revista bula
POR EM 04/12/2009 ÀS 03:27 PM

Paraíso da morte: suicídio assistido ou a inebriante perspectiva do repouso

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“O desfecho não tem nada de violento, e tampouco de precipitado. O paciente escolhe a hora e estuda o plano muito antes. Mesmo os meios lentos não lhe repugnam. Uma melancolia calma e que é por vezes dolorosa caracteriza os derradeiros instantes. Analisa-se até o fim. É o caso do negociante de que nos fala Falret (Hypocondrie et suicide), que se retira para uma floresta pouco frequentada e que se deixa morrer de fome. Durante a agonia, que se estende por quase três semanas, foi sempre descrevendo o seu estado de espírito em um diário que possuímos ainda hoje. Outro asfixia-se assoprando o carvão que deve acabar por matá-lo e aponta ao mesmo tempo diversas considerações: 'Não pretendo, escreve, 'dar exemplo de coragem ou de covardia; quero simplesmente empregar os últimos instantes que tenho de vida a descrever as sensações que se têm quando se está a asfixiar, e a duração dos sofrimentos'(Brierre de Boismont, Du suicide). Outro ainda, antes de se entregar àquilo a que chama 'a inebriante perspectiva do repouso', constrói um aparelho complicado destinado a consumar seus dias sem que o sangue se espalhe pelo chão”. (Émile Durkheim, O Suicídio, 1897). 

Em texto publicado na Revista Poder, edição 21(link:http://revistapoder.uol.com.br/), intitulado “Ajude-me a Morrer”(pág. 50), a escritora gaúcha Carol Bensimon, autora de “Pó de Parede” e “Sinuca Embaixo D' Água”, descreveu um fato no mínimo curioso. Clínicas suíças com consentimento do estado, ou seja, dentro da legislação do país, efetuam o chamado 'suicídio assistido'. Através do pagamento de uma valor x, na presença de médicos e familiares, homens e mulheres dão fim ao sofrimento cujo peso julgam insuportáveis. Bensimon nos revela também que estrangeiros tem viajado até aquele país no intuito de cometer o ato capital de maneira legalizada. Não vou entrar no mérito da legislação de um país soberano, quero simplesmente indagar o seguinte: o 'sofrimento insuportável' é o ethos do ato suicida? Em outras palavras: o 'sofrimento insuportável' é razão suficiente para um ato suicida? Ou ainda: pode o sujeito “afirmar-se e aceitar-se a partir de si mesmo?” 

O verme

Para Camus, ao contrário de Durkheim, a sociedade não tem relação direta com o suicídio. “O verme se acha no coração do homem. É ali que é preciso procurá-lo.” Já vi essa frase ser empregada, totalmente fora de contexto, em artigos assinados por psicanalistas a fim de validar a tese da depressão como entidade espiritual, obsediando o sujeito até o ato final. O que é lamentável, diga-se de passagem. Os psicanalistas, a meu ver, são como “padres” dogmáticos catalogando os demônios pós-modernos: a depressão e suas variantes, para exorcizar, enterrar, “libertar”. Na Idade Média, usava-se do mito-demônio para reprender e acusar, hoje o fazem para lucrar. A psiquiatria, por outro lado, vê uma relação fisiológica nesse caso, distúrbio na produção de serotonina na região da fenda sináptica; contudo, não pode determinar as causas com rigor e simplesmente as ignora: cuida-se dos sintomas. 

“Matar-se é de certo modo, como no melodrama, confessar. Confessar que se foi ultrapassado pela vida ou que não se tem como compreendê-la. É somente confessar que isso 'não vale a pena'. Naturalmente, nunca é fácil viver. Continua-se a fazer gestos que a existência determina por uma série de razões entre as quais a primeira é o hábito. Morrer voluntariamente pressupõe que se reconheceu, ainda que instintivamente, o caráter irrisório desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o caráter insensato dessa agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.” (grifos nosso). 

O sofrimento é inútil, a condição humana é contingente. Nenhum de nós é necessário. São algumas das constatações do homem absurdo apresentado por Camus em “Sísifo”. “Sim ou não? Sim ou não? Sim ou não?” repete constantemente o narrador do conto “Insônia” de Graciliano. O suicídio é uma resposta a uma pergunta simples. “Isso vale a pena? Vale a pena sofrer tanto e sem razão? Por que não dar fim a essa minha dor? Por que continuar?” “Sim ou não? Sim ou não? Sim ou não?” O verme, portanto, é do sofrimento que arrebata o sujeito ao ponto de conduzi-lo ao desejo de nada, de esvair-se na nulidade absoluta; ao invés de dizer sim a sua condição. Uma espécie de budismo, um nirvana concreto e violento. O suicídio é escapismo. É dizer não a si mesmo. Uma carta marcada que o indivíduo arranca da manga pra fugir à condição humana enquanto absurda: da vida tal e qual. “Que vontade de sumir”, dizemos muitas vezes.

