Sim, somos umas bestas no tropel dos relinchos; diria até que somos as bestas que sempre fomos, posto que a besta é sempre a mesma, apenas engrossa os cascos. Sejamos, pois, cavalheiros. Amabilidade acima de tudo. Se não nos amamos uns aos outros — e ninguém é forçado a isso —, também não nos esganemos como se esganam os cães entre si, por conta de um osso, pela cadela que os excita, ou pela simples e contudo tão complexa ferocidade do primitivo animal que nos habita, e do qual, ao que parece, não nos livramos nunca. Maldição, a fera da Criação. Vá se entender aos tais desígnios de Deus. Olhe-se bem para o homem e nos digam que maldita imagem e semelhança é essa de que a besta humana (?) se vangloria. Bela bosta! — Oops!, escorreguei-me aqui no visgo de meus maus modos. Bela aberração, a estampa desse homem que somos, de natureza selvagem, sanguinários, sanguissedentos, e piores do que a selva de onde saímos. No fundo da selva, o grito de Cristo: Eli, Eli, lamá sabactâni? / Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mateus, 27:46). 

A irônica indireta que bate direto no queixo, o sarcasmo que soca os rins, o escárnio que ridiculariza a quem merece, quando utilizados não como finas lâminas — delas que riscam mas não aleijam, no plano da fala ou da escrita —, ou com a sutileza de quem bate com luvas de pelica; quando não assim utilizados tais recursos, soam desastrosos, causam estragos no diálogo, machucam o âmago a que se endereçam, um e outro já com o ego mais afeito à massagem, já com ela mal-acostumados. Passíveis de melindres, nos doemos com os esfolões nos joelhos do ego que nos mantém de pé; de ego esfolado, e ressentidos, nos retiramos da contenda, batidos feito cão sarnento, cainhando com o rabo entre as pernas —, ou então disfarçamos e saímos por conta própria, de fininho, porque não estamos agradando — quando o cenário, por si só, se torna insustentável, o que não é bom para ambas as partes ou tantas quantas aí estejam envolvidas. 

O descontrole dos ânimos açulados, a brandir palavras como lâminas numa dança de cortes, não contribui senão e somente para adubar azedumes da discórdia, regar com substância tóxica a crítica cítrica e já exacerbada, destilando inimizade. Sopeso e reflito sobre tudo isso, ao peso do que também pratico, tenho praticado, venho praticando. Se se olha para os lírios do campo, olhemo-nos a nós mesmos, lírios impuros do futuro. Pessoalmente, nunca vi as faces da tal de pureza. Por onde anda Dona Pureza? Atrás de cocaína pura? 

Não estou aqui com uma falsa moralidade de palmatória, e muito menos como hipócrita semeador de preceitos bíblicos — afaste de mim este cálice —, antes porque incomoda-me as ofensas de pesssoas umas às outras, como incomoda-nos, a todos, sermos mal-compreendidos ou vistos de forma equivocada. O incômodo de vermos pessoas melindrosas que, emburradas, ressentidas, bicudas feito maçarico, afastam-se de nós, levando com elas o cálice da amizade, quando não somos nós mesmos que o entornamos. Sim, é numa hora dessas que se pede desculpas, não se limitando a chorar sobre o vinho derramado. E não é também assim, melindrando-nos, que por vezes nos comportamos? Quão amargas as mágoas! “Luz! Mais luz!” — pedia o grande Goethe, à hora da morte. Peçamo-la, não a morte, mas a luz, mais luz, conhecimento e sabedoria, para a nossa mísera vida. E mais adubo para os 10% do nosso anêmico intelecto. 

