revista bula
POR EM 24/05/2008 ÀS 10:50 AM

A jaula

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Levei minha namorada grávida pro terraço do edifício, beijei-lhe os lábios e joguei-a no vazio. Podes crer. Foi massa, vê-la cair lá de cima e esborrachar-se no asfalto, feito uma porca barriguda. Na maior. Pena que eu não estava lá embaixo, pra sentir de perto o impacto do corpo se arrebentando. Saca só, imagine a cena. A merda, cara, é que agora estou aqui sem merla, sem crack, sem uma carreirinha de coca, sem um doce da pesada. Não sabe o que é doce? LSD. Ácido lisérgico. Doideira, meu. Maior barato. E eu aqui sem nem sequer um baseado, um brauzinho básico pra esfumaçar as idéias confusas. Tô aqui nessa zorra, com uma zoeira em minha cabeça, sei lá o que é, um trem assim, umas vozes estranhas, e parece que um bebê chorando, longe, longe, lá dentro, no fundo de mim, dentro da alma, e no inferno da minha cabeça. Mas, se quer saber, de vera que não me esquento com isso não, meu irmão. Tô me lixando, cagando e andando se não tive êxito em tudo que fiz na vida, mas tive muito ecstasy, muita curtição, e agora tô preso aqui, neste fedor de merda e mijo. Quem foi o desgraçado que cagou até entupir a porra do vaso? Por que não consertam a droga da descarga? Isso aqui não é flor que se cheire, e a vida é mesmo uma merda. Me dei mal, mas fico na minha, apesar desta zoeira de grilos metálicos perturbando minhas idéias. Penso até que o bebê sou eu mesmo chorando, quando era pequenininho assim e minha mãe me abandonou na Estação Rodoviária. Me deu um pirulito e, sorrateiramente, sumiu e me deixou lá sozinho, chorando no meio de gente estranha. Pai? Tenho pai não, véi. Se tenho, não sei quem é, nem quero saber. Mas toca essa harmônica de blues aí, meu. Manda ver. Tu não é músico? Manda aí, pô.
         
Pausa para ouvir a gaita, gangorrando o corpo. Depois é o silêncio. O psicopata sentado no chão, escorado na parede e com as pernas estiradas, distraindo-se com mexer os dedões dos pés, como se fossem figuras de desenho animado, ou personagens do cinema mudo.
         
Não suporto mulher grávida, azarando a vida, botando mais inferno no mundo, volta a falar o assassino, para o colega de cela. Na verdade, não há ninguém ali, além dele, como não há nenhuma harmônica de blues. O companheiro de cela é imaginário. O preso ali é só ele, isolado, incomunicável, por ser de alta periculosidade e representar risco a outros detentos. Serial killer. Oito assassinatos em série, todos de mulheres grávidas. É doido varrido. Lembra-se do filme O silêncio dos inocentes, com Anthony Hopkins e Jodie Foster? Tem um psicopata que mata mulheres e tira-lhes a pele pra confeccionar com ela um vestido; o próprio assassino operando a máquina de costura. Pois é. Esse cara aí é terrível tanto quanto. Depois vem o outro filme, Hannibal – A origem do mal.

Coincidentemente, esse aí na cela se chama Aníbal, só que sem o agá e com um ene só. Por aqui já o chamam de Caníbal, mistura de canibal com Aníbal, onde se vê que a diferença é só uma questão de acento agudo ao invés de pingo no i. Ele jura que vai fugir e matar a mulher do diretor da prisão, mas o doutor Rafa não tá nem aí pras ameaças. Além disso, não é casado. Dizem até que é um boiola dissimulado e que solta a franga numa boate privativa, uma tal de Bungee Jump, em que se entra pela porta dos fundos e não se sabe bem onde é que fica. Chegadão numa rola, fissurado numa sucção, pegando com as duas mãos e caindo de boca, mamando a manjuba com sofreguidão. Dizem que ele costuma gritar Vai que é sua, Rafael!, que nem o Galvão Bueno gritava pro Tafarel, na hora da cobrança de pênaltis. É o que dizem os presos aí. Que o diretor é o cara. Pros cocos. Tenho nada com isso não.

Acho até que eles inventam essas coisas por causa de algum ressentimento, porque esse doutor Rafael é mão de ferro, mau pra caramba. Sempre que lhe dá na veneta, costuma colocar preso perigoso na cela dos tarados, o mesmo que atirar carne aos cães. Os caras também são assassinos irrecuperáveis. Malhados, musculosos, com cara de pitbull, metem medo até nos carcereiros. E têm uns cacetes de jumento. Dizendo os detentos aí que o diretor olha pra eles e fica logo com a boca cheia d´água... Também o bochicho que corre aí pelos cantos é que o matador de mulheres grávidas é o próximo da lista. O bicho vai pegar. Se correr, o bicho pega; si ficar, o bicho come. Vai ser um estrago. Vão detonar as hemorróidas dele. O cara tá ferrado. Literalmente fodido. Primeiro, antes de enrabá-lo, pois é certo que ele vai se espernear, vão dar-lhe umas boas porradas, amaciá-lo a murros, e ele nem vai saber se foi coice de burro ou castigo de Deus. Vão deixá-lo em petição de miséria, como dizia minha avó. Assim como tem a lei do Cão, tem também a lei de Deus, dizia ela, abraçada ao espiritismo e arrematando que Deus tarda, mas não falta com o castigo que cada um merece ou faz por merecer. Tenho pensado nisso, agora que me tornei evangélico, larguei as drogas e leio a Bíblia todos os dias.

Muito que me arrependo aqui na prisão, onde cumpro pena por ter estrangulado minha avó. Foi um acidente: dei-lhe uma gravata e exagerei no aperto, quando fui tomar-lhe dinheiro pra comprar droga, e ela tentou me impedir. Me arrependo e busco a minha salvação. Graças ao pastor Jacinto Pena, que nos visita aqui na penitenciária e garante que só os convertidos estão salvos dos maus caminhos, pois têm os passos rastreados por Jesus. Pastor Jacinto, fora da igreja, faz parte de uma cooperativa e botou pra rodar um microônibus na frota de transporte alternativo; contratou motorista e mandou fazer adesivo pra colocar no vidro do veículo, dizendo que o mesmo é Propriedade de Jesus. Diz o pastor que Jesus entrou nesse negócio com ele, e teve gente que fez chacota ao ler o adesivo; não sabia — ironizou o gozador — que Jesus, aquele que dissera “a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, agora estava no ramo do transporte de massa, explorando ganhos financeiros com as demandas da sociedade capitalista. O pastor Jacinto colou, também, no vidro traseiro do microônibus, e no vidro de seu carro particular, o adesivo com a frase Rastreado por Jesus. De nossa parte, em sinal de gratidão a Jesus, que nos salva de nossos pecados, a cada visita do pastor a gente contribui com dinheiro pra construção do Grande Templo da Fé Universal e do Reino de Deus. Já sinto pena de quem não contribui, pois terá que se haver com Deus, alerta o pastor, meio que sorrindo ao brincar com o próprio nome. Mas a gente aqui nunca que deixa de contribuir. Meu reino não é desse mundo, disse Jesus, o filho de Deus, e, por conta disso, o Grande Templo, segundo o pastor Jacinto, não será construído na Terra, mas no céu mesmo, onde fica a casa do Pai. Aleluia! Deus é pai e Jesus tem poder! Estou tão arrependido! Coitadinha da minha avó!

 
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