revista bula
POR EM 08/06/2012 ÀS 08:47 PM

Fique você sabendo que o Céu não existe

publicado em

“Você vai morrer e não vai pro céu. É bom aprender: a vida é cruel”, 
Homem Primata (Titãs) 

“Se tem uma coisa da qual eu desgosto a cada dia é gente”, disse o meu interlocutor, claramente emotivo, visivelmente afetado pela bile, supostamente obnubilado pelo coquetel de drogas despejadas dentro da sua veia pela equipe médica. Para muitos uma falácia, ele dizia aquilo como uma espécie de válvula de escape. Fazia um desabafo dos mais crus e primitivos, enquanto o médico repetia a aferição dos níveis pressóricos que até agorinha mesmo encontravam-se às tampas. O sangue ferveu por conta de um entrevero com um funcionário da sua empresa. Saiu do fórum direto para a enfermaria.

“Vou começar do início”, ele disse redundante. Contou que o sujeito batera à sua porta com uma mão na frente e outra atrás, que é como se diz quando se está na pindaíba, na quebradeira, no sufoco, na pior das situações do ponto de vista financeiro. Mesmo sem possuir referências seguras do estranho que reivindicava emprego pelo amor de Deus, ele julgou que havia sinceridade e o contratou. “Pensei comigo: bandido não procura emprego formal...”, admitiu o erro de julgamento, sem se lembrar que gangsteres, deputados e outros meliantes trabalham de sol a sol para se garantirem.

Com o apagão de mão de obra por que passa o país, não poderia dar-se ao luxo de tantas exigências burocráticas. Então, catou o sujeito que há três dias não comia. O homem devorou um prato de comida como se fora o último da sua vida. Fazia dó, pois o novato faminto fungava, lacrimejava os olhos, fazia pausas enquanto mastigava, levantava as mãos para o alto e orava: “Deus lhe pague, Deus lhe pague”.

Os primeiros três meses de trabalho foram de puro êxtase para o patrão. Afinal, o sujeito tinha um comportamento irrepreensível, cumprindo à risca o horário de trabalho, executando as funções combinadas com o esmero de um veterano. Olhando assim de longe dava pra jurar que aquele homem estava realmente “vestindo a camisa da empresa”, que é como diz quando uma pessoa trabalha com gana.

Mas, em se tratando de seres humanos, esta praga perniciosa que manda no planeta, nada como um dia após o outro. Passado o chamado Período da Experiência, uma espécie de fase probatória em que o indivíduo aparenta ter nascido praquilo e ser “o cara”, o encanto começou a fenecer, e o novato disparou a ratear. Não que ele fosse um motor, porque pessoas não são motores, embora muitas delas sejam tão bitoladas quando um virabrequim, ou tão sujas quanto uma engrenagem. É que o sujeito relaxou no jogo de cena e passou a demonstrar “o seu verdadeiro eu”, como diria um guru vendedor de livros de autoajuda.

Então passou a chegar atrasado, a trazer Atestados Médicos fajutos emitidos pela vizinha que trabalhava num hospital, a difamar a empresa, a reclamar do tempero da comida e da falta de variedade do cardápio, a sabotar máquinas e equipamentos, enfim, a importunar a vida de todo mundo que pelejava dentro daquela indústria.

Chamado à sala da Presidência para um conversa ao estilo olhos nos olhos, o empregado disse ao patrão que andava mesmo chateado nos últimos tempos: “Perdi a alegria de trabalhar dentro desta empresa”, ele declarou com a voz empostada como se fosse um jogador de futebol dando entrevista coletiva. Ele chegou à conclusão que precisava urgentemente ser mandado embora. Deu pra entender?

Estarrecido com o rumo que a conversa estava tomando, se era tão simples quanto parecia, o velho empresário quis saber por que ele simplesmente não pedia demissão e cascava fora dali de uma vez para sempre (Perguntou com jeitinho, não com estas palavras, que era pra não correr o risco de ofender o folgado. Hoje em dia, vocês sabem, o que tem de gente solicitando indenização por danos morais está uma imoralidade).

O sujeito alegou que precisava muito da grana do acerto para dar entrada na compra de uma moto. Além disto, com o adjutório do Seguro Desemprego, ficaria liberado para fazer uns bicos na clandestinidade e ganhar dos dois lados. E pra terminar, era o seguinte: se o patrão não o demitisse, faria corpo mole, continuaria trabalhando com o freio de mão puxado, enfim, que ninguém daquela empresa contasse mais com a sua boa vontade daquele dia em diante.

Àquela altura do colérico relatório, o médico interrompeu a nossa conversa e solicitou à vitaminada enfermeira um pouco mais do remedinho sublingual para abaixar a pressão que se encontrava nas grimpas. A lembrança daquele colóquio fazia jorrar adrenalina no sangue do meu amigo empresário, agitando suas artérias.

Então ele continuou a estória, deixando claro o quanto se sentiu ultrajado, o quanto desejaria dar um tiro no atrevido, embora jamais possuísse porte de arma, nem arma, nem habilidade, maldade, raiva e coragem suficientes para disparar um gatilho. Modo de dizer. Só isso.

“Fique sabendo você que o céu não existe, meu chapa!”, foi o máximo de agressividade que conseguiu demonstrar. Disse aquilo como se revelasse a uma criancinha que Papai Noel era pura enganação. Ora, nos loucos dias de hoje, tão logo abandona as fraldas, as crianças aprendem a manusear vídeogueimes, a acessar a internet, a manipular os pais idiotas, quem dirá, a desacreditar no bom velhinho. Foi, portanto, uma estratégia ingênua e ineficaz do velhote.

Pois então. Como sabia que o sujeito fazia o estilo religioso inveterado, embora, na prática, fosse um calhorda que cria demasiadamente em Deus, numa última cartada supôs que geraria algum tipo de remorso, e resgataria o funcionário raçudo dos primórdios.

O sujeito não se abalou com a revelação herege pseudo-mediúnica. Saiu da sala, tirou o uniforme e só se encontrariam novamente na corte da Justiça do Trabalho. A não ser pelo irrelevante dilema quanto à existência ou não de céus e infernos, a ação terminou num acordo entre as partes.

Já a vida segue repleta de dúvidas e desacordos que parecem infinitos. E não tem isordil sublingual que dê jeito nisto. Que fragilidade.   

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