revista bula
POR EM 18/07/2009 ÀS 08:50 AM

O Bordado da Urtiga

publicado em

Gilson Cavalcante é um poeta fino, tendo o aval das letras, e muito mais do sentimento, no seu enfrentamento corrosivo com a vida e suas vivências e pendências. Mesmo sendo suspeito para falar dele, pois somos parceiros, o faço com a maior tranquilidade e nenhuma culpa, tudo em nome da poesia e suas consequências. Para mim, Gilson é um poeta com fartura, carregando em sua criação a leveza inebriante de um material radioativo e corrosivo. Concordo com o poeta Carlos Willian Leite, quando diz no prefácio do recente livro “O Bordado da Urtiga” com o qual Gilson ganhou o prêmio da Bolsa de Publicações Dr. Maximiano da Matta Teixeira 2008, da Fundação Cultural do Tocantins, que ele é um “poeta que escreve com as vísceras”. Vão aí nesse espaço alguns novelos do “Bordado”.


SOU O QUE DESCONHEÇO      

Sou o que desconheço.

Desde cedo, muito cedo

inventei de vestir os avessos

dos caminhos e suas bifurcações.
 

Sou o que desconheço, sim.

É que o avesso me vestiu a

            Alma muito cedo.

Ando rasgando endereços,

        fugindo dos laços.

Mal amanheço.

Sou, sim, repito, o que desconheço,

o avesso do espelho nos olhos teus.

Por isso, me esclareço nas noites de insônia,

quando me entrego completamente

sem os adereços da hipocrisia.


E tem mais:

podem me achar louco,

lúdico, varrido.

Mas são nessas circunstâncias

que amo as pessoas,

os bichos, a natureza.

Nunca me dou por vencido.

O resto que me sobra

é asfixia e sombra.

Deixem-me partir,

   estou atrasado.

Levo para o futuro.

a fisionomia macia dos parafusos

vou apertar meu outro lado.
 

O SORRISO AMARELO  DE NARCISO 

O espelho quebrado

suicidou-me:

imagem transfigurada

ao lado de Narciso

exageradamente cego

em seu sorriso amarelo.
 

Dou-me ao vermelho

e seus martelos.
 

AS VIRTUDES DO VÍCIO

Pecar, pecar,

pecar até arder em chamas.
 

Pecar pelo que chamas

e nunca chega.
 

Pecar ao ponto

do carbono original

que a carne nutre

no paraíso das delícias.

A ser vício da serpente

Desfruto da árvore da volúpia

cabelos, cabides,

perfume e ócio.
 

Pecar é meu divórcio.


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