revista bula
POR EM 21/05/2008 ÀS 11:19 AM

Uma Ferrari em Mundocaia

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Quando o proprietário morreu de cirrose etílica, Chiquinho da Loló já era de maior e tinha sido promovido a comprador-vendedor. Sabia mais do que qualquer outra pessoa no mundo sobre os segredos de como tocar o ferro velho do Zé Pelego. A mulher e os filhos do morto quiseram tocar o negócio e despediram Chiquinho com acinte e humilhação. Mas o norrau que ele tinha de administrador foi com ele.
 
Chiquinho pensou até em começar um novo ferro velho nos arrabaldes de Mundocaia. Mas tinha só a cara, a coragem pouca e sua experiência acumulada de anos mergulhado na graxa.

O negócio do finado patrão, por inexperiência dos herdeiros e desavenças internas, foi fazendo água. Mas o pior de tudo é que o Zé Pelego, do outro mundo onde se encontrava, resolveu dar umas incertas no estabelecimento. De quando em vez um cliente, assim sem mais nem menos, via seu fantasma zanzando entre as prateleiras de peças. Houve um caso em que Zé Pelego até tentou comprar umas sucatas de um cliente habitual. Os fregueses, apavorados, foram raleando. Até que o negócio teria ficado às moscas, se fosse açougue. Mas como era ferro velho, ficou às ferrugens.

Puseram placa de vende, mas não apareceu interessado. Um dos herdeiros, o que mais havia maltratado Chiquinho, foi atrás dele e lhe propôs negócio. Chiquinho fez doce, querendo descontar as humilhações que sofrera. À noite, o antigo patrão lhe apareceu em sonho, deu conselhos e fez revelações.

Pelego lhe informou que ele (Chiquinho) era seu único filho verdadeiro. Que aqueles que se diziam seus filhos eram postiços. Quando pegou aquela mulher, ela já teria vindo com os acessórios filiais prontos. Aconselhou-o a comprar, que na condição de pai, mesmo sendo um habitante do além, lhe daria uma mãozinha na recuperação do negócio.

Pelo sim pelo não, Chiquinho comprou o estabelecimento a preço de galinha velha na bacia das almas. Passou pra dentro e começou a reorganizar tudo: uma faxina em regra, o rearranjo das prateleiras. Pintou as fachadas e pagou umas horas de carro de som para apregoar na praça a nova direção.

Na reinauguração, convidou antigos e potenciais clientes para um churrasco. Era uma tarde de sábado de enfumaçado agosto. Quando o pessoal já estava engrenado no chope e se fartando de carne assada, começou um redemoinho no meio do pátio. Apesar dos sanis-da-cruz feitos em sua direção, o troço crescia a olhos vistos. E foi crescendo, juntando poeira, gravetos, pedaços de latas e fazendo aquela bagunça sobrenatural. Os convidados saíram correndo pra ver de mais longe. O rodopio foi incorporando peças que estavam por ali amontoadas, numa fúria crescente.

De repente a paz restabeleceu, restando só um funil de poeira desaparecendo céu acima. O pessoal retornou e tudo estava no lugar. A não ser pelo fato de que o redemoinho havia construído, do restolho, uma Ferrari Maranello, zero em folha, que reluzia impávida no centro do pátio. E pelo fantasma do Zé Pelego que nunca mais atormentou ninguém.  

 
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