 Eternidade e suicídio 

Essa vivência do sofrimento sem causa e ao mesmo tempo arrebatador pode, por exemplo, ser encontrado no livro de Jó. Espoliado, necrosando em vida, Jó não sabe da aposta de Deus e, mesmo quando ouve sua voz, não compreende. Obviamente, a explicação divina ultrapassa infinitamente à condição limitada do homem. E mesmo ao devolver seus bens, não pode roubar aquela dor, aquele momento solitário no limite, sentimento intransferível, cá no abismo existencial do finito diante do infinito. Creio, portanto, que dentro das narrativas bíblicas, o sofrimento de Jó só seja superado por Jesus; mesmo assim, hesito. Afinal, Jesus era divino e consciente de seu destino; estruturalmente, identifica-se com a figura do herói trágico na perspectiva grega. Jó, que não é cristão, se ampara no mistério, na antinomia, no paradoxo: a existência é mentirosa e ela é eterna.”

Para quem crê numa eternidade, o que não é caso da proposta de Camus, o suicídio é realmente a melhor saída, ou pelos menos a solução “mais leve”, mesmo com o julgamento divino. “Deus me entenderá”, intui o suicida em seu íntimo. “Ninguém quer morrer de verdade” diz Tyler Durden a Jack no começo do “Clube da Luta”. Para o cristão não há morte, há continuidade. Afinal, segundo a teologia cristã, o próprio inferno é transitório. Deus será “tudo em todos” (latim: restitutio) ou numa visão hegeliana, o encontro do Absoluto com si mesmo: o “fim da história”. Sendo assim, o inferno será reabsorvido na divindade. “Até mesmo o inventor do mal (isto é, o demônio) unirá sua voz ao hino de gratidão ao Salvador”, afirma Gregório de Nissa.

Não seria Jesus o maior de todos os suicidas? Não procurou ele a própria morte? Quem crê na eternidade não morre. Os mártires cristão fitam o olhar faminto de leões no circo romano sem esmorecer. O feitiço da eternidade os protege. Não importa que ela exista de fato; basta crer. 

Vale a pena? 

Você acorda pela manhã com dores no corpo com o relógio de 1,99 que apita. Cansaço, conclui confuso. Hoje é quinta? Quarta, lembra-se de repente. Erguer pedras e marretas entre sete da manhã e cinco da tarde, debaixo de sol ou chuva, há 28 anos castiga o corpo, você sabe. Acostuma-se; a semana é mais longa a cada nova semana? os blocos de pedra crescem a cada novo esforço? Constatações vãs. É a vida: não há nada a fazer. Espia a respiração tranquila da esposa. Sorri. Deixa a cama. De imediato a coluna e músculos reclamam; caminha até a cozinha. Toma dois comprimidos de Dorflex. Enfia sua marmita no embornal. Apanha o chapéu e vai pro ponto. Dentro do ônibus pensa naquele dinheiro no banco. E no carro de segunda mão que sempre sonhou comprar. Finalmente tem a quantia necessária para adquirir algo que lhe agrade. Você já se vê dentro dele. Um gol branco 92. Dando seta antes de dobrar a esquina. A mesma cena se repete; e seis meses depois você está imóvel na cama. Tremulando; Morfina: Apraz e Pondera não aliviam o sofrimento. Disfarçam: dissimulam; mas não os músculos que secaram; a pele rente aos ossos: e cada um dos nervos que queima: um fio tênue e cortante feito arrame farpado em brasa movendo-se sob a pele.

Já não consegue andar. Todo dinheiro que você tinha no banco, acumulado durante a vida transformou-se em exames, consultas, receitas – caixas de remédio. Não souberam identificar a doença de imediato. Durante um ano saltou de um consultório a outro. Infecção generalizada nos nervos, disse o último dos médicos. Não tem cura, podemos apenas aliviar. 

A situação acima descrita não é ficção. Trata-se do que aconteceu ao meu tio. O homem forte e trabalhador, 50 anos, alegre e gentil, que agora está preso numa cama definhando e consciente. Não bastasse o corpo imerso em morfina, o fato desencadeou uma crise de depressão aguda controlada com doses cavalares de antidepressivo e tranquilizantes. E de alguma forma misteriosa, ele persiste. E sorri a cada nova visita apesar da dor, espólio e tremuras. 

“A percepção da absurdidade da vida autorizava a mergulhar ali (na vida tal e qual) com todos os excessos”. Para o filósofo francês, portanto, a constatação da inutilidade do sofrimento não é, de forma alguma, o ethos e a razão suficiente à justificar o ato suicida. É ponto de partida para construção, viver a partir de si mesmo, conquistar a si mesmo. Pode o sujeito “afirmar-se e aceitar-se a partir de si mesmo?” Sim, diz o filósofo. O indivíduo que abandona toda e qualquer esperança, é um “criador sem amanhã”, eis a sua liberdade: 

“Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra seu fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse universo doravante sem senhor não lhe parece nem estéril nem fútil. Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz.”
 

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