revista bula
POR EM 12/11/2009 ÀS 07:42 PM

O bezerro de ouro

publicado em

A laicização da ética, política, ensino, direito e estado, tendo por base o racionalismo, a primeira vista, parece ter afastado o encantamento do sagrado da esfera dos notáveis. Só a primeira vista. Porque o que de fato aconteceu é que a razão tomou o lugar de Deus. As entidades como Estado, Ordem, Lei, Ciência, encarapuçam as vestes sacras feito santos de pau oco e nós, o rebanho,  cultuamos, ofertamos, ajoelhamos: sacrificamos nosso salário minguado através de impostos e toda credibilidade.

 O ateísmo, esburacado por dentro, enche-se da fé no bezerro de ouro forjado a ferro e fogo no pé da montanha. Incapazes de produzir valores absolutos por si, projetamos valores no primeiro bezerro que aparece na nossa frente ou caímos no relativismo onde a força impõe a verdade de melhor designer. Numa osmose enlouquecida nos socializamos com tudo que brilha, uma fé surda na novidade, nas perfumarias; julgando-se céticos e descrentes... “Descrente? Engano. Não há ninguém mais crédulo que eu. E esta exaltação, quase veneração, com que ouço falar de artistas que não conheço, filósofos que não sei se existiram! Ateu, Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo – uma estrela no céu, algumas mulheres na Terra...”, palavras de Graciliano no final de “Caetés”. Somos nós ainda, caetés. 

Somos nós contando segredos a estranhos via internet. Caindo em boatos. Repetindo pequenas frases de 140 caracteres automaticamente. Nós, os céticos, ateus, espíritos livres, racionais. Perdemos a força do indivíduo em confronto com absoluto, de um Jó no deserto, pra massificar, liquidificar, cantar em couro de louvor a aceitação. Somos nós gritando “Soltem, Barrabás”, embolsando 30 moedas, boquetando Caim no desejo ralo de pastar junto, brilhar por tabela. 

Somos nós, fervorosos defendendo o desenvolvimento sustentável ( do capitalismo de mercado e da exclusão) na crença vã de que estamos salvando baleias e ursos polares. Ai de nós, laicos, racionais, críticos; ingênuos adoradores do Bezerro de Ouro.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2021 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio