revista bula
POR EM 25/06/2012 ÀS 11:40 PM

Um sorriso emoldurado

publicado em

A foto é um instante eternizado de ausências. O recorte de um momento para ser dividido com quem não participou da celebração ou do luto por motivos importantes, mesquinhos ou corriqueiros. Uma viagem, doença, trabalho ou até mesmo porque ainda não nos conhecia ou preferia esquecer. De qualquer forma, a revelação de um genuíno altruísmo e também a acusação venenosa de vingança: não estávamos lá.

É impossível descobrir o desenrolar e o prelúdio do ápice. Ficamos restritos àquele fragmento congelado de tempo. O vestido branco eternamente imaculado, os lábios vermelhos emoldurando o sorriso de comercial, enquanto a renda nos braços esconde com o trançado translúcido dos fios a pele exposta no decote das costas. Olhando com mais atenção, talvez uma solitária pinta no emaranhado de pixels. 

No mais, apenas dúvidas. Talvez o vestido tenha manchado com o vinho, o batom borrado com o beijo e as costas arranhadas pelas unhas. O registro é a perpetuação de um instante em uma vida efêmera e muito mais rica, mas o suficiente para despertar certezas nos protagonistas e interrogações na audiência. 

O receio não se restringe a questões abstratas. Mais do que a ausência, o espectador encara o dilema de desconhecer quem estava lá. As mãos que seguram a câmera pertencem a um antagonista velado. Alguém que não se restringiu a observar um pedaço do passado, mas que vivenciou aquela imagem — e tantas outras que a seguiram.

Ainda não existem máquinas capazes de captar o perfume, a textura da pele, o calor do corpo e, principalmente, os sentimentos que podemos esconder atrás de um sorriso. Melhor assim. Permanece a esfinge. O desafio é escapar da prisão de duas dimensões do retrato. Desvencilhar os fatos da poesia e abraçar o que interessa.

Simplesmente não podemos nos contentar com a artificialidade de uma fotografia e esquecer a imperfeição da realidade. Trocar o eterno sorriso por um lapso de tristeza, contanto que real. Principalmente quando a simples presença dela é como um perfume inesperado numa tarde qualquer. Aquele sentimento de arrebatamento e rendição.

“Fotografar é escrever com a luz”, diz o clichê. Observando essas linhas nos sofás de domingo ou na tela do computador é impossível deixar de notar que eternamente conjugamos no pretérito.  Não estávamos lá. Ainda assim, sou grato por essas migalhas de eternidade. O simples gesto de parar e sorrir significa que, ainda que por um momento, alguém decidiu compartilhar com o futuro a simples perfeição do presente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio