revista bula
POR EM 14/07/2008 ÀS 09:46 PM

Adagio appassionato

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Sua mão estremece sábia e desconfiada após o afago. Corpo estranho, este corpo crescido, ela tateia: fora de seu controle. Contorna com os dedos o lóbulo da orelha, flácida curva. Definitivamente, com exceção do corpo, a mesma Estela que subia das ondas do mar, aureolada de sol, e vinha correndo ao seu encontro, aspergindo areia e o doce perfume de seu hálito infantil, e, cheia de inquietação, de longe, ainda, perguntava mãe, foi mesmo Deus quem salgou a água do mar?, e ela respondia que sim, minha filha, por saber que a menina em tudo dependia dela e isso a fazia sentir-se forte. Vê-la era sempre como um susto, por gosto. Com uma ponta do lençol, seca o rosto da filha, suavemente, porque mais que isso ela sabe que não conseguirá fazer.
 
Conhecera-lhe o corpo, saliências e reentrâncias, cada espaço, porque em si a tinha gerado. Apenas o corpo, que estava em si controlar. Você, pensa Lígia quase envergonhada, vinha correndo de dentro do mar, banhada de luz, respingada de água e areia e então eu a reconhecia. Como era bom aquele tempo em que eu a sabia uma parte de mim.
 
Há mais de meia hora a claridade azulada se esvai lenta e resig-nadamente pelas cortinas cerradas, abandonando o quarto. A cama, colcha repuxada, perdeu a aspereza das formas exatas: ninho de nuvens, agora. O Cristo da parede, coração exposto, não aparece mais na paisagem que até há pouco o sustentava. Lígia olha para o Cristo e para a janela, olhar duro e reto, irritada com a impotência dos dois. Então olha para o vulto impreciso de Estela sem saber mais nada, seu mundo vazio.
 
Nada, então, a solução de tudo? Por mais que se desespere tentando resolver a questão, apenas uma fina camada de suor no buço e as palmas das mãos frias e úmidas. Não está preparada para as transformações nem as deseja.
 
Às vezes tem a impressão de que Estela dorme, por isso torce bruscamente os dedos, temendo o impasse.
 
Com a mão trêmula e gasta de vida, sacode de leve o ombro da filha. Seu pai, Estela, daqui a pouco em casa. E a filha a encara, os olhos vermelhos ainda. E inchados. E eu, que faço de mim, desorientada? Lígia volta a olhar para a janela, em fuga, agora, para não se machucar naquelas duas brasas que a perscrutam. A janela é mancha azulada que nada diz.
 
Aguda e travosa, uma coisa arranhando o interior de sua garganta - a consciência da perda. E antiga. Não pode desvencilhar-se da idéia de que abdicara de alguma coisa sagrada no deserto instante em que recebia nos braços o corpo molhado de Estela. Que sim, sua resposta invariável, que Deus. Que outra coisa poderia responder, se ela era tão pequena e sua cabeleira loira empastada de água salgada nada revelava sobre o futuro?
 
No ar morno do quarto protegido, convidou Lígia. Assuntos de alcova. Estela estava tensa, o semblante destruído. Mas então, o que é isso? Não que ignorasse totalmente por que caminhos perigosos andava a filha. Não ignorava. Mas havia sempre a esperança de que não passasse tudo de boatos. Essa maldade que nos faz destruir com certo gosto. Mesmo, entretanto, tendo já tido notícias, precisava ouvir da própria boca, a boca de Estela, com a força de seu hálito, para então acreditar. Quando ouviu sua voz pelo telefone, logo depois do almoço, meu Deus do céu, uma voz assim, e achou que havia fundamento nas histórias.
 
No ar morno do quarto protegido, Lígia pensa horrorizada que o silêncio a vai estrangular. Então não eram mentiras, dizia o olhar com que recebeu na sala, logo depois do almoço, a filha desesperada. No ar morno do quarto protegido, ela convidou, porque dividia sua casa por assuntos. Tenta com afinco encontrar a Estela que emergia das ondas, mas só a encontra perquiridora refazendo as significações. Sem auréola de sol - tenebrosa. Bem mais fácil enlaçar-lhe o corpo quando molhado, apesar do sal e do frio. Conhecia-lhe, então, todas as curvas existentes e as que apenas se prometiam.
 
