revista bula
POR EM 08/08/2011 ÀS 10:10 PM

Pelo direito de ser puta, e deixar de ser

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Ah, essas lindas que povoam o imaginário masculino, e despertam a inveja feminina. Mulheres de curvas sinuosas, sorriso malicioso, cabelão loiro, pele bronzeada, seios apetitosos. Ah, como eu queria ser uma delas. Trocaria qualquer suposto dom literário que eu tenha, pelo corpo da Eva Mendes. Nunca teria lido os livros que eu li, nunca teria ido ao show da Cesária Évora, nunca teria chorado com rejeições. Saberia ler Caras, escrever SMSs lascivos e sorrir libidinosamente em jantares românticos.

Pelo menos é assim que eu imagino que seria.

Claro, não comeria jamón pata negra, ou beberia cerveja com os amigos no bar quatro vezes por semana. Não dormiria até as10 da manhã e não faria siesta depois de comer. Teria uma rotina de dieta e exercícios, os prazeres dionisíacos limitados e o mundo aos meus pés.

Pelo menos é assim que eu suponho que seria ser gostosa. Que a vida seria um eterno ciclo de amores, viagens para Paris, joias de presente, homens e pele impecável. Gostaria de ressaltar, que estou comendo um belíssimo prato de macarrão e bebendo vinho, enquanto escrevo.

Mas aí eu ligo a televisão e vejo essas moças que eu suponho que podem tudo, fazendo coisas que não refletem esse poder todo. E vem o problema: onde é que está o erro? Onde a coisa se perde e se afasta da realidade que eu inventei? Essa invenção que me faz não comer um segundo prato na esperança de um dia ter uma fração do poder que eu imagino que elas têm?

Sério, porque gostosas ainda não tomaram o poder? Elas estão por toda parte, elas conseguem a grande maioria das coisas que querem, elas não são burras como a gente gostaria de acreditar que são. Ou são?

Que impede? O machismo? A inveja das outras mulheres? Auto sabotagem?

Por trás de toda mulher gostosa existe uma garota insegura? Assim como por trás de todo comediante existe uma pessoa infeliz? Não acho que é tão simples assim. Não acho que seja verdade a história de elogiar a aparência de uma mulher inteligente, e a inteligência de uma mulher bonita e elas caem de quatro (figurativamente). Isso é raciocínio de gente que ainda acha que uma mulher precisa ser validada para se sentir feliz.

Pera, não precisamos, certo? Ou precisamos? Ou o loop eterno de que o problema é não existir mais para a grande maioria das mulheres diferença entre sensualidade e vulgaridade.

Determinar o que é uma coisa e o que é outra, é invadir o terreno das liberdades individuais e sexuais e decidir o que é apropriado e tolerável e o que não é. Bobagem. Vulgaridade é um conceito bem abstrato, que muda de acordo com a passagem do tempo e a transformação dos valores. Já foi considerado terrivelmente vulgar uma mulher fumar em público, ou depois de casada usar os cabelos soltos.

Inapropriado, provocativo, inaceitável comportamento vindo de uma mulher que queira ter respeito do mundo. Vergonha para as outras mulheres. Entendo.

Ah sim, a objetificação da mulher, essa coisa toda. Mas me respondam: está nos olhos de quem olha ou na cabeça de quem julga? É o homem que objetifica, ou a mulher supostamente vulgar que permite ser decretada só uma bunda? Mais vulgar que os figurinos da Cher? Não a vejo entrando na lista de mulher- objeto. Não é o comprimento da minha saia que determina meu caráter. Tivesse corpo pra isso (e caso um dia eu tenha, ou ache que tenha, farei), andaria por aí praticamente seminua.

Prepare-se mundo.

E se um dia eu mudar de ideia, vou colocar um tailleur e minha bunda nunca mais verá a luz do dia. Minha bunda que eu mostro pra quem eu quero, como eu quero, enquanto eu quero, se tiver vontade e me sentir confortável.

Aí a gente chega a outro problema: a imbecilização da mulher gostosa.

Acho que muitas não seriam imbecis, se não fosse a constante castração de qualquer tentativa de ser qualquer coisa que não gostosas, ponto. Vejo diariamente na TV um exemplo disso: a tal Raquel Pacheco (atualmente participante do “A Fazenda”). Ex-garota de programa que ficou conhecida por manter um blog contando detalhes dos trabalhos que desempenhou enquanto na função de, bem, puta.

A moça escreveu um livro, sua vida virou filme, ela virou empresária e anos depois, casada e afastada da profissão é uma das participantes mais bem comportadas e menos polêmicas do programa. Mas ainda assim o apresentador toda vez que fala o nome da moça, completa, a “Bruna Surfistinha”. Como Pepino, o Breve ou Catarina, A Grande. Toda vez.

Gostaria de poder mandar uma carta para a Raquel, explicando a importância que alguma reação dela quando insistentemente chamada pelo nome de guerra, teria para as mulheres aqui fora.

Aí me pergunto se elas perceberiam. Talvez não.

Que será de mim? Não sou intelectual, não sou burra e não sou gostosa. E sou mulher. Uma mulher comum. Sou a Carolina e não tenho nenhum adjetivo pra me definir. Acho que vou morrer sem classificação, na sessão de achados e perdidos do mundo.

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