revista bula
POR EM 11/06/2008 ÀS 10:32 PM

Toc

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O balde d'água estava encostado no canto da sala de jantar. As orquídeas, emurchecidas e arroxeadas, então no colo do vaso tosco e postado sobre a mesa de ébano, exalavam um cheiro peculiar a morte. O relógio da parede, com seu pêndulo e seus algarismos romanos, executava um acorde de tempo e sonolência, ou seja, ruminava as horas.
 
E Roque estava ali, coxo e capenga como sempre. Limpava a sala. Esfregava. Esfregava o rodo contra o assoalho, num coxear insistente. Eram Roque e o toc, toc e o Roque. Roque, tocando seu rodo, rodava pela sala adentro. Era bobo e babava. Tinha uma perna besta, abobalhada como ele mesmo. Seu semblante denotava uma estupidez bem maior do que o maior e o maior dos mistérios.
 
Naquela manhã de maio, cinzenta e fria, eu me postara, naquele canto da sala, a observá-lo. Parecia não existir. Era como um ente, um gnomo. Como pode? Como? O bobo nem está morto nem está vivo: é um susto no tempo (...).
 
Margarida me contara seu sonho. O vulto surgira, dizia ela, unicórnio e loucura revestidos de negra túnica, fogo, língua ardente queimando o espaço, à procura de seu corpo, no meio do vento e do campo anuviado. Margarida me confiara. O campo, segundo o sonho, bem como o ar, recendiam a flor, e se moldavam nas ondas da névoa, ao bafor empírico e plástico. Ela me dissera. O sonho acontecera justamente um dia depois que o bobo lhe ofertara aquele ramalhete de margaridas. Com a baba escorrendo pelo canto da boca, hálito afumado comendo o beiço, ele chegara, como a dizer “margaridas para Margarida”, dando a entender o seu desejo.
 
Margarida confirmara. O bobo surgira, monstrengo de negra túnica, expondo uma gana de quem muito deseja. Ele a possuíra durante o sonho: incubo?
 
Estávamos à porta do hotel. O frio nos tocava levemente na tarde baça. Margarida nada sabia sobre o bobo. Não sabia de onde viera, por que viera, nem como viera. Um dia apareceu por aqui, falava. Chegando, ajeitou-se neste hotel – andrajos e bobeira solitária. Já acostumamos com a sua figura esquisita e seu idiotismo, dizia.
 
Eu estava de passagem. Era caixeiro-viajante. Não entendo o motivo, mas, naqueles dias, momentos em que passei na cidade de Caldas, ele se me afeiçoara, grudara a mim. De vez em quando, punha-se resmungando para o meu lado, exprimindo sílabas desconexas, como se estivesse roncando, ganindo. Sacudia, balouçava os ombros, baba escorrendo no canto da boca, quando me chamava a atenção.
 
Algo que nunca me saiu da cabeça era aquele seu jeito e costume de dizer-me, numa convulsão estúpida, que, se morresse, voltaria para ver-me. “Eu volto”, repetia, continuamente, com sorriso lacônico. Era quase incompreensível. Às altas horas da noite, estando em meu quarto, eu o escutava arrastando os móveis, manquejando na escuridão do sótão. Claudicava. Era toc, toc, toc.
 
Eles se foram na madrugada de sábado, em direção àquela pescaria. Eram quatro: três irmãos e o bobo. “Eu volto”, disse-me antes de sair. Levaram canoa, material suficiente, para um bom momento às margens do Corumbá. “Eu volto”.
 
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Toc. Toc. Toc. Ei, Roque? Roque? Novamente toc. Ah, você está aí, hein? Levantei-me da cama. A luz do quarto permanecera desligada O coxear no sótão cessara. Sentado na cama, ouvidos e olhos atentos, fiquei alerta. Ei, Roque? Você não está pescando? Ei?!
 
O hotel era só silêncio. De repente, o manquejar desceu, pelo corredor, em sentido ao meu quarto. Toc. Toc. Toc. Era o bobo? A porta estava encostada. O manquejar achegou-se. Ei, Roque? É você, hein? Eu refletia. Ela se abriu. A luz frágil, tênue, pôs-se no vão, enquanto uma lufada fria, violando a luz suave, assoviou por entre a porta.
 
Os corpos foram encontrados. Todos os irmãos. Fazia quase uma semana que haviam ido. A canoa virara. Os corpos foram encontrados, menos o do Roque.”Eu volto”.
 
Depois de uma semana, após o acidente, ele aparecera. Estava imundo, maltrapilho. Ao retornar. Deixou-me encabulado e pensativo. Morrera ou não? Telebulia ?
 
A chuva fina, e fresca, caía sobre a cidade. Eu já estava de saída. O menino chegou gritando: “Ei, o bobo voltou! Ele está aqui!”
 
Deparei-me com ele no corredor do hotel. Fedia.Com os olhos assustados, sorriso lacônico no beiço (havia um quê em seu interior), disse-me, ganindo e revirando a cabeça, ao sibilo do infustamento das palavras: “Eu volto”.

 
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