revista bula
POR EM 20/10/2008 ÀS 03:56 PM

Batismo de fogo

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Belmiro sempre foi um menino bom. Nunca se deixou contaminar pelas mazelas da invasão, onde vivia com a mãe. Porque o pai, não. Este sim. Sujeito mala que se deixou envolver pelos negócios nebulosos dos traficantes e morreu cedo em condições suspeitas.

E, de boa índole que era, jurou pra mãe que com ele haveria de ser diferente. Jamais sujaria as mãos com as podridões do mundo em que seu pai se meteu até o pescoço. Haveria de estudar, pegar uma carreira honesta e decente. Ganhar a vida sem fazer mal a ninguém. Quem sabe um dia poderia bater no peito com justificado orgulho e dizer: tive tudo pra me perder na vida, mas aqui estou, honrado, honesto e feliz, para desmentir a todos esses que justificam suas mazelas pelas agruras da rua.

A mãe compartilhava desse sonho. Era questão de tempo: subir daquele buraco embrejado, sair da muvuca e ir morar numa casa de conjunto ou num apartamento de bairro decente. A duras penas mantinha o pequeno Belmiro na escola, só estudando, sem trabalhar, sem ir para a esquina onde pudesse dar curso a atividades ruinosas.

Belmiro escolhia os amigos. Optava sempre por aqueles que também alimentavam sonhos de engrenar na vida, mudar de sorte, encontrar um outro patamar, um jeito de viver e usufruir das coisas boas que a vida oferece, mas pede muita dedicação, firmeza e sacrifício em troca. Assim, um de seus raros amigos era o Toninho Zebu, junto com quem ia à escola, fazia tarefas de casa e descolou as primeiras minas. Um verdadeiro brother.

Ele estava firmemente determinado a seguir o figurino das pessoas de bem, daquelas que trilham pelo bom caminho sem se importar se há tempestade, se há cantos de sereia, se há tentações quase irresistíveis. Quando chegou a hora de trabalhar, Belmiro subiu pra cidade e bateu de porta em porta.

Semeou currículos a vento como as plantas jogam seus polens na primavera. Depois de meses, nenhuma resposta positiva. Foi quando restou a oportunidade de prestar concurso para o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar.

Belmiro nunca pensou em ser polícia, muito menos do BOE. Porque eles é que são chamados quando a situação entorna o caldo. Belmiro não era medroso, mas não queria ganhar a vida usando de coragem violenta.

Pela contingência da vida, fez a inscrição, e passou na prova. Comeu o pão que o diabo amassou naqueles treinamentos escrotos. Envenenou a índole o quanto pôde. Jurou defender a corporação contra quem quer que fosse. Jurou matar bandido como se mata rato no ninho ou se pisa em barata.

Ontem foi o batismo de fogo do novo oficial do BOE. Sua missão era, num bacorejo trivial, quando o comandante apontasse o dedo para um suspeito aleatório, Belmiro lhe aplicaria uma saraivada de balas. Simples assim. Foi então que o comandante apontou o dedo.  Justo para Toninho Zebu. Seu brother. 

 

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