revista bula
POR EM 11/01/2011 ÀS 03:50 PM

Acerca da arte

publicado em

As Tentações de Santo Antônio

Desde há algum tempo deixei de ler Arnaldo Jabor. Pelo mesmo motivo que não leio Diogo Mainardi e até mesmo o brilhante João Ubaldo Ribeiro — tornaram-se monotemáticos, e, como tais, monótonos. Os deslizes morais do governo Lula se transformaram em fortes e irresistíveis lâmpadas acesas para os escritores-mariposas (ou seja lá que inseto for que se sente atraído por luz). Não é que eu faça parte do grupo que perdoa o mensalão e similares. De jeito nenhum. O PT acabou pra mim. Existe tanto quanto o PSDB de FHC ou o PP de Maluf. Coloco-os na mesmíssima cumbuca, não faço a mais microscópica diferença entre eles. Mas estou me desviando. 

Não lia mais Jabor há algum tempo, mas li sua coluna no jornal “O Popular”, que fala sobre a última Bienal de SP. A obra de arte deve ser exaltante, defende ele, criticando as instalações com pretensas mensagens sócio-políticas. Diz Jabor: “A sensação dominante que tive foi de ruínas ou de despejos da civilização. Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma vergonha de ser “arte”, vergonha de provocar sentimentos de prazer”. [Grifo meu] 

Isso me fez lembrar de Slavoj Zizek, um filósofo cuja obra gosto muito de ler, embora dele discordando várias vezes. Zizek, a cujo livro “Lacrima Rerum — Ensaios Sobre Cinema” recorri em duas colunas minhas na revista “Filosofia Ciência & Vida”, a pretexto de analisar filmes do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, tem um estilo direto, objetivo (a não ser quando entra em terreno lacaniano) que muito me agrada. Mas desvio-me novamente. Enfim, eis do que me lembrei, quando li Jabor: “Supostamente, apreciamos a arte tradicional, espera-se que ela traga prazer estético, ao contrário da arte moderna, que causa desprazer; a arte moderna, por definição, fere. Nesse sentido exato, a arte moderna é sublime: causa prazer-na-dor, produz seus efeitos por meio do próprio fracasso, na medida em que se refere às Coisas impossíveis. Em contraste, parece que a beleza e o equilíbrio harmonioso são cada vez mais do domínio das ciências (...)” (“A Visão em Paralaxe”, Boitempo, p. 200). 

Tenho pontos de concordância e discordância com ambos, Jabor e Zizek. Pra começo de conversa, não ficarei pedindo desculpas por palpitar em arte, como fez Jabor. Palpito sim, e com propriedade. A concedida pelo fato de apreciá-la. E muito. De forma que os críticos e “especialistas” vão dando licença aí, que estou passando, aprovem ou não. 

Concordo com Jabor quando ele reclama do uso da arte para transmitir “mensagens”. Mas isso não é novidade. Foi esse o ponto de meu artigo Arte não serve pra nada. O “nada” ali, a despeito do que pensaram aqueles que não se deram ao trabalho de ler o artigo, ficando preguicosamente só no título, era “nada que se pretenda moral ou ideologicamente correto”. Arte com mensagem não é arte. É panfleto. E ainda corre o enorme risco da mensagem se virar contra seu autor, e o que for “correto” hoje se torne abominável amanhã (Leni Riefenstahl que o diga). Mas Jabor está errado quando lamenta a perda do belo na arte, e a vitória da “vertente triste” do modernismo. 

Aqui entra Zizek. Arte não precisa ser bela, exaltante, transcendente (seja lá o que isso realmente signifique), para dar prazer. Ela pode dar prazer na dor (sem os hífens mesmo). Abundam exemplos. Mas está errado o filósofo esloveno quando atribui essa característica à arte moderna. Arte “feia”, disforme, “incorreta” sempre existiu. A morbidez de Bosch, pintor flamengo nascido em 1450, é um bom exemplo. Preste atenção aos detalhes sórdidos, bizarros e, portanto, “incorretos”, de “As Tentações de Santo Antônio” (acima), oficialmente do Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa, mas com um exemplar no MASP. Dificilmente encontrar-se-á pintura mais bela, e, no entanto, repleta de tipos feios. Uma verdadeira anti-mensagem. Bosch é dos meus preferidos, escolhi seu “A morte e o avarento” para capa de meu livro de contos “Epitáfio”.

