revista bula
POR EM 06/04/2009 ÀS 05:46 PM

Sou um matador perigoso, confesso!

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Esta história vai me prejudicar muito e pode até mesmo me levar para a cadeia, mas não agüento mais: sou um assassino confesso, matador de aluguel e também deliberado. Descobri isso aleatoriamente e mais: mato pessoas, enquanto defendo animais. Fiquei uma noite sem dormir pensando no tanto de gente que já matei nessa vida, muitas sem querer e outras querendo realmente. Descobri que acabei me tornando uma pessoa muito má, um sujeito em quem não se pode confiar. A qualquer hora a polícia me leva e a justiça me condena através de um júri popular daqueles de sete a zero, sem direito a recorrer, com penas de mais de 200 anos.

Descobri outro dia, quando matei Edivaldo Pelica e o ressuscitei. Na verdade, minha memória está matando muito mais que eu e por causa dela certamente vão me levar às raias dos tribunais. Confesso que matei deliberadamente a rapariga que me passou uma gonorreia quando eu ainda era de menor e ela uma experiente senhora com seus 65 anos bem xumbregados.

Concordo em ser condenado pelos assassinatos que cometi com a intenção de matar de verdade. É que gente ruim eu mato deletando de minha vida, como se ela não existisse mais. Acho sinceramente que também já fui assassinado por algumas pessoas que por razões, e ponha razões nisso, óbvias não se deram e nem se dão comigo. Matei uma vizinha que não quis nada comigo e ainda veio gozar na minha cara, para muita gente ver e pilheriar.

Matei Dezim de Nenana com um tiro na testa, aquele feladaputa, que não podia me ver e corria atrás querendo me bater, só porque eu não era do top dele, no meu jeito franzino. Não sei onde ele está, se ainda vive, mas se viver para mim está morto e bem enterrado. Eu tenho isso comigo: alguém que não vou com a cara eu mato logo duma paetada só,  no primeiro encontro.

Tem muita gente também que às vezes eu nem queria matar, mas elas vão se esvaindo na memória e de um tiro acabam morrendo. Apesar de viver matando essas pessoas sem querer, acontece também de elas ressuscitarem de repente, quando, por obra do destino e ou do acaso, aparecem sorrateiras depois de 20, 30 anos. Aí a desgraceira é completa, pois a memória não atina e eu me pego de saia justa sem saber o nome e de onde a conheci. A visagem, essa livuzia,  me pega no constrangimento.

Matei bem matada a ex-namorada que me fez de corno. Pelo tempo que passou ela já não deve ter nem ossos mais. Já se acabaram até os da minha testa. Não sei quantas mortes carrego nas costas e será difícil à justiça prová-las todas. Por isso, acho que me safo, mesmo sendo assassino confesso. Peço perdão aos familiares e amigos de quem eu já matei e mato. Não sou feliz por isso. Sofro. Não sei se com vocês é assim, mas comigo acontece de eu matar pessoas que nem conheci. Minha memória se faz de esquecida, mas é a maior culpada. Não me ajudará em nada num tribunal.
 

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