Vai daí que, fuçando e refuçando livros de minhas pequenas estantes, dando papilote nas traças e espirrando ao sopro do pó, me deparo com a obra “Métodos de crítica literária”, de Enrique Anderson Imbert (Coimbra, Livraria Almedida, 1971), tradução de Eugênia Maria M. Madeira de Aguiar e Silva, parece-me que utilizando edição original de 1969, em Madri, pela Editorial Revista de Ocidente). Ou seja, uma obra já quarentona — a contar-se com 1969 —, que trata de aspectos da crítica, inclusa a crítica à crítica. 

De utilidade pública, tanto quanto cultural, essa obra, pela pertinência do que observa, serve-nos — sobretudo a nós, leigos na matéria em foco — de lentes de aumento para a dimensão do tema. Um livro de leitura intérmina à nossa conta, in débito pro réu — indubitavelmente “in dubio” —, e uma conta que pretendemos agora fechar, quitar, dando termo à leitura interrompida, a par com outros volumes de crítica que os temos por ali encostados. Atitude que tomamos incitados pelas últimas discussões na Bula, evidente que para alguma coisa nos serve — até para fins de auto-reflexão de nossas próprias atitudes —  a seção de Comentários desta boa e oportuna mídia eletrônica, tão abnegadamente comandada por Carlos Willian, o qual, volta e meia, algum cretino intenta  denegrir. Ih, escorreguei aqui, abrindo a guarda, baixando o nível e entrando em contradição com o que estou a defender em linhas quilométricas! 

Amainado (?) o abalo císmico das agressivas discussões, arrefecidos (?) os desencontros e encontrões de praxe nos quebra-paus do verbo, transcrevo parte do “Prefácio” que o próprio Enrique Anderson Imbert redigiu para “Métodos de crítica literária”, na Harvard University, em Cambridge, Massachusetts, em março de 1968. Segue-se o texto, “ipsis litteris”, com ortografia de Portugal à época. 

*

Prefácio 
Enrique Anderson Imbert 

Admitamos, antes de mais, que o tema é ingrato. Trata-se de fazer critica à crítica. Quer dizer que temos de afastar-nos da literatura, que é o que ralmente vale, e acomodar a nossa visão a um novo objecto. O nosso objecto já não é a literatura: é a crítica. A diferença está em que a literatura é a expressão de um modo de intuir as coisas; e a crítica, por sua vez, é o exame intelctual precisamente daquela expressão.

A literatura, expressão; a crítica, exame... Sem dúvida, estes dois movimentos da alma — exprimir, examinar — ocorrem numa mesma pessoa. Em todo o poeta há um crítico escondido, que o ajuda a cuidar a estrutura do seu poema; e por sua vez, em todo o crítico há um poeta que, do interior, o ensina a simpatizar com o que lê. Por isso, na história da poesia, é frequente o caso de poetas que nos deixaram lúcidas auto-críticas e, na história da crítica, também é frequente o caso de críticos que, mais do que analizar objectivamente uma obra alheia, se põem a revelar o seu próprio lirismo. Mas, certamente, estas mesclas não têm como resultado a crítica literária. Produzirão auto-críticas, produzirão lirismo críticos, mas para isso, para ser deveras crítico, falta-lhes objectividade. Outras vezes, as duas funções, a criadora e a crítica, operam separadamente na mesma pessoa. É o caso de certos escritores que cultivam com igual sorte a expressão da sua própria obra, por um lado, e o exame da obra alheia, por outro. Os que procuram “críticos puros”, críticos que sejam apenas críticos, costumam exasperar-se contra esses bicéfalos poetas-críticos (ou críticos-poetas). Há, todavia, críticos de uma só cabeça. Não são necessariamente melhores. A profissão de crítico não é garantia de agudeza. Na convocatória aos críticos que aqui se faz, não haverá preconceitos gremiais. Ninguém consegue patente de crítico. Que compareça a crítica tal como acontece e donde quer que venha. Não pediremos credenciais. Posto isto, deixemos de lado a crítica, aquela que, pensada por mentes desordenadas — sejam profissionais ou não —, só oferecem observações supérfluas e a médio produzir! É a mais copiosa, mas não vale a pena nos ocuparmos dela. Ocupar-nos-emos, pois, da crítica sistemática. O que entendemos por crítica sistemática? Não nos referimos, naturalmente, à forma externa de que se reveste essa crítica, mas ao rigor intelectual com que está fundamentada. Um breve e ocasional comentário a um livro pode estar concebido sistematicamente e, pelo contrário, todo um tratado de aparência cadêmica pode carecer de sistema. Chamamos crítica sistemática à exercida por críticos que se esforçam por compreender tudo o que entra no processo da criação de uma obra literária. Durante séculos a meditação sobre a literatura tem sido séria. Não tinham ainda nascido as ciências que todo mundo hoje respeita e já a crítica se propunha ser científica. É injusto, pois,  que muita gente julgue que qualquer profano mais ou menos familiarizado com a literatura está em condições de fazer crítica. Ante uma literatura que realça o ideológico, o crítico pode discutir idéias gerais; ante uma literatura pura e hermética, o crítico torna-se especialista da análise; mas em todos os casos a crítica requer um sério esforço de aprendizagem. Toda a pessoa culta  tem uma noção mais ou menos clara do que é a crítica. 

