revista bula
POR EM 09/06/2008 ÀS 07:04 PM

O aventureiro Franco Ornelas

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Franco Ornelas deixa monumental biografia de aventuras. Nas amorosas então era exímio. Seu negócio era variar de mulher. Ele se apaixonava perdidamente à primeira vista. Bastava que a mulher tivesse o mínimo de apelo físico e o máximo potencial de perigo. Mas uma só acolhida da mulher em seu tálamo, ou que na alcova dela fosse rolar, já era o de que precisava para enjoar definitivamente.

Dessas aventuras de alcova sobreviveu a várias emboscadas, a tiros no peito a facadas de maridos furiosos. Cada cicatriz era um troféu, que tinha orgulho e prazer em exibir na roda aos amigos.

Mas suas aventuras não se resumiam a essas, não. Ainda jovem foi piloto de moto e se apresentava no globo da morte de um circo. Segundo consta, depois que ele deixou a função, o circo nunca mais arranjou piloto tão arrojado. Tinha um número que ele fazia a sete metros de altura, sem rede, por fora, em cima do globo. A bola rodando e ele compensando o giro da bola no acelerador da moto. Depois saltava fazendo pirueta sobre uma rampa. E nuca se machucou nessas loucuras.

Foi pára-quedista ousado. Saltava de avião e deixava para puxar a presilha no último instante. Tirava o fôlego da platéia. Dizem até que foi o primeiro brasileiro a saltar de prédio e nos despenhadeiros na Chapada Diamantina.

Teve um período em que chegou a trabalhar em Hollyood, como stuntman, nas cenas de desmantelo. Naqueles tempos, românticos do cinema em que as cenas de perigo eram feitas, não por computador, mas por malucos de carne e osso, lá estava Franco Ornelas, vendendo sua coragem e sua habilidade para dar realismo às cenas. Nessa época ele teria unido suas habilidades de acrobata com  as de aventureiro de alcova. Dizem que pegou as divas mais cobiçadas dos anos sessenta. E não duvido, porque de fato ele era um sujeito bem apessoado e de lábia escorreita. E o que era mais importante, dedicava-se quase que à atividade com muito afinco.

O que Franco Ornelas jamais poderia prever é que depois de sobreviver a tantas aventuras radicais, sua vida fosse ter um fim tão ordinariamente trágico.

Ocorreu que, com as campanhas de combate ao mosquito transmissor da dengue, ele quis contratar um biscateiro para limpas as calhas de sua casa. O camaradinha pediu duzentos reais para o serviço que faria em poucas horas. Foi aí que o nosso aventureiro, já velho e com a barriga protuberante, resolveu ele próprio subir no telhado e executar o serviço.

Uma telha úmida se rompeu com seu peso e o fez desequilibrar. Ainda tentou uma manobra dos seus bons tempos de stuntman, deitando sobre o telhado em busca de alguma coisa pra se agarrar. Em vão. Tudo o que ele agarrou desceu com ele e madurou na calçada. O socorro veio rápido. A ambulância subiu a 85 abrindo fendas no engarrafamento a golpe de sirene. Mas dentro do veículo o nosso Homem de Plástico, como foi chamado um dia, já estava abrindo fendas no além com suas braçadas de aventureiro.  

 
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