revista bula
POR EM 21/06/2012 ÀS 04:53 PM

O aborto e a institucionalização do homicídio

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Os Estados Unidos da América, país mais rico e desenvolvido do nosso planeta, permite a prática do aborto na maioria de seus Estados. “In God, we Trust”, o mesmo Deus que estabeleceu em seu quinto mandamento “Não Matarás. Um erro grosseiro, no entanto, é conectar a defesa ao direito à vida com a religião. A religião por si só já possui paradoxos demasiados para serem resolvidos. A questão da vida não é e não pode ser tratada como um paradoxo. Esse direito deve ser defendido em todas as instâncias do conhecimento porque ele é o único elo que nos une como seres humanos e que nos impede de recairmos nos nossos desejos mais recônditos de barbárie.

O que é a vida para você caro leitor? Como você definiria a existência de um novo ser? Presumo que você esteja em um momento de descanso ao se deparar com esse texto e não queira parar para pensar nessas coisas. O mundo anda muito corrido. Existem coisas mais importantes a fazer, ou quiçá mais prazerosas como bisbilhotar o Facebook do amigo do trabalho, assistir ao noticiário cochilando no sofá, tomar umas e outras com os amigos. Mas veja bem caro leitor, isso tudo só faz sentido, ou só é possível porque você está vivo. Será que não seria interessante parar por um instante para pensar naqueles que não terão oportunidade de fazer essas coisas tão prazerosas simplesmente porque não viverão?

Discutir o que é um ser vivente parece ser motivo de muitas contradições. Um assunto que não nos parece assim tão complicado. Após a união do gameta feminino (óvulo) e masculino (espermatozóide) temos –— vualá –— a formação do zigoto. O ovo. Nesse ovo está contido uma mistura totalmente nova de material genético do pai de da mãe que uma vez instalado no útero da mulher se desenvolve até seu nascimento, crescimento, envelhecimento e morte (quando possível que o ciclo todo se cumpra). Discute-se que até o terceiro mês esse “amontoado de células” não tem conexões neurais suficientes para ser considerado um indivíduo humano. Querido leitor, será que os cientistas conseguiriam precisar em que exato momento essas conexões ocorrem para que possamos deixar de considerar o novo ser como um “amontoado de células” e passar a chamá-lo de ser humano? Existe algum ser humano que não tenha sido um pequeno ovo para podermos desconsiderar totalmente essa fase como pertencente ao desabrochar de uma vida?

Apesar dessa questão nos parecer muito simples, ainda assim ela tende a ser relativizada na sociedade. O aborto é visto como uma opção porque um ser que não tem voz não pode lutar por seus direitos. Um ser que ainda não se formou inteiramente, não é um ser. Um ser que não pode ser visto, não pode se fazer respeitar, ou até pode, mas somente se os pais estiverem afim de fazê-lo. A questão do aborto hoje está estritamente atrelada aos direitos políticos e sociais da mulher e não com respeito ao ser humano em si. Os direitos das mulheres são muito importantes, isso é claro, mas me parece que a sociedade esqueceu de discutir os seus deveres. Discutimos atualmente várias questões, a respeito da política, da economia, do clima, sempre visando a sobrevivência da espécie, mas não nos escandalizamos quando uma mulher vai a uma clínica e faz um aborto.

A natureza construiu o corpo feminino para que pudesse carregar a vida de um outro ser. É dentro dela que o ser se forma e é nela que ele vai retirar os primeiros nutrientes essenciais para o seu desenvolvimento. A mulher parece ter se esquecido desse privilégio. Talvez hoje o veja até mesmo como um transtorno. Na sua ânsia de se equiparar ao homem a mulher esqueceu das suas singularidades. Talvez tenha invertido os valores. O que antes era um privilégio –— gerar uma vida –— hoje é um transtorno negociado politicamente para resolver o problema de mulheres vitimadas por crimes como o estupro, pela pobreza ou pura e simplesmente pela inconveniência de aceitar as responsabilidades da vida. A mulher hoje na maioria dos casos, atua como vítima da sua própria inconsequência. E isso não é essencialmente uma característica feminina da sociedade atual. Os homens também estão interessados em se verem livres de filhos indesejados. Os homens, que ainda são detentores do poder político no mundo, fazem do aborto, material de barganha em campanhas políticas e deixam de atuar na promoção da educação que resolveria a quase totalidade dos problemas humanos. Estamos todos conectados –— homens e mulheres –— por um emaranhado de linhas invisíveis que faz com o que relativismo perante a vida faça do aborto uma prática legal. 

Em alguns Estados dos Estados Unidos discute-se atualmente uma lei a respeito das condições para a prática do aborto. A mãe, antes de desfazer-se do feto, é obrigada a ouvir o coração do bebê, ou submetida a um ultrassom que mostra imagens do feto. Ativistas pró-aborto e militantes da esquerda protestam dizendo que tal lei é humilhante para as mulheres. E é mesmo. A situação é bizarra. Como você pode obrigar uma mulher a olhar para o próprio filho seja ele um “amontoado de células” ou um ser humano já formado antes de abortá-lo se a própria lei considera que tal ato não fere os princípios dessa sociedade? Não faz sentido. Permitimos que você retire o ser do seu útero, mas antes você deve ouvi-lo (as batidas do coração) e vê-lo (a imagem na tela da televisão) para talvez repensar sua decisão. A sociedade já tomou a decisão de não considerar o ato como um crime contra a vida. E essa é a sociedade mais avançada que temos hoje no nosso planeta.

Todas as nossas atitudes enquanto seres sociais estão conectadas. Fica difícil de perceber isso porque vivemos nossas vidas preocupados com as amenidades do dia-a-dia. Quem é que se importa com essas discussões aborrecidas quando temos tantas parafernálias eletrônicas para nos entreter depois de um dia estressante de trabalho? E que me importa se um ser humano é impedido de se desenvolver no útero de uma mulher que eu nem conheço se eu estou aqui vivo? O papel da mulher para o coletivismo é muito mais importante do que ela imagina enquanto briga por direitos que ferem o desenvolvimento da vida. Talvez tenha se esquecido que dela depende a perpetuação da coletividade na sua mais mágica, bela e importante expressão: o dom da vida.

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