revista bula
POR EM 29/09/2008 ÀS 03:01 PM

60 segundos em 50

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O uruguaio avançou pela direita. 
      
Bigode o acompanhava, a curta distância, na corrida. Rápido, sem se deixar intimidar pelo marcador, o uruguaio rasgava a intermediária do campo, rumo à meta brasileira. Tinha o fôlego dos desesperados. Passava dos trinta minutos do segundo tempo. A partida havia alcançado seu momento crítico e a Celeste precisava de mais um gol. O uruguaio sabia que em seus pés podia estar a última oportunidade de sua equipe de virar o placar. O título mundial estava em jogo. Tinha que ser perfeito. 
      
O arqueiro brasileiro, Barbosa, goleiro do tipo sem luvas, poucos passos de debaixo das traves, observou a aproximação do adversário com a frieza típica dos grandes da posição. Esperava. Por um instante imaginou que o lateral derrubaria o uruguaio, fazendo falta, antes que ele pudesse alcançar a grande área. Percebeu que não aconteceria isto quando à distância entre os dois, repentinamente, aumentou. O adversário estava quase chegando à linha de fundo. Calculou que o uruguaio iria cruzar a bola na pequena área, para que um de seus confrades tentasse o cabeceio. Era o obvio. Com essa certeza, Barbosa deu um curto passo adiante, para melhor se posicionar para a defesa, fechando o ângulo.   
      
Antes do momento capital, Barbosa, em gesto mecânico, e durante apenas uma fração de segundos, apertou os olhos focando a massa disforme de torcedores que fazia moldura atrás dos atletas que corriam contra ele. Percebeu que a torcida estava muda. Eram talvez duzentas mil pessoas no estádio e todas estavam amargamente mudas. Não era a escassez de gritos e assobios que tomou conta do estádio após o empate, poucos mais de dez minutos antes. Não, era um silêncio muito mais profundo. O silêncio dos grandes momentos. Aquele que faz o tempo parar. O zeitgeist conseguira calar o Maracanã lotado. 
      
Desligado de tudo que não fosse à pelota, o uruguaio entrou na proteção da grande área e mudou a trajetória de sua corrida para a esquerda. Bigode ainda o seguia. Trotando em linha reta, Juvenal pôs-se em sua frente. Era o momento de chutar ou seria travado. Chutou. 
      
No preciso instante do impacto da chuteira contra o couro, ecoou por todo o estádio a poderosa voz do grande capitão uruguaio, vinda do então distante meio de campo, movida pela certeza do gol, berrando vingativa nunca ninguém soube exatamente o que.
      
E a bola viajou com mais veneno do que força.  
     
Apenas no último instante, Barbosa percebeu que errara sua previsão. O atacante não cruzou a bola.

Chutou direto para o gol. Uma bola rasteira. Segundo alguns profissionais do mundo futebolístico, a mais difícil de agarrar. Por conta do engano Barbosa já ia quando teve que retornar, perdendo o ângulo de defesa. Mas, com agilidade de gato, foi e voltou no mesmo movimento. Saltou, raspou o gramado e socou o couro pela linha de fundo. O que seria o fatídico gol uruguaio foi evitado por um triz e o tempo voltou a correr.  
      
O cimento do estádio saltou. O gigante Maracanã ressuscitou em um brado de bárbaro, engolindo um novo berro colérico do capitão uruguaio. Reduziu-o a um fio de voz entre milhares de outras. Justo a voz que passara mais do que a última hora e meia monopolizando todos os ouvidos em campo e fora dele. 
     
O tento redentor estava perdido. Em seu lugar a Celeste bateu um inábil escanteio, que não deu em nada. Barbosa subiu mais do que todos e agarrou a bola no ar. 

Em seguida, o arqueiro brasileiro foi bater o tiro de meta, exibindo um discreto meio sorriso no rosto encharcado de suor. Bateu tão forte na bola que ela saiu pela linha de fundo, do outro lado do gramado. A força hercúlea tinha explicação: Barbosa chutou com a certeza orgulhosa de que naquele dia sairia de campo coroado campeão mundial. Não estava errado em pensar assim. Fala-se muito que o resultado de uma partida jamais está definido antes que soe o apito final. Na arte chamada futebol tudo pode acontecer. Em geral tal máxima é correta. Mas não daquela vez. Não havia o que discutir: o escrete brasileiro já era campeão mundial antes mesmo de pisar no gramado. E o negro épico Barbosa, goleiro do tipo sem luvas, anunciariam todas as crônicas matutinas, foi o herói do dia.

 

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