(Fim da transcrição). 

“O panorama não é mais claro hoje do que há dez anos. O crítico da crítica, trapezista de circo, costuma enjoar enquanto o trapézio oscila de um extremo a outro. O que julgou ver bem, já não está à vista; nada está onde estava.” Assim escrevia Enrique Anderson Imbert, em 1968, e falava de chaves para se entrar, por três portas, na literatura. Classificava, dentro da crítica, as seguintes disciplinas: literatura como instrumento (estudos utilitários), como problema (estudos filosóficos), como parte da vida social (estudos culturais) e como valor (estudo propriamente critico). Como se vê, não é tão simples assim, e não se vai à fonte sem antes saber os caminhos, como não se tem as chaves se nada sabe de fechaduras. E não é com pé-de-cabra que se abre o saber; não é com trepanação que se abre a inteligência; e só por força de circunstâncias se traz a fórceps, e à luz do mundo, a nova criança, porque esta tem que viver. Imbert falava de classificação como exercício teórico; “classificação baseada na realidade que se mostra na consciência do estudioso de literatura; isto é, o circuito da actividade criadora do escritor, da obra que esse escritor criou e da recriação dessa obra no espírito do leitor”.

 Não, eu não trouxe as chaves de Imbert, pelo fato de que delas ainda não me acerquei — intérmina leitura, eu disse; e ainda nem comecei com “O demônio da teoria - Literatura e senso comum”, de Antoine Compagnon, também ali encostado — ó tempo para tudo! Ando atrás da obra “Anatomia da  crítica”, de Northrop Frye, tido como um dos mais importantes trabalhos na área. Buscai as chaves da crítica sistemática que se impõe e aqui nos foi cobrada. Claro, para isso há o curso de Letras, nas universidades, como há livros de e sobre o assunto. Mas, no enquanto, quem sabe os mestres e críticos colaboradores da Bula — ou a quem interessar possa e se habilite —, repassem-nos, em linhas gerais, as chaves e um pouco sobre método de crítica literária? 

Os métodos críticos, certamente, não são perenes, podem mudar com o tempo (ou não?), já que, com o tempo, tudo ou quase tudo muda. Houve uma lufada de “New Criticism” (anos 50), entre outras, como correntes de ar; os ventos soprando em várias direções. Perguntas de repórter cultural: E hoje? O que há de novo? Que tal um pouco sobre as correntes da crítica e suas tendência atuais? E mais: “Um crítico deve confiar no seu próprio nariz, como o cão de caça, e se deixar que um qualquer tipo de teoria ou princípio o distraia disso, então ele não está a cumprir a sua tarefa.” Como lidam, os mestres, com esta afirmação de William Empsom, que, ao que consta, modelou e dominou, por décadas, a crítica literária inglesa? Vinde, ó mestres, descei até nós.

