revista bula
POR EM 14/10/2010 ÀS 08:46 PM

Reality show de última geração

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Nas últimas décadas os marqueteiros firmaram a convicção de que nossos impulsos mais irresistíveis nascem de uma camada ancestral de nosso cérebro, aquela do momento evolutivo em que os répteis eram o ramo mais evoluído da árvore da vida. Os estímulos audiovisuais afetam prioritariamente nossa parte do cérebro reptiliano. Os répteis têm predileção pelas coisas que se movimentam buliçosamente diante de seus olhos. Nós, num processo regressivo, também estamos cada vez mais adorando coisas que borbulham em nossa frente. É o nosso lado voyeur por excelência.

Com a nova moldagem de nossas preferências era de se esperar que o mercado desenvolvesse produtos finamente sintonizados a essas necessidades. Nesse contexto, o surgimento do reality show foi uma conseqüência lógica e inevitável. Pois é da natureza do mercado criar necessidades e produtos adequados para supri-las. Qualidade total é isso: artificializar a necessidade e criar um produto sob medida. A noção de reality show foi cristalizada a partir de uma dura advertência de George Orwell, em 1948, com o romance '1984', em que cunhou a expressão Big Brother, o grande irmão dos regimes ditatoriais que a todos veriam e controlariam com tentáculos de polvo. Naquela mesma década surgia o programa Candy Camera, de Allen Funt,  aquele que é tido por muitos como o primeiro reality show da TV. A Guerra do Golfo iniciada em 1990 foi um segundo momento do reality show. A Rede de TV CNN desembarcou no cenário de guerra antes mesmo dos soldados e fez uma cobertura espetacular. Peter Arnet, dublê de jornalista e suicida, com sua traquitana de comunicação portátil, deu àquela guerra uma visão de videogame, com balas tracejantes reluzindo nos céus do Oriente. Naquele momento, para quem via pela TV a guerra mais encantava do que impingia assombro. Tudo muito limpo, tudo muito cirúrgico, como se a guerra fosse um negócio tocado por simples máquinas e robôs.

O reality show estourou mesmo foi a partir no ano 2000, como invenção patenteada pela Endemol — rede de TV holandesa. Por coincidência, ou providência, nessa mesma época explodiam as redes sociais como Orkut, MySpace, Facebook etc ajudando a TV a incrementar ainda mais o nosso gosto inebriado pelo exibicionismo/voyeurismo.

Nos primeiros reality shows como o Candy Câmera, a produção escolhia o que filmar mas os atores não sabiam; eram surpreendido. Já na Guerra do Golfo, além da produção, os atores também sabiam que estavam sendo filmados, numa atividade que não era propriamente para atender às câmeras, ou melhor aos voyeures diante dos monitores de televisão. Já os programas inciados em 2000, como o Bigbrother e O Aprendiz são com pessoas previamente escolhidas para fingirem ser elas mesmas diante das câmeras para um público ávido por fofocas, ti-ti-tis banais.

Mas agora com os mineiros de San José, em Atacama, no Chile, o reality show avança extraordinário. Poderíamos dizer que se trata do reality show de última geração. Uma desgraça espetacular natural que começou como uma tragédia grega e parece que vai terminar com final feliz de drama hollywoodiano.

Tudo ao vivo, passo a passo, pela TV. Tudo muito real e emocional. O mundo inteiro assistindo e torcendo pela sobrevivência ao paredão real. O Governo faturando alto. O país faturando mais do que se sediasse uma copa do mundo de futebol ou uma olimpíada. Até a serralheria da NASA faturou, fornecendo a gaiola para içar os fustigados mineiros. “O maior espetáculo da Terra”, como diria na minha infância o palhaço Pirulito, do Circo Transcontinental, com suas lonas esfarrapadas e o leão urrando de fome.

Ante a nossa sede voyeurista, como serão os reality shows do futuro? Possivelmente receberão os incrementos da nanotecnologia. Haveremos de ter ao nosso dispor as imagens em tempo real do esperma fundista de uma celebridade fecundando o óvulo de outra. Veremos o desenvolvimento do embrião no útero de nossas divas e assistiremos a partos espetaculares, do ponto de vista da câmera instalada no fundo da bolsa amniótica.

Já aquele big brother sombrio denunciado por George Orwell em '1948', no romance '1984' se transformou numa bobagem. Hoje somos dominados não é por um ditador que a tudo vê, mas por uma sede insaciável de consumo, manipulada habilmente pelo mercado e seus exímios marqueteiros.
   

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