revista bula
POR EM 10/11/2008 ÀS 12:10 PM

Os desatinos de um nome

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Antes mesmo de nascer, o pai determinou: se for menina vai se chamar Desdêmona. A família não tinha informações de quem era Desdêmona na tragédia de Shakespeare, nem na ópera de Verdi, tampouco que o nome vem do grego e significa mulher de má sorte. Eh, o velho bardo gostava dos tais nomes falantes.

O restante da família achou o nome meio atrapalhado, mas ante a teimosia do pai durão, ninguém ousou demovê-lo. Como não havia ultra-som para revelar o sexo do rebento ainda no cerne da mãe, os familiares torciam para que viesse um menino, para quem o  pai escolhera um nome que não desagradava tanto: Iago. A sogra arriscou perguntar: por que não Tiago? A senhora é ignorante. Então fique calada! Disse o pai arrotando pretensas erudições.

Para descontentamento dos demais e gáudio do pai, veio uma robusta menina. Pai normalmente quer um filho-homem por amor de seu narcisismo. Mas ele se apegara tanto ao nome, que desejava ferrenhamente uma filha para lhe atribuí-lo. Então lá estava ela, a Desdêmona.

Antes que algum impedimento irrompesse, correu ao cartório para o registro. Quando declinou o nome, o escrivão perguntou se tinha certeza. Irritado o pai quis saber por quê. Desdêmona tem Demo no meio, disse o escrivão indiferente. Bobagem, retrucou o pai em sua convicção irremovível.

A menina tinha realmente alguma coisa de extraordinário. Quando a enfermeira foi tirar o sangue para o teste do pezinho, a agulha rejeitou a pele e derreteu que só cera morna. Trouxeram mais agulhas, e nada. Assombrada, a enfermeira desistiu do teste.    

Outras coisas estranhas começaram a acontecer. A enfermeira deu um berro e desmaiou ao adentrar o berçário e ver a pequena levitando meio metro acima da borda do berço.

Quando todo mundo já começa a acostumar com as esquisitices, ela deu de andar pelo rodapé das paredes. Depois evoluiu para as caminhadas pelo teto, de cabeça pra baixo, que nem uma lagartixa branca, falando coisas confusas com voz de caverna. Deu para olhar para os semáforos e as luzes se confundirem. Muita gente se acidentou com as confusões por ela provocadas. A lembrança do Demo no meio do nome assaltou o pai que, já meio assombrado, contou a todos.

A mãe fez novena, já não para a filha sarar. Mas para morrer e livrar a todos daquela tribulação, que julgavam ser a presença do demo. Certo dia, quando ela flutuava entre um bloco e outro do condomínio onde moravam, parece ter perdido a estabilidade e se estatelou no chão. O IML a deu como morta. Velório foi feito, mas, para espanto geral, na hora de fechar o caixão para ser enterrada, ela se levantou lepidamente e falou: mamãe, quero água.

Como tinham o atestado de óbito, acharam por bem considerá-la morta e registrou o nascimento de outra filha, como o nome que a mãe queria: Renata. E todos os problemas desapareceram e a ex-Desdêmmona é agora uma garotinha dócil e amigável. A mãe acredita que sua alma foi trocada.
 

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