Chapados na chapada

Trouxeste a chave? Pertinente indagação de Carlos Drummond de Andrade a quem se aproxime e se proponha a adentrar o poema. Extensível, naturalmente, ao adentramento crítico. As chaves, meu filho. É com as chaves que a gente se entende. Sem elas, nem São Pedro lhe abrirá as portas do céu, ou da percepção, independentemente de Aldous Huxley, crítico mordaz  e cético, que, após uma viagem à Índia, retornou embebido de misticismo oriental, daí realizou, sob acompanhamento médico, experiências pessoais com a mescalina e o ácido lisérgico (LSD), do que resultou as obras “As portas da percepção” (1954) e “Céu e inferno” (1956). Remember, dos Beatles, “Lucy in the Skys with Diamonds”. Pegou o LSD aí? Subliminar, meu caro Watson. As chaves das portas da percepção. Não quer dizer que, em se tratando de abrir a mente para a crítica literária, inclusa a crítica à crítica, vá o neófito dar uma de jumento no estábulo da estupidez que é o apelo às drogas, e não aos estudos. Não dá valor à própria vida? Quer morrer, mané? Então morra, ué. Cemitério é o que não falta. E os vermes do bom Deus, que a tudo criou, estão famintos. 

Há coisa mais absurda, estúpida, estrábica, idiota e “careta” do que o indivíduo injetar-se veneno nas veias, ingerir toda sorte de entorpecentes, aplicar-se anabolizantes musculares indicados para cavalo, e só pela babaquice de imitar Rambo e Schuartz Eneger, “malhados” para as mulheres que apreciam o tipo? Quem mais “burro” — não estou afirmando, apenas perguntando —, as louras — ah, como são invejadas! — ou esses bobos aí com mais músculos do que massa cinzenta no cérebro? (Doeu, cara? Mas é pra doer mesmo. “Hasta la vista, baby”). Ou é só para exibir-se aos outros? Babaquice. Temos filhos, estamos sujeitos a tudo, a pagar com a própria língua, mas, questão do vício à  parte, que é um tremendo problema estatal, social e familiar, tudo isso, essa coisa de drogas, bole com os nervos da gente, a ponto de  comprometer-nos a humana compreensão. Senhor Deus dos desgraçados, vinde a nós, que recorremos a vós. 

E quer coisa mais trágica, que muito nos  dói, do que as catastróficas lipoaspirações de mulheres “feias” que querem ficar bonitas e só ficam mais feias, e de mulheres “lindas” querendo ser mais lindas aindas e o que logram é se tornarem monstruosas? E há coisa mais criminosa do que isso, por conta de maus cirurgiões, alguns deles charlatães? Por que as mulheres não se aceitam? Por que ficam inventando moda, caçando chifre em cabeça de égua? Pois o chifre na cabeça da égua é a infelicidade decorrente da besteira que se comete. Toma tento,  mulher. Toma consciência de si. Apelar para os recursos estéticos é uma coisa, mas exagerar no apelo é também uma estupidez. Submeter-se cegamente às imposições da moda, à tirania do culto do corpo e da beleza, aos ditames de terceiros só movidos por seus próprios, mesquinhos e sórdidos interesses; submeter-se a isso, eu dizia, é mesmo não ter consciência das coisas. Não pensam, homens e mulheres, no que possa estar por trás de tudo, como a ganância das indústrias, e que estão sendo manipulados pelo jogo da sociedade capitalista e consumista? “Acorda, menino!” Ecoa-me este brado e vem-me à mente, também, uma outra peça no contexto deste jogo: a mídia — impressa, eletrônica e, sobretudo, televisiva. 