De repente, aproveitando-se de um dos muitos momentos de silêncio que se estabelecem no quase impossível diálogo, Lígia arrepende-se de ter trazido a filha para seu quarto. E é com horror que pensa nisso, porque aquela é a filha que criou, tentando todos os dias educá-la, fazê-la igual a si mesma. Tê-la agora deitada em sua cama, com a cabeça abandonada em seu regaço, é uma espécie de conivência indesejada. Há pecados contagiosos como doenças. Mesmo sem vê-lo, ela sabe que o coração exposto do Cristo vela acima da cabeceira. De súbito lhe vem à mente a palavra violação: seu significado perigoso. Se já estava há algum tempo aflita com a falta de progressão da entrevista, agora está convencida de que não deveria tê-la começado. Pelo menos ali, no quarto do casal.
 
O que de certa maneira abranda a cumplicidade entre mãe e filha, ela descobre, são as sombras que silenciosamente foram diluindo todas as formas nítidas. Não ver alguma coisa pode significar sua anulação. E Lígia, então, volta a sentir-se calma e segura. Mesmo assim, contudo, é com alguma relutância que seu dedo desenha no escuro o rosto de Estela, numa carícia tão antiga quanto dissimulada.
 
Estela retrucava, às vezes, o coração cheio de suspeitas, mas como é que você sabe?, querendo descobrir as razões que se escondiam nas respostas da mãe. Ora, porque sempre foi assim. Cansada ou incrédula, sentava-se na areia e construía castelos de curta vida. Mas eles eram reais e decifráveis. Às vezes espichava os beiços e enrugava a testa, significando sua discordância. Era assim que costumava encarar os adultos, seu modo de ser insolente, de os considerar sempre culpados.
 
Ao fecharem sem ruído a porta do quarto, apesar da penumbra em que imergiam, por causa das cortinas, Lígia percebeu que era ainda dia claro. Examinou a janela, sem muita atenção, entretanto, pois sabia que a tarde vagava ainda entre sexta e noa. Antes que pudesse proferir uma única palavra, Estela jogara-se na cama, de bruços, engasgada em seu próprio choro. E assim ficara, por mais de meia hora. Entre soluços e suspiros, ao final de muito tempo, contou indignada a decisão do marido. Irrevogável. Ele, um advogado com seu vocabulário. Assim mesmo dissera: irrevogável. Afinal, quais são os limites do amor?, fitando a mãe, a interrogação naquela mesma cara com expressão de areia e mar. Por que há de ser o coração tão estreito que nele caiba apenas um amor?
 
Horrorizada, Lígia fizera o sinal da cruz. Que Deus, o mesmo que salgara o mar, perdoasse aquela menina pelo nonsense do que dizia. E tentou afastar-se, mas era-lhe impossível sem que empurrasse a cabeça da filha em prantos. E apesar do horror, e do suor, e do olhar manso e puro do Cristo de coração exposto, afagou com suavidade a cabeça jogada em seu colo. Que Deus nos perdoe a todos nós, humildes pecadores.
 
Volta-lhe o sentimento da violação, cujo zumbido, aliás, não tinha deixado de ouvir num espaço por baixo da consciência. E observa, então, como naquele momento se arrependera de ter trazido a filha para seu quarto. Nunca se pensara capaz de sentimento tão mesquinho. E este arrependimento do arrependimento anterior, que é negação por fechar o círculo, ele é que a impulsiona a curvar-se e, lábios tateantes, procurar a face da filha. Difícil entender a vida, minha filha. Há muito renunciei a qualquer entendimento. E no escuro do quarto, sente-se por momentos enternecida. Estela, ao jogar-se em seus braços - encharcado, seu maiô azul salpicado de estrelas - está entanguida de frio, a pele arrepiada. Ao enlaçá-la pela cintura, aquela mesma sensação de que a está perdendo. Já não sei quem foi, minha querida, não sei quem foi que salgou a água do mar. Mas onde foi isso, quando? Lígia olha para o Cristo de coração exposto, olha para a janela, como se fossem mais do que apenas duas direções, suas formas desfeitas na escuridão, e lhe pudessem sugerir alguma resposta.
 
Lígia não sabe mais se a filha vela - debruçada sobre sua dor - ou dorme, finalmente aliviada. Sacode-a com delicadeza e cheia de medo do que poderá estar acordando.
 
- Estela, minha filha. Agora temos de levantar. Já ouço os passos de seu pai.

 
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