Quem sabe fazer arte “feia” sabe fazer arte “bonita” também. E por incrível que possa parecer, a feia costuma ser mais interessante. Goya, por exemplo. Quem vai ao Prado, em Madrid, e contrata o serviço de um guia local, corre o risco de ouvir dele que a tradução de “As meninas”, famosa e belíssima pintura de Velázquez, que tem apenas o inconveniente de ser um atrai-turista danado, o que atrapalha sobremaneira sua apreciação, como “As adolescentes” (Velázquez deu título em português ao quadro). Esse mesmo guia jogará todos os confetes do mundo na porção “normal” da obra de Goya, na qual o Prado é rico. Mas se referirá com reservas, citando inclusive a teoria de provável origem doentia, à sua porção “negra”. Pois pra mim esta é infinitamente mais interessante do que a “normal”. Veja “Saturno devorando o próprio filho”, por exemplo. Belíssimo (trouxe um pôster dele, bem grande, pra colocar em minha biblioteca, mas minhas meninas não deixaram). 

 Quer mais? Veja o quadro abaixo. Chute de quem é.

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 Acreditaria se eu dissesse que é de Edvard Munch? Sim, aquele mesmo do famoso e batidíssimo "O grito". Uma exposição na Pinacoteca de Paris esse ano expos vários quadros seus, menos o famigerado Grito. Era até engraçado ver os ônibus rodarem pela cidade com a propaganda da exposição sem a ilustração do quadro. Mas foi ótimo, pois a turistada não achou graça em ir ver um “desconhecido”. Azar o deles e bom pra mim, pois eles deixaram de ver o que não veriam em lugar algum, já que se tratava de quadros de coleções particulares, que eu pude apreciar sem a aporrinhação de gente que vai a museu só pra carimbar o passaporte. Organizados em ordem cronológica, os quadros de Munch davam exata noção da passagem de um “artista enquanto jovem” para um artista maduro e cada vez mais mórbido e, ergo, interessante. Comparem a pintura anterior, bonitinha, ok, mas sem-gracinha, com essa aqui:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Ou essa:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Além, é claro desse, apesar de batido:

Dali, o pseudo-malcomportado e adorador de ouro, teve seus dias de bom menino, como atesta seu "Muchacha en la ventana" (a da direita), da coleção do Rainha Sofia em Madrid (cujo restaurante tem o melhor bacalhau da Espanha). Ainda bem que Dali enveredou pelo surrealismo (feio, mas muito mais interessante), pois tinha gente mais talentosa do que ele quando se tratava de bom comportamento. O alemão Caspar David Friedrich e sua "Frau am Fenster" (a da esquerda), pintado mais de uma centena de anos antes. Engraçado que nem o guia da Alte Nationalgalerie, em Berlim, nem o do Rainha Sofia fazem menção à semelhança. Não sei se cabe falar em plágio aqui, mas, se coubesse, esse seria certamente o caso.

Mas, a Dali o que lhe pertence. Sua fase surrealista é brilhantemente perturbadora. Vide um exemplar do Rainha Sofia, "El gran masturbador":

Arte é isso. É algo que instiga, belisca, faz pensar. É o que nos tira da inércia existencial. É o que dá sentido à vida, essa coisa absurda entre dois nadas. Um dia tudo, todos os Goya, os Dali, os Munch, os Friedrich, e também os Beethoven, os Bach, os Mahler, e ainda os Kafka, os Dostoievski e os Woody se tornarão ozyymandiacamente pó. Mas e daí? Quando acontecer, serei eu pó também.

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