A estas alturas, ao estilo braziano e fazendo jus ao título geral que encima este “pequeno” ensaio (?) ou tratado (?) — presunçosa força de expressão —, e porque uma coisa puxa outra, visto é que saímos da crítica literária e, pelas portas do desvio ou digressão — que cremos vir ainda a propósito do nosso enfoque —, já adentramos o globo ocular da percepção enviesada, vesga, focada no caminho das drogas. Ressalvados os atributos e contributos medicinais porventura existentes no campo das ervas e dos compostos químicos, manipulados por mãos científicas responsáveis, com a seriedade que o conhecimento e a sua prática requerem em relação à ética, em benefício da sa(n)grada família humana, reunida em sociedade, aglutinada enquanto humanidade.

A mescalina — aqui para leigos, pois o sabem os entendidos ou informados —, é um alcalóide da fenetilamina — composto tóxico —, encontrado no cacto peiote. O uso se dá por ingestão de chá, uma infusão psicoativa, podendo que amargue e provoque naúsea antes dos efeitos psicodélicos. Também buscando abrir as tais portas e ampliar as fronteiras da mente, mais gente havia, como o escritor e antropólogo Carlos (Aranha) Castañeda — que dizia-se filho de Juqueri, atual Mairiporã, em São Paulo —, fazendo experiências com o “peyote cactus” (de propriedades psicotrópicas, nativo do sudoeste dos Estados Unidos até o centro do México), que lhe embasaram a dissertação de mestrado, publicada em 1968, sob o título “The Teachings of Don Juan: A Yaqui Way of Knowledge“ (“A erva do Diabo”, no Brasil), “best-seller” entre a legião de jovens do “movimento hippie” e da contracultura, que se movimentavam escorados nos cajados de bruxos ou gurus, e que logo partiram para experimentar o que estava no livro. Entre esse e outros experimentos, buscava-se uma “viagem” por meio de efeitos psicodélicos; alguns dos passageiros entrados em estado de graça, ou de desgraça, meio que idiotizados, patéticos, ridículos: He-he! (riso bobo). Legal, bicho! Pode crer! Mó barato! Só paz e amor! Sóóóóóó!

Doidões, os bichos, completamente chapados na chapada de seus cérebros, trágicos e patéticos, com os olhos estrábicos da percepção. Ocorre-me lembrança do mineiro de Pedra Azul, no Vale do Jequitinhonha, o humorista Saulo Laranjeira, ótimo na caracterização e imitação do roqueiro doidão, uma das maravilhas da flora e fauna humana. Ainda com relação à “aranha” do antigo Juqueri, está escrito nos registros: “A escrita de Castañeda foi desacreditada pela maior parte das pesquisas antropológicas sérias e é considerada geralmente como ficção alegórica.” (Wikipédia, a enciclopédia livre). Sei de mim que fui na onda da mídia — mas não na onda do bruxo, em termos de experiências — e li as coisas de Castañeda — “A erva do Diabo” (lido por inteiro), “Uma estranha realidade” (lido em parte), “O segundo círculo do poder” (lido pelas metades), “O presente da águia” (lido em boa parte) e “O fogo interior” (mal-começado e posto de lado). É que eu comprava os livros atraído mais pelas encantatórias ilustrações de capa, e lia um pouco enredado pela atmosfera mágica das narrativas. Foi indo, parei com Castañeda, como parei com Paulo Coelho logo após a leitura de “O Alquimista”, que achei um “dèjavu” ou pastiche de coisas do Oriente, com uma história meio clichê, um manjado meio-tom bíblico e um quê de auto-ajuda, então me dei por (in)satisfeito. E não me perguntem se li “Eram os deuses astronautas?”, de Erich von Däniken. É claro que li, como li Lobsang Rampa (“A terceira visão”), alguma coisa de Krishnamurti e de madame Helena Petrovna Blavastky (“A voz do silêncio”). À época, achei curioso, instigante, o livro de Von Däniken; fiquei imaginando um encontro da humanidade com os extra-terrestres, mas não cheguei ao ponto de querer-me abduzido por deles, como aqui brincou Eberth Vêncio, numa lúcida e saborosa crônica sobre sua noturna espera pelos ETs e por sua  abdução na Chapada dos Viadeiros.

