revista bula
POR EM 16/02/2009 ÀS 06:15 PM

Encruzilhada para um valentão

publicado em

A cidade passou a viver um grande tormento  quando Absalão subiu de menino a homem, criando terra no pé do milho e um desaforo danado no desregrado da valentia. Passou a usar revólver e se valia também de seu corpanzil de quase dois metros, uns braços e um peitoral de fazerem inveja ao mister mundo. Quem convivia com ele notou logo a diferença, mesmo se não quisesse,  porque fechou a cara pra todo mundo e até em dois colegas de infância deu sopapos de arrepiar.

Também não gostava de criança e mesmo menino não o abeirava, porque até a carranca do cabra fazia medo. Não procurava encrenca, ela que o procurava. Os dois polícias que zanzavam por lá, coitados, quase não davam conta de si: Su Pereba, filho de Maricota Chocha e Carritel de Sora, filho de Assunta Pau Fresco. Ainda mais, Absalão botava banca e pagava pinga pros meganhas, que era disso que eles mais gostavam.

Arruaceiros dos bons, Absalão não encontrava ninguém que o enfrentasse, mesmo procurando. Um ou outro chegante mais afoito parava logo com o pé-dosuvidos sibilando e zunindo, que uma mãozada dele era parente próxima de uma mão-de-pilão. Era um Sansão de força, um Hércules na lida e um Golias no tamanho. Pense num bicho bruto? Pode dobrar e vai encontrar certinha a medida dele.

Absalão tinha uma irmã moça, a Ericléia, bonita que só a porra, mas que estava fadada a ficar pra titia, porque não aparecia macho ali que ao menos pensasse em relar nela. Ninguém sabia o que poderia acontecer, qual seria a reação dele, mesmo porque ela ainda não arranjara namorado. Não sabiam, mas não arriscavam. Conhecendo a brutalidade do irmão, bem capaz que o namorado fosse viver catando cavaco. A brutalidade era tanta que Absalão mantinha em casa, bem à vista de quem passasse na rua, uma galeria com troféus em couros de onças, sucuris, porcos-espinho, jacarés e antas, que ele pegou à unha.

Não demora, dois meninos dos mais encapetados dali, brincando num monturo, certa feita, espreitaram Absalão em panos de medo, em palpos de aranha, em pulos de seriema e em gritinhos de ai, ui. Passada a tormenta, se certificaram que o valentão tinha medo de barata e o estrupício que presenciaram foi por causa de um inseto desses que topou com ele naquele ermo de lixo.

Urdiram pegá-lo na encruzilhada. Juntaram mais de cem baratas, das mais robustas às mais intanguidas,  colocaram em duas caixas de sapato e esperaram Absalão na porta do Mercado Municipal, local muito freqüentado. Dez horas da manhã e aparece ele com sua empáfia e descortesia, para desespero de muita gente que vai se espalhando como formigas atacadas. Os meninos, armados com caixas de sapato, começam a xingá-lo com impropérios impróprios e os publicáveis vão na conta de "Você é um valentão de bosta", "Seu rosca de cu de porca, vem pegar a gente se for homem". Absalão se resumiu num bicho bruto, avermelhou-se, brandiu grunhidos e xingamentos, e o povo, entre aturdido e surpreso com a atitude dos meninos, se preparou para assistir ao embate. "Vou dar nossêis é de fivela de currião", disse enquanto desamarrava a calça e corria na direção dos meninos. Eles abriram às pressas as caixas e jogaram as baratas no rumo do valentão. Absalão estancou, amareleceu, esverdeou, deu sapituca, esbarrou nas pernas, saiu gritando os ais e uis mais esquisitos e caía aqui e acolá perdendo as calças no meio da rua. Foi a maior desmoralização presenciada ali. Absalão ficou leso do juízo e passou a esmolar na rua, numa penúria dos diabos.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio