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POR EM 10/03/2008 ÀS 08:04 PM

América Nuestra

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Uma barreira ao conhecimento da nova produção é a presença de medalhões como Mario Vargas Llosa. Eles seguem publicando e ocupam todos os espaços nos meios de comunicação do Brasil.  São efeitos persistentes do “boom literário” que, 40 anos atrás, lançou para o mundo um punhado de escritores da América Latina


 

Para conhecer literatura hispano-americana, o leitor brasileiro ainda depende de escolhas feitas pelas editoras de grandes centros globais. Um autor argentino, mexicano ou caribenho estará disponível no Brasil após a chancela de quem edita livros em Nova York, Londres, Paris e Madri. É a lógica da triangulação das trocas econômicas. Há as exceções de praxe, mas uma obra de um país vizinho precisa atravessar oceanos para depois chegar às prateleiras das livrarias brasileiras.

As grandes editoras espanholas Planeta e Alfaguarra se instalaram no mercado brasileiro há pouco tempo. Já ocorre, assim, o lançamento de um número considerável de livros de autores de língua espanhola, principalmente de romances. Existe pouco intercâmbio de poesia. Um aspecto altamente positivo é a ousadia de pequenas editoras brasileiras como Iluminuras, Argos, Amauta e UFMG, que vêm publicando ensaios e narrativas experimentais de escritores latino-americanos. 

Uma barreira ao conhecimento da nova produção é a presença de medalhões como Mario Vargas Llosa. Eles seguem publicando e ocupam todos os espaços nos meios de comunicação do Brasil. Predomina também um tipo de romance, cuja maior representante é Isabel Allende, que absorve traços do realismo mágico e acrescenta pitadas de amor romântico. São efeitos persistentes do “boom literário” que, 40 anos atrás, lançou para o mundo um punhado de escritores da América Latina.

Nos últimos anos, chegaram ao Brasil relançamentos dos medalhões latinos-americanos, todos já devidamente canonizados por estudos acadêmicos, boas vendagens e espaço na mídia. São os uruguaios Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti e Felisberto Fernandez; os peruanos Vargas Llosa e José Maria Arguedas; o colombiano Gabriel Garcia Márquez; os mexicanos Juan Rulfo e Octavio Paz; e os cubanos Alejo Carpentier, Lezama Lima, e Guillermo Cabrera Infante.

Jorge Luis Borges é ainda a figura central da literatura hispano-american, graças à repercussão na Europa e Estados Unidos. Sua obra foi citada no livro mais famoso de Michel Foucault, “As palavras e as coisas, e influenciou autores dos grandes centros culturais do mundo. Muito acreditam que se trata de um escritor de temas universais, mas essa visão não se sustenta mais após os fundamentais estudos de Beatriz Sarlo, que apontou a relação de Borges com a literatura argentina.

Os livros de Borges estão sendo reeditados no Brasil pela Companhia das Letras e devem aumentar ainda mais o interesse pelo autor de “Ficções” e “O Aleph”. Junto a Borges, outra figura consagrada é Julio Cortazar, que teve repercussão excepcional no Brasil nos anos 1960 e 1970. Prova disso é o livro “O Escorpião Encalacrado”, de Davi Arrigucci, que analisa as principais obras de Cortazar como “O Jogo da Amarelinha” e traça um amplo painel da literatura latino-americana.

A Argentina forneceu no século XX uma quantidade impressionante de bons autores ao campo literário da América Latina. Alguns dos principais nomes recentes são Ricardo Piglia e Juan José Saer. Ambos reúnem em seus romances um trabalho de auto-questionamento constante das formas narrativas e um diálogo peculiar com a História de seu país. Não fazem, entretanto, ficções históricas na linha de seu compatriota e ótimo escritor Tomás Eloy Martinez.

Martinez realiza uma desconstrução dos mitos políticos da Argentina moderna, ao ficcionalizar as vidas do casal Juan Domingo e Eva Perón. A experiência histórica é um tema constante na literatura argentina – como atestam os trabalhos de Martin Kohan, Luis Gusmán e Rodolfo Fogwill. Os três já tiveram livros publicados no Brasil. Um caso à parte entre os argentinos é Cesar Aira, que possui uma obra incrivelmente numerosa e vinculada aos experimentalismos.

Junto a essa ficção argentina, começam a sair por aqui os ensaios de Daniel Link, Graciela Montaldo, Josefina Ludmer e Sylvia Molloy. Esses pensadores mantêm ligações estreitas com estudiosos brasileiros que fazem a revista "Margens/Margenes" – publicação conjunta da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Buenos Aires. Entre os latino-americanos, os intelectuais argentinos são os aqueles que mais dialogam com os brasileiros. 

Os chilenos também possuem uma longa de história de diálogo com os autores brasileiros. Após o golpe militar de 1964, o Chile tornou-se um refúgio para intelectuais do Brasil. A importância da literatura chilena pode ser medida pelos dois prêmios Nobel do país, Pablo Neruda e Gabriela Mistral. No boom literário, tornou-se conhecido José Donoso. Seu romance mais conhecido, “Casa de Campo”, é uma extraordinária alegoria da sociedade chilena.

No entanto, os leitores brasileiros estão privados da grande obra produzida no Chile nas últimas décadas: as narrativas de Diamela Eltit. Livros como “Lumpérica” e “Mano de Obra” são difíceis de classificar por trafegar entre a ficção e o ensaio. O olhar dela volta-se para o lado obscuro de um país preso ao trauma de uma ditadura militar, a de Augusto Pinochet, e que sobrevive em tempos de culto ao mercado. Diamela coloca-se na outra extremidade de seu conterrâneo Alberto Fuguet.

Tempos atrás, Fuguet lançou o manifesto "McOndo" para ironizar a herança do realismo mágico da cidade fictícia de Macondo, criado por Gabriel Garcia Márquez no romance “Cem Anos de Solidão”. De acordo com essa perspectiva, os novos escritores da América Latina encontram-se diante de uma realidade global. No final das contas, Fuguet é melhor ficcionista (basta ler “Baixo Astral”, o divertido romance pop lançado no Brasil) do que pensador.

A Colômbia é outro país que tem novos bons escritores no mercado brasileiro. Fernando Vallejo apresenta no romance “A Virgem dos Sicários” uma das escritas mais provocadoras entre os latino-americanos contemporâneos. Também provocante é Efraim Medina Reyes, com o seu livro “Técnicas de Masturbação Entre Batman e Robin”, cujo título dá uma idéia do espírito anárquico do autor. Já Santiago Gamboa, em “Síndrome de Ulisses”, narra a vida dos imigrantes em Paris.

A imigração dos latinos para várias partes do mundo já rendeu uma literatura nova nos países centrais. No livro “Nosotros in USA”, a pesquisadora brasileira Sonia Torres analisa a escrita de chicanos (mexicanos-americanos), nuyoricans (porto-riquenos que vivem nos Estados Unidos) e cubanos exilados. São autores que escrevem em inglês e espanhol e mantêm um pé fincado nas suas culturas de origem (língua, literatura) e outro pé no novo país.

No ano passado, surgiu o fenômeno de um escritor latino-americano que viveu a experiência do desterro. Muito pouco conhecido onde nasceu, o chileno Roberto Bolaño virou a sensação no mercado editorial nos Estados Unidos depois de morto. Ele vem tendo uma recepção calorosa e leitores de alto gabarito também no Brasil. Sinal de que o campo literário brasileiro volta a se abrir para as narrativas dos vizinhos hispano-americanos – isso sem falar de um cinema recente de alto gabarito. 

 

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