revista bula
POR EM 01/10/2011 ÀS 08:01 PM

Stevie Wonder (debut in Rio)

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Tem gente que nasce com uma estrela na testa. Uma marca de nascença que reluz durante toda a vida quando bem cuidada, e que ofusca qualquer margem de ceticismo ou teimosia que a ela se oponha. Tem gente que pelos caminhos mais tortos, escreve  mais do que o certo, escreve o atemporal. 

Rock in Rio 2011: puta programa de índio para gente normal. Estou aí excluindo os espertos, os célebres e os ricos. Gente normal que pega o ônibus normal e fica no lugar normal e que quer ver os shows principais. Cansativo, longe, caro, sujo. Uma noite de Jamiroquai, Janelle Monáe e Stevie Wonder, com um Ke$ha no meio do caminho. Uma moça com a ingrata tarefa de cantar depois da miúda Janelle e sua estrela na testa. Janelle e sua dança, Janelle e sua voz, Janelle e sua banda. 

Janelle que brigou como gigante pelo público que estava ali, e venceu. Janelle que veio depois do “luau in Rio” do pessoal que fez tributo ao Renato Russo. Muito saião hippie e muita gente que deve citar Clarice Lispector, sem provavelmente ter lido de fato Clarice Lispector. 

Jovens, esses sofredores.  Confesso que desde o início havia reservado o show da Ke$ha para fazer a parte chata de banheiros, comes, bebes, achar amigos. E assim foi. Diga-se que passou voando porque foi o ápice do meu teor etílico. 

Jamiroquai voltou a minha vida só com 30% do que eu vi no Free Jazz (foi Free Jazz?) de anos atrás. Um esforço quase histérico. Claro que pela batida das músicas e por muitas serem conhecidas, agradou. Agradou mas não deu o gás que teria que ter dado pro último show da noite. 

Isso e o atraso. Poderia dizer que é falta de respeito, porque até é. Mas nem é esse o problema. É falta de solidariedade com o público que está mastigado e cuspido, depois de toda a peregrinação do dia. 

Aí começa o show. E Stevie força a amizade com improvisações que abusam da boa vontade e dos joelhos do público, e uma parte resolve que “chega” e começa a ir embora. Essa primeira leva conseguiu ir sem virar as costas. Foi apressada. Porque logo brilhou a estrela da estrela maior, e não teve mais perna cansada que tirasse alguém dali. 

Coisa para levar para vida. Mr. Wonder, que nos mostrou como olhar o mundo. O pianista cego que nasceu estrela com o dom de iluminar a todos que sua música toca.

Tem gente que não nasce com uma estrela na testa, mas tem sensibilidade e humildade para admirar a superioridade de quem nasce.  Tem os milhares de sortudos que estavam ali, que se minimamente espertos e sensíveis, perceberam o fantástico acontecendo. 

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