revista bula
POR EM 03/11/2011 ÀS 01:36 PM

Réplica: a perspectiva do asno

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Ensaio que originou a polêmica: Arte, que arte? É marketing, estúpido!

Começarei pela música. E partirei da seguinte provocação: quando John Cage sobe ritualisticamente ao palco, senta-se ao piano e, compenetrado, “executa” 4’33” — estará fazendo arte? Esclarecimento: Cage é um dos maiores nomes da música erudita no século XX, e suas mãos sequer tocam o instrumento. Silêncio... expectativa... E nada. Terá tido ele um surto de asno? A acreditar em alguns fãs de música clássica, sim. Não digo que não tenham razão, mas não entendo do assunto para descer a lenha. Passaria por ridículo se o fizesse. Nesse terreno, o que eu acho é só o que eu acho, nada mais. Para mim 4’33” não possui valor artístico algum, como alguem pode dizer que Waltércio Caldas também não tem. Música me parece ser a “Nona Sinfonia”, de Beethoven, que aliás Stravinsky acusou de mal feita e cheia de concessões. Não entendo do assunto, definitivamente, porque acho que o russo é que não vale uma pitada de fumo, apesar de ser quem ele é. E daí? E daí que minha opinião sobre o assunto é a de um asno. Ou seja: não sei explicar por que não gosto.

Das duas uma: ou eu sou um excelente crítico musical ou, pelo contrário, sou muito limitado para alcançar o gênio de Cage e de Igor Stravinsky. (Devemos ter sempre em mente que todo Napoleão teve um brilho que, ao menos por enquanto, nós não tivemos, e por isso continuamos anônimos.) Como aposto na segunda hipótese, suplicaria a alguém, que conhece a história da música, que me explicasse como se faz para entendê-la. Eu teria a boa vontade de ouvir e levar a sério, pois, como ignorante no assunto, só me resta pedir instrução. Apesar de minha surdez incurável, curvo-me à autoridade Otto Maria Carpeaux, quando declara que “A arte de Beethoven é a mais alta música humana. A arte de Bach é menos humana porque é mais que humana. Os ‘Concertos de Brandenburgo’ são um reflexo da ordem divina do Universo; uma mensagem do reino das ideias platônicas.” (“Os Concertos de Brandenburgo”, In: “Ensaios Reunidos”, vol. I) Não sei por que o diz, mas reconheço a autoridade de Carpeaux. Senão, qual o critério? Acredito piamente na perversidade humana, mas descreio que todos queiram nos enganar.

Admito, sem nenhum constrangimento: não entendo patavina de música. É por isso que não emito opinião a respeito. Porque é verdade: ouço Brahms — exemplo — e tudo o que percebo são ruídos desconexos, vagamente interessantes. Dia desses eu lia Carpeaux interpretando Mallarmé à luz de Debussy, e fiquei perplexo (“Duas datas poéticas”, in: Op.Cit.). Fui ao YouTube e baixei “Clair de Lune”, para ver se aquilo exercia algum efeito agradável sobre mim, mas o que senti foi um som enjoativo entrar pelos meus ouvidos. Indistinto, no que se refere a sentido, em relação ao Haydn, Sibelius, Mahler. Tudo o que percebi foi um “caos” sonoro, sem-pé-nem-cabeça, consagrado como obra de gênio. Devo concluir então que Debussy é marketing e Carpeaux um “estúpido”? A acreditar em alguns fãs de música clássica, com certeza. Como não? Só um asno para acreditar que aquilo é arte e perder tempo ouvindo aquela (isso mesmo) porcaria. Única alternativa: admitir, ao contrário, que o asno (ou estúpido) sou eu, que não entendi a maravilha!

E, como não bastasse, o que dizer do cinema? Eu, que gosto do arroz com feijão hollywoodiano, fiz uma concessão ao maior filme de todos os tempos, “Cidadão Kane”. Como na pintura, o que mais interessa aqui, salvo engano, é a técnica. Porém, se o meu critério de valor for o de alguns entendidos, Orson Welles não passa de um marqueteiro filho da puta. Haja saco para perseverar mais de uma hora diante da TV, assistindo àquela metáfora, em torno de um trenó. E o que dizer de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha? Outra chatice sem tamanho, com sua estética intelectualista de Cinema Novo. Mas os cinéfilos não hão de ficar zangados com tais assertivas: a minha, com certeza, é a perspectiva de um asno. E não se pode levar um asno a sério.

Mesmo assim acho um negócio complicado julgar que certos grandes artistas sejam marqueteiros. Afirmar que Eisenstein ou o dodecafonismo reduzem-se a marketing, para o consumo dos “estúpidos”, equivale a negar todo um universo discursivo que inclui a estética e compromete a reputação de teóricos de diversas áreas do conhecimento, não só de artistas e suas obras. Torna fútil a gnoseologia, e com ela uma legião de pensadores que escreveram livros e mais livros para interpretar, explicar e justificar não apenas as artes plásticas, mas, inclusive, a música e o cinema! Posso não entender e não gostar (isso é uma coisa), mas é no mínimo temerário jogar na lata de lixo (e essa é outra coisa, bem diferente). Eu não arriscaria, com minhas credenciais tão modestas.

Me pergunto se alguém, em sã consciência, diria que Ferreira Gullar é um asno. Pessoalmente, acho que não. Mas, de novo segundo os critérios de alguns fãs de música clássica, deveria ser considerado como tal, porque o poeta (como é conhecido) tornou-se o mais importante teórico do Neoconcretismo, com a publicação da “Teoria do não-objeto”, em 1960. Olha a falta de nexo: Gullar foi, durante a ditadura militar, um intelectual engajado, simpático ao marxismo. Como assim, marqueteiro? Estaria ele preocupado em justificar uma mercadoria e alienar pessoas? Duvido. Obviamente, concordo que o mercado lucra horrores com a arte, mas isso vale para o cinema, também. Hollywood que o diga, embora nem por isso eu possa desqualificar Francis Ford Coppola ou Elia Kazan. Ou posso?

Não estou dizendo que aprovo tudo o que os artistas fazem, alto lá! Jeff Kons produziu telas hiperealistas, claramente influenciadas por James Rosenquist, de uma beleza inegável. Porém, tenho reservas quanto à série em que fotografa-se metendo com Cicciolina, muito embora a transgressão da moral seja uma forma reconhecida de franquear a liberdade poética. Prefiro Tinto Braz à performance do artista americano, mas, apesar de achar o último hedonista e apelativo, não o censuro, pois sou muito avesso a qualquer tipo de preconceito. Basta o artista ficar pelado e expor a genitália para significar marketing? Se sim, os templos hindus iludiram muita gente sobre o caráter místico, sagrado até, da sexualidade. E que dizer de Allen Ginsberg, Walt Whitman, Paul Verlaine e o atualíssimo Sérgio Sant`Anna, com suas bocas sujas? Marketing? Tire cada um as suas conclusões. Só não se pode duvidar que essa turma toda saiba muito bem compor, filmar, escrever e até pintar.

A perspectiva do asno não nos leva a lugar nenhum. Não é interessante. Em compensação, seguindo aquela ordem, proporia que perguntássemos a opinião sobre cada um daqueles certames a, respectivamente, Flávio Paranhos, Ademir Luiz, Euler Belém e, quem sabe, até a um certo J. C. Guimarães. É mais instrutivo e, pelo que tenho acompanhado, estes debatedores sabem minimamente o que dizem. A autoridade é um critério fundamental de julgamento, e que me perdoem os pessimistas: eu ainda acredito na honestidade intelectual.

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