revista bula
POR EM 17/11/2008 ÀS 04:48 PM

A dinastia

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Dava gosto vê-los trabalhar. Ao nascer do sol, puxado pelo pai, seu Adão, o grupo de nove chegava ao pé do eito como quem chega para um espetáculo de dança ou ritual de fé. Um ao lado do outro, por ordem de idade e tamanho, ferramenta no ombro esquerdo. Com a mão direita, retirava o chapéu e o retornava à cabeça, olhando pro céu com gravidade. Protegia o rosto com um escudo de sinal da cruz e balbuciava umas palavras de subserviência a Deus. Tudo em uníssono. E mandava ver.

Seu Adão e os filhos eram afamados no Vale do Bingueiro, a ponto de serem chamados de A Disnatia. Não tinha serviço ruim para eles. Dizem que cobravam caro, mas o coronel Betúlio, seus contratante mais freqüente, achava que era o caro que saía barato: serviço a tempo e a hora.

Seu Adão buscou o nome dos filhos na genealogia de Cristo: Abraão, Davi, Jacó, Jessé, Salomão, Josafá, Ozias, José e Messias. Por ser o caçula, franzino, a rapa da tacha, se diz, Messias ainda não ia pro eito. Quando completou 10 anos, idade boa, Messias teve um troço, um desmaio que assustou todo mundo. O pai fretou um Jipe e o levou para tratar em Mundocaia. Abaixo de Deus, a Medicina lhe deu jeito. Mas Messias voltou com a cabeça virada: queria ser médico.

Seu Adão achou um disparate. Se nem o coronel Betúlio deu conta de ter um filho médico. Ele então!... Mas a idéia foi contaminando a família, como praga ou erva daninha. Os outros filhos, com tato e jeito, acabaram por convencer o pai a mandar o filho pra Munducaia estudar. Se nove não sustentar um, o mundo tá perdido, diziam.

 O filho franzino tinha para o estudo a mesma desenvoltura que os outros para a foice e a enxada. Não demorou para que Messias fosse o agente de idéias da cidade. Em poucos anos estavam todos contrariados com o estilo de vida que levavam. Pior. Perceberam que não havia mais lugar no mundo para gente que vivia como eles.

O mesmo ano em que deixamos o Vale, seu Adão, dona Eva e os filhos com nomes da Bíblia, se mandou pra Munducaia, atrás do sonho de ter uma vida melhor  um filho médico.

Rapidamente, cada qual arranjou uma ocupação. Serviço tosco, mas o bastante para continuar sustentando o sonho de ter um parente médico. Alguém a quem pudessem recorrer em caso de doença, de um ataque, de um acidente. Só lamentavam que o grupo havia esfacelado, cada qual prum canto, por sua conta e risco.

Quando o Messias se formou foi uma festa. A família reunida não cabia em si de justificado orgulho. “Coronel Betúlio não conseguiu ter um filho médico”, a vaidade comichava no íntimo do pai.

Agora Messias tem três empregos e pouco tempo para dar atenção ao pessoal que lhe foi tão bacana. Mas mês passado ele excedeu na displicência. Ao final de seu plantão, no pronto-socorro municipal, veio a notícia de um ancião anônimo atropelado.  Messias alegou que o outro plantonista, quando chegasse, cuidava do caso.

Só na manhã seguinte, Messias soube que o homem atropelado era seu velho e comovido pai. Mas agora era tarde demais.   

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