revista bula
POR EM 19/06/2008 ÀS 07:01 PM

Uma parede toda azul

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Criança o velho nunca tinha desenhado. Um pouco por causa de certo pudor inexplicável, seu pudor de velho, que desde sempre sentira, mas também porque criança não sabe dizer muita coisa além de criancices.

Então aconteceu ter acordado naquela manhã achando que estava na hora de conversar com alguma criança. Sua memória não o ajudaria muito - não vira uma só que fosse nas últimas décadas. Mesmo assim estava decidido a tentar ainda que não passasse de um esboço sem muitos detalhes, com traços bem simples e alguma delicadeza. Principalmente na voz. Retivera na memória, este tempo todo, a lembrança de algumas palavras ouvidas em voz infantil. Uma sonoridade que se aproximava da voz do flautim, quando as palavras eram proferidas aos borbotões da raiva, mas podia parecer de veludo, como o som da clarineta, sempre que estivesse na hora de dormir.

Levantou-se da mesa do café com muita esperança, apesar do corpo um tanto curvado. Tinha algumas idéias, que não queria extraviadas, por isso evitou sair ao quintal, onde costumavam enganchar-se nos galhos mais baixos dos maricás os melhores pensamentos que concebia. Urgia registrar as idéias que lhe afloraram à medida em que ia engolindo seu desjejum. Nem trocou de roupa, convencido de que nas dobras do próprio pijama escondiam-se recordações provavelmente indispensáveis.
  
A banqueta de três pernas estava no lugar de onde nunca saía, em frente à parede azul. A seu lado, quase muda, a caixa de giz à espera de novas criações. O velho, condescendente, olhou-as com olhar macio – suas companheiras de muito tempo. Ele mesmo, muitas vezes, confundira-se naquele cenário, por não saber onde ficavam seus limites, o recorte que o deveria fazer distinto do ambiente onde se movia.

Com calma resignada começou a limpar melhor a parede, onde não apareciam traços físicos de personagens anteriores, mas tão-somente manchas brancas do giz apagado. Depois de considerar com atenção o espaço vazio na parede, o espaço azul a ser preenchido, achou que estava tudo bem, sem, contudo, iniciar imediatamente sua obra. Era um tempo que não lhe fazia falta, um tempo indiferente que não chegava a ser um desperdício. Para os solitários bem treinados no exercício da solidão, o tempo é apenas uma invenção proposta por algum delírio.

Não era todo dia que o velho forjava suas criaturas na parede. Apenas quando sentia necessidade de conversar sentava-se na banqueta, aguçava o pensamento e começava a dar forma a seu companheiro. Tinha preferência por homens, pois com eles entendia-se bem, sem ser preciso explicações tortuosas. Às vezes criava mais de uma pessoa. A conversa animava-se, havia divergências, enfim, os assuntos voavam.

Na semana anterior, inventara de construir um casal. Então tivera de passar o dia inteiro na frente da parede, porque conversava uma hora com o marido, então tinha de dizer alguma coisa à esposa. Voltava ao marido, que reclamava das interrupções e assim o tempo foi passando, e só abandonou o parlatório no início da noite, quando apagou o casal para dormir.

Sua melhor criatura, ainda lembrava, tinha sido um homem de óculos com lentes bastante grossas e olhar cândido, um olhar minúsculo e brilhante. Ele se apresentou como um sábio antigo, filósofo cujos escritos foram queimados em Roma, num incêndio de proporções gigantescas. O mundo, disse-lhe o filósofo, o mundo teria sido outro, não fosse a desfaçatez daquele maluco. Deu conselhos com voz calma, enunciou alguns princípios pausados e luminosos, por fim despediu-se fechando os olhos antes de ser apagado.  

O velho sentia um pouco de ansiedade ao começar os primeiros traços de uma nova personagem por não saber de antemão a quem estava dando vida. Suas criaturas eram sempre surpresas para ele mesmo, que odiava ser surpreendido, amante como era de sua rotina. Quando sentia o giz tocar na superfície lisa da parede, sua mão estremecia com uma vibração tão sutil como aquela do corpo do passarinho, que um dia pretendera salvar no quintal, por baixo dos maricás.

Criar uma criança, então, passou a ser uma pressão desafiadora. Podia dizer que inventava o mundo sem necessidade de abrir os olhos, mas não podia saber qual o resultado de tal aventura. Isso era o que o velho entendia por uma pressão.

Suas mãos estavam úmidas e ele as enxugou no jaleco sujo de giz. O suor umedecia-lhe também a raiz da barba cinza. Mas ele não cogitou de secar a pele do rosto, pois vinha chegando a imagem dos cabelos de uma criança e não podia perder tempo com o supérfluo. Era um cabelo castanho e liso, de um menino, de um menino com a idade das crianças. Uma idade em que se canta para chamar alegria.   

Gravado o primeiro traço na parede, o velho entrefechou o olho esquerdo, enrugado, para imaginar as dimensões. Jamais cometera uma desproporção. De suas mãos era impossível aceitar que saísse qualquer forma que não fosse perfeita. Aproximou-se um pouco da parede com as mãos trêmulas de carícia. Uns tantos gestos rápidos e retos, alguns ondulando curvas suaves e o esboço de uma cabeça estava pronto.

Passando pelo pescoço, relutou em lhe dar uma garganta por não saber o tipo de pigarro usado normalmente por uma criança. Então secou novamente a mão para não molhar o giz, para não ter dificuldade de apagá-lo mais tarde, quando fosse a hora de dormir. Enquanto não se resolvia sobre a garganta, dedicou-se a trabalhar nos olhos. E os fez com uma habilidade majestosa iguais aos seus próprios olhos, que via com freqüência no espelho. Usou sua própria imagem como modelo.

Um pouco mais e a fisionomia foi-se delineando: um ar de quem acaba de se descobrir muito cansado. Tentou corrigir o paradoxo, mas os retoques acentuavam cada vez mais os cantos caídos da boca e dos olhos. Parou de trabalhar, afastou-se para examinar melhor o que estava feito. Havia grossura de giz nos traços que se cruzavam. Mas não havia mais remédio, as formas dadas teimavam em não se desmanchar.

No desenho do corpo, um corpo infantil enroupado, não houve dificuldade. Apesar disso, quando chegou ao desconforto – agachado para desenhar os pés – por causa de uma vertigem, o velho sentou-se no chão, imóvel.

O menino pela primeira vez sorriu e cumprimentou seu autor com voz de flautim. Que sono, ele demorou-se dizendo. Então bocejou com amplitude e estirou os braços. Ao sair da parede, não encontrou mais o velho, que havia desaparecido, por isso tirou o jaleco sujo e foi dormir.   

 
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