revista bula
POR EM 11/11/2011 ÀS 03:34 PM

Dá pra raciocinar usando Chanel?

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Começou com a Clara Averbuck, uns 10 dias atrás, comentando que um sujeito afirmou que "mulher bonita não tem que ser inteligente".

E eu fiquei pensando sobre pensamentos dicótomos mas não opostos. Ser alto impossibilita ser baixo. A gente por aqui tem essa mania de achar que uma característica elimina outra. Exemplo, marxista rico, modelo inteligente, ninfomaníaca fiel, atleta intelectual, vegetariano gordo.

Seguimos. Não sei se é algo acompanhado pelo grande Brasil, mas em São Paulo a bola da vez é se posicionar a favor ou contra os USPianos que invadiram a reitoria. Pesquisem pela internet a parte jornalística da coisa, eu vou poupar vocês de informações irrelevantes.

Eu não fiz USP, pelo simples fato de não ter passado no vestibular. Só por isso. Talvez, se tivesse feito, a vida acadêmica me parecesse menos insuportável e eu tivesse terminado a faculdade de Direito. Talvez por ser tão disputado o ingresso, eu tivesse me obrigado a terminar e hoje seria mais uma advogada enfurecida, de tailleur bem cortado. Nunca saberemos.

Mas o caso é que eu respeito a USP e principalmente alunos e professores da USP. Em uma das reportagens a respeito apareceu no meio dos alunos manifestantes, que pedem que a PM saia do campus, um rapaz vestindo uma camiseta da GAP. GAP é uma loja comum nos Estados Unidos, que por lá não diria muita coisa sobre o aluno, mas que por aqui virou estopim para uma série de comentários idiotas. Instantaneamente, a turminha do "se hay movimiento soy contra", decretou: "o que alguém que usa GAP tem a dizer sobre o mundo?".

Protestar usando GAP não pode. Pode protestar de rímel e unha feita? Pode ir ao protesto de carro? Pode ir quem tem carteira assinada, plano de saúde e viagem de réveillon marcada? Pode protestar quem depila as axilas? Tô confusa. O que tira a legitimidade de uma pessoa que quer protestar? A causa? A camiseta? O saldo?

A polícia outro dia pediu desculpas por ter colocado um sujeito usando uma camiseta do Corinthians em uma simulação de ação criminosa. Quem não lembra do sequestrador do empresário Abílio Diniz sendo preso vestindo uma camiseta do PT nas eleições de 89? Há quem diga que pagaram aos policiais para a foