revista bula
POR EM 29/09/2011 ÀS 10:48 AM

Proust e outros chatos

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Quando fico preso no trânsito só consigo me lembrar do conto “A auto-estrada sul”, do Cortázar, e daquele início angustiante do filme “Oito e Meio”, de Fellini. Não me vem à mente o escritor francês Marcel Proust, como acontece com a Rosângela Chaves, por dois motivos. 1 — Ele é chatérrimo. 2 — Por causa do primeiro motivo, nunca consegui terminar nenhum dos volumes (já comecei e parei três deles), de forma que não teria como me lembrar mesmo. Me dá uma enorme sensação de tempo perdido. Sim, esse trocadilho infame é pra irritar a Rosângela, o Carlos Augusto Silva e outros que dizem gostar de Proust.

Dizem, mas tenho certeza de que mentem. Pelo mesmo motivo que os caras que dizem gostar daquela pasta verde de comida japonesa: só pra te sacanear. Não tem como gostar daquilo, como não tem como gostar de Proust. Mas eles fazem aquela cara de que gostam, ostentando até certa naturalidade convincente. Mas não me enganam, eles estão é querendo nos humilhar.

Mentem também, e com gosto, os que, como o grande escritor Valdivino Braz, dizem que leram o “Ulisses” e o “Finegans Wake” do Joyce. Mentira. E o Braz ainda tem o desaforo de afirmar que leu mais de uma vez. O que mais ele faz? Dá-se 50 chicotadas todos os dias? Ajoelha no milho? As duas coisas ao mesmo tempo?

O professor Ademir Luiz adora me provocar dizendo que o melhor filme do Andrei Tarkovsky é Andrei Rublev. (Ele me irrita mesmo é dizendo que Kubrick é melhor do que Woody Allen, mas aí é outra história). Eu pago uma noitada de Guaraná Champagne pra quem conseguir assistir esse filme sem pescar uma única vez. E olha que eu gosto de Tarkovsky.

Tenho ainda outros gostos que, admito, poderiam ser considerados chatos por outros. Kafka, por exemplo, o escritor mais brilhante que já existiu, não foi capaz de prender a atenção de meu concunhado (dei “O Processo” para um promotor de justiça ler e ele achou chato... sem comentários). Mas não compreendo a reação de minhas alunas quando digo que coloco minhas filhas para verem óperas comigo (“Ah, não, professor, tadinhas...”).

Voltando à Rosângela, que, por sinal, pra quem não sabe, é minha chefe aqui. Se vocês estiverem lendo essa crônica é porque ela cochilou (lendo Proust). Enfim, em seu artigo “No engarrafamento com Proust”, ela imagina uma Goiânia com um transporte público de boa qualidade, em que pessoas se sociabilizam e lêem... Proust.

Esse é o problema com os rousseaunianos. Eles partem do princípio de que a natureza humana é boa. Mas o homem é desgraçadamente hobbesiano. Sociabilizamos apenas na medida em que for de nosso interesse, num jogo de trocas estratégicas. Somos nosso mundinho. Quem já teve oportunidade de morar ou visitar cidades com excelente rede de metrô, já viu que cada um se escuda em seu MP3, seu jornal gratuito, seu livro descartável, e que ninguém venha incomodar. O contato com o outro é doloroso, incomoda, ao ponto de, por exemplo, em Nova York, uma companhia de trem ter acabado com o assento do meio porque ninguém o utilizava! Com essa, e como dizem os americanos, I rest my case.

Publicado no jornal O Popular de 14 de junho de 2011.

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