revista bula
POR EM 27/06/2009 ÀS 06:13 PM

Uma nova doença

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Quem primeiro falou sobre Aids em Goiás, que eu me lembre, foi o escritor e dentista Carmo Bernardes, numa crônica no Diário da Manhã, no final de 1980 ou início de 1981. O nome ainda nem tinha sido chancelado e ele falava de uma doença esquisita, detectada na Europa,  que acabava com a imunidade das pessoas e estava relacionada com o fuque-fuque, a prevaricação, o rala e rola. Anotei isso porque li em primeira mão a crônica do Carmo, pois era revisor de textos, e também porque fui feito emissário de um conterrâneo de nome Lord Inário Bibelô, como a gente o conhecia lá em Saracutópolis, e que me contou sobre uma nova doença venérea que desgraçadamente propagou na região.

Na cidade estava surgindo uma legião de homens esquecidos, totalmente sem memória, e que estudos feitos na botica, que também era boteco, de Temisse Tocriste, relacionavam o Alzheimer caboclo com a fornicação com determinadas meninas do Cabaré de Ana Preta. Ficou constatado, por exemplo, que três delas, Aninha Tô Que Tô, Xandu e Margarida Bem Bem, estavam transmitindo a doença do esquecimento, muito pior que Aids, pois os homens saíam de lá totalmente perdidos e sem achar o rumo de casa.

Os que as famílias pegavam na rua, tudo bem, eram amparados e perdoados, mas muitos deles ficavam ao leo, jogados à própria sorte, que naquele caso era de muito azar.  Muitos que eram casados foram totalmente esquecidos pela esposa e eram alimentados na rua pela piedade de um ou outro parente. De forma que a legião de esquecidos cada vez aumentava mais e só não aumentou muito porque Temisse descobriu logo a doença e  confirmou que o vírus ficava incubado apenas meia hora. Era o tempo de o sujeito sair sem rumo.

Até descobrirem a causa da doença, a cidade começou a ser conhecida como Abilolândia. O prefeito mandou fechar o Cabaré de Ana Preta e expulsar as três moças contaminadas. Foram enxotadas da cidade como pesteadas. Não adiantou muito, porque outras mulheres foram também contaminadas e a doença se propagou silenciosamente. Os alto-falantes da “A Voz do Município” pediam cautela e invocavam o cuidado nas relações sexuais. A prefeitura distribuiu milhares de camisinhas de vênus, cremes vaginais antibactericidas e todas as mulheres foram convocadas a fazer exames de prevenção.

Quando o vigário do lugar, Frei Genésio Frifuso, foi contaminado, a paróquia entrou em grande desespero e a Casa Paroquial foi transformada em abrigo de esquecidos. As beatas faziam procissão, rezavam novenas, tridos e rosários, pedindo aos céus o fim daquela miséria. Como último recurso da fé, juntaram todos os homens atingidos, colocaram o Frei Genésio num andor e fizeram com ele uma procissão que percorreu os sete cruzeiros da cidade, onde foram rezados e cantados todos os benditos e ladainhas, e finalizada na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro.

Na volta com o padre para a Casa Paroquial, uma chuva instantânea e inesperada, com trovões, relâmpagos e ranger de dentes, pegou todo mundo de surpresa e os homens atingidos pela doença venérea ficaram ensopados de água e recuperaram a memória. No entanto, todos se viram cegos do olho direito.
 

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