revista bula
POR EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM

Fé ou razão?

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Questão complicada, leitor. Tão complicada que foi o tema dos grandes debates teológicos da Idade Média e fez muita gente virar churrasquinho. Não é de hoje que se mata em nome de Deus. O Cristianismo, depois que se tornou a religião oficial do estado romano, vestiu a roupagem do racionalismo de Platão e Aristóteles na edificação da doutrina e, com isso, precisou conciliar a fé cega dos cristãos com a lucidez da filosofia.
 
A definição de fé, para além da crença vulgar, pode ser encontrada nas palavras de Paulo em carta aos Hebreus: “Fé é a garantia das coisas esperadas e a prova das que não se veem.” Mas que garantia é essa? Que coisas são essas que não vemos? Como dar crédito a crença cega? Afinal, o que é a fé?

São Tomas de Aquino, vai dizer o seguinte: “Quando se fala de prova, distingue-se fé da opinião, da suspeita e da dúvida, coisas em que falta a firme adesão do intelecto ao seu objeto. Quando se fala de coisas que não se veem, distingui-se a fé da ciência e do intelecto, nos quais alguma coisa se faz aparente. E quando se diz garantia das coisas esperadas faz-se distinção entre a virtude da fé e a fé no significado comum(vulgar), que visa à bem-aventurança.” Pode-se notar que Aquino lança a fé sorrateiramente um degrau acima da ciência, apesar de não haver contradição entre ambas, ou seja, as verdades reveladas não contradizem as verdades racionais, elas se complementam. Até aí, fora os crematórios, Concílios, um tira e põe de evangelho, tudo certo.

Num belo dia, um alemão provinciano de rotina bem medíocre entestou com uma ideia besta: “Vou colocar a razão num tribunal!” Pois é, leitor. Falta de mulher deixa o caboclo sem noção...

Mas o tal de Kant, matutou, matutou e chegou a um veredito: Senhores, a ré, razão lógico-discursa-ocidental, não pode penetrar na raiz da realidade; há um limite para o conhecimento; o homem está condenado a conhecer o finito.

Em outros termos: a realidade tal como a conhecemos é uma representação imposta pela estrutura interna da razão. Não é tarefa do homem penetrar além desse limite, no infinito, ilimitado, ou seja, em Deus. Mas não é pra arrancar os cabelos. Essa coisa sem nome que existe por trás da nossa representação, não importa para ciência. O que importa é o fenômeno, a realidade como nos aparece, como a representamos. Podemos viver muito bem assim. Mergulhar além disso é cair no Absurdo. Tentar conhecer Deus por meio da razão é como tentar colocar a água do oceano num copinho desses de beber cachaça, não dá.

Mas a coisa complica é agora. Um outro alemão, mais maluco que o Kant, mete a boca no trombone e diz: foda-se o resto! O que a gente conhece, esse limite, essa representação que é o “ô do borogodó”; o resto não importa: “o racional é real e o real é racional”.

Tudo bem que parece letra de rap, mas não é genial, hein? Pois é, esse outro alemão é o Hegel. No mundo do Hegel (não pense bobagem) tudo é racional. E assim como pra Agostinho, o mal não existe, para Hegel não existe irracional; o irracional, o absurdo, etc, é só um momento do movimento dialético do Espírito Absoluto rumo ao conhecimento de si mesmo. Trocando em miúdos: a razão é o Absoluto. Troca-se o Deus Absoluto, por uma Razão limitada e Absoluta, ou como diria um colega de faculdade: duas de vinte e cinco por quatro de dez.

E onde entra a fé nesse mundo de pura racionalidade? Isso nos veremos na semana que vem.
 

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