Todos esses gêneros de leituras, deixei-os lá no passado, há décadas. Saturado, impregnado de tudo “aquilo” — com o devido respeito — de que fui me soterrando até um certo ponto da vida, em dado momento, num sacolejo de galo que se livra de seus piolhos, desvencilhei-me de tudo. Liberto e convicto, posso dizer que meu reino não é esse de muitos aí, meu caminho não é por aí. Meu reino é a sede de um saber que ainda não alcancei. E penso que o bom saber não está na pieguice ou na trivialidade de coisas chinfrins, que são quase coisas nenhumas, embora reconheça e desconverse que também elas representam alguma coisa, e que possa haver grandezas no “ínfimo” — termo íntimo de Manoel de Barros, poeta do ínfimo —, haja vista o grão de areia em que está contido todo o universo, como bem observou um antigo sábio. E mais: as chaves que busco não levam aos templos de extorsão por hipnose coletiva dos fanáticos, ou de crédulos incautos porquanto ingênuos; ingênuos porque incultos na sua humilde simplicidade; e meu Deus não é o mesmo dos charlatães, que os há de toda sorte sobre a face da Terra, como há canastrões oportunistas com o cuspe de uma pseudoliteratura. Transpondo os umbrais das Academias de Letras! Destas que, já por algum tempo, não resguardam a sua credibilidade, assim como o Prêmio Nobel, que também dá os seus “escorregões”, ou, como se ouve dizer, delibera conforme soprem os ventos das conveniências políticas do momento.

No que deu aquela onda toda, psicodélica — “Turn on, tune in, drop out" / Ligue-se, entre na onda, caia fora (da sociedade), conclamava, nos anos 60, Timothy Leary, o papa do LSD —, de Woodstock (1969) pra cá, quem sobreviveu pode contar. Vale lembrar que, de acordo com a fonte já citada — não omito as fontes, não banco o falso sabichão —, a escrita de Castañeda foi desacreditada pela maior parte das pesquisas antropológicas sérias, sendo hoje considerada como ficção alegórica. Assim como Cristo, com toda a sua brandura, “induziu” seus seguidores ao furor do império romano; assim como as ideologias políticas têm induzido, literalmente, tanta gente aos horrores da tortura e do assassinato, também Thomas De Quincey (“Confissões de um comedor de ópio”), Théophile Gauthier (“O Clube dos Haxixins”), Charles Baudelaire (“Poema do haxixe”), William Burroughs (“Almoço Nu” e “Junky”), entre outros, “induziram” o rebanho à busca das benditas portas da percepção. Muitos perderam a percepção de si mesmos e se transformaram em zumbis, sombras que caminham sobre a Terra. Ainda hoje alguns avançam em direção do abismo, e quem sabe ali encontrem a última porta ou fresta de alguma percepção. Miseráveis criaturas.

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Mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha do que um rico inculto e panaca adentrar as páginas de William Blake para assistir ao matrimônio do céu e do inferno. Bruna Lombardi — sempre a chamei, carinhosamente, de Bruneca —, no poema “Interjeição”, assim começa: “Qual é a atitude que você está tomando, moço?” Jorge Luis Borges, escrevendo sobre Blake, sublinhou: “Blake nos impõe três caminhos de salvação:  o moral, o intelectual e o estético.”

“Quod erat demonstrandum”. Se é que alguma coisa foi mostrada ou demonstrada — desmontada? — neste “pout pourri” meio pout que parri. E mais não digo nem me seja perguntado, que mais não logro no lago de meu leigo Logos. Me larguem. Não tem até logo. E aqui me vou me voando assim sempre brincando como brincam alados passarinhos a voar revoando. Peguem aí o pássaro do meu fraterno abraço a todos.

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