revista bula
POR EM 15/08/2009 ÀS 10:08 AM

Existencialismo e angústia

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A angústia do romance existencialista é uma presença forte na literatura brasileira. Em muitos casos fundiu-se com o realismo fantástico, casos de Murilo Rubião, José J. Veiga, Clarice Lispector,  Campos de Carvalho, e até mesmo na estética da crueldade, em Bernardo Élis, ou na ficção e no teatro de Miguel Jorge, e nos contos de Delermando Vieira ou de Antonio José de Moura.  
 
É uma literatura forte, feita de luz e sombra. Sua atmosfera é a de quem se deixa levar pelo desvario da imaginação e de seus desejos, que focam os personagens em situações-limite, em que são capazes de cometer atos hediondos ou sublimes. Por ser capaz de simbolizar, o Homem também pode individuar-se. Segundo Octávio Paz, “O homem é a imagem na qual ele mesmo se encarna”. Na liberdade da arte, o Ser regata o contra-depressor lúcido, que o salva de seu instinto de morte.
 
O que poderia oferecer Raskolnikov, atormentado personagem de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, à empregada da estalagem. O que poderia ele fazer, a não ser mostrar o milagre indigente de sua Presença? Ele estava ali, faminto e febril, prestes a ser despejado pela polícia. Em sua pobreza visionária, tinha sonhos de salvar o mundo, e no entanto estava prestes a cometer um crime hediondo. Que fronteira separa o idealista do assassino? Que lógica absurda sustenta as ações do terrorista, que em nome de Deus, ou da pátria, mata milhares de inocentes, só para chamar a atenção para sua causa?

Para Jean Paul Sartre, “A palavra arranca o prosador de si mesmo, e o lança no meio do mundo, e devolve ao poeta, como um espelho, a sua imagem”. Onde começa a psicologia do Ser, aí começa a poesia da existência humana. Onde o Homem, interrompendo seu existir mecânico, indaga ao universo: Quem eu Sou? De onde vim? Para Onde vou? Qual o sentido de tudo isto? Cresce, e se agiganta, não mais a besta saciada que procria, mas a criatura auto-consciente, que se apropria da parte de si mesma que é grande.
 
Se Freud tivesse talento poético seria vasto, como o foi William Shakespeare. Como não dispunha de talento criador, mas possuía imenso poder sintetizador, como ensaísta, recorreu aos mitos, e ao vertiginoso, e abissal Dostoiévski, com seus sublimes parricídios. Assim fazendo, com seu fedorento charuto freudiano, Mr. Sigmund fez um gol de letra, ao inventar a psicanálise.
 
Talvez por ter concebido o crime perfeito de escrever a “Crônica da Casa Assassinada”, em que houve um crime sem castigo, Lúcio Cardoso, filho de tradicional família mineira, escreveu o desabafo: “Meu movimento de luta, aquilo que viso destruir e incendiar, pela visão de uma paisagem apocalíptica e sem remissão, é Minas Gerais. Meu inimigo é Minas Gerais. O punhal que levanto, sem pedir a aprovação de quem quer que seja, é contra Minas Gerais. Que me entendam bem: contra o jesuitismo mineiro. Contra a família mineira. Contra a fábula mineira. Contra o espírito judaico-cristão que assola Minas Gerais. Enfim, contra Minas, sua carne e seu espírito”.

P.S. O mesmo que levantou e afirmou Lúcio Cardoso, contra o mofo, a hipocrisia e a podridão de Minas Gerais, levanto e afirmo com relação ao Goyaz provinciano dos cambalachos e conchavos, os de alcova e os de fino trato, cometidos entre as cortinas e tapetes das etiquetas.  
 

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