revista bula
POR EM 23/03/2009 ÀS 08:55 PM

Em se plantando, até morto dá

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Eu vi, vejo e conto com a maior alegria o que vem se passando em Saracutópolis há oito anos, desde que deram por morto Seo Eustógio Garguela, o mais idoso do lugar, com seus 150 anos, confirmados em papéis do Império, com a pecha, a mecha e a sugesta de ser afilhado de Dom Pedro II. Deu-se que um dos bisnetos, porque filhos e netos não tinha mais, o Secundino Garguela Filho, cismou de enterrar o velho em pé, no quintal de casa,  com braços e mãos pra fora, com a desculpa de que ele, como fabricante de sabão, desenvolvia experiências que poderiam resultar em enormes ganhos científicos para a humanidade.

Todos os dias regava os braços de Seo Eustógio , até que no prazo de três meses começaram a brotar ramificações exóticas e muito interessantes e com cerca de um ano apareceram frutos conhecidos no cerrado como cagaitas. Seo Eustógio Garguela virara, na verdade, um esplendoroso pé de cagaita. Um ano após, depois de algumas experiências genéticas com as cagaitas eustogianas, Secundino conseguiu produzir o primeiro ser humano totalmente de laboratório, que ele considerou como tio,  denominando-o de Eustógio II e pegando-o pra criar.

Dois anos depois da morte de Seo Eustógio, todo morto de Saracutópolis ganhava sepultura na vertical, com braços e mãos à vista, à espera de frutos, que mais à frente seriam novos entes das famílias. Secundino montou uma empresa, contratou gente  e, mesmo em tempos de crise, seu  negócio era o que mais crescia e dava dinheiro. A prefeitura teve de fazer campanha publicitária, porque algumas pessoas anunciavam que se suicidariam para renascer.

Adriana Sinsa, o único homossexual do lugar, quis saber de Secundino se ele era capaz de fazer nascer uma flor das mãozinhas dele depois que falecesse e, do seu corpinho, um homem bonito assim que nem o Luciano, irmão de Zezé de Camargo. Ela ou ele, não sei, já queria deixar contratado e com tudo pago, mas Secundino não aceitou, valendo-se das inconsistências da pesquisa.

Secundino montou logo um pomar de mortos, que passou a dar uma infinidade de frutas, algumas até exóticas para a região, como pêssego, figo, tâmara, nectarina, ameixa, curuba, kino, granadila e pitaia. E o povo que nascia delas era em tudo muito geneticamente diferente dos nossos e dos das famílias do morto. Os pretos davam os frutos mais gostosos. No entanto, na transmutação saíam pessoas totalmente brancas. Índios davam japoneses; brancos nasciam pretos; morenos se transmutavam em chineses. E a mistura ia se consolidando.

De repente, tudo voltava ao normal. Tempos depois, no lugar de homem nascia mulher e vice-versa. Até o dia em que o prefeito morreu e do pé do prefeito morto nasceram abacaxis e pepinos. Na transmutação, o pepino, ao invés de gente, produziu um corvo, e do abacaxi nasceu uma serpente cascavel violentíssima. Desse dia em diante, pouca gente quis ser enterrada em pé e o negócio de Secundino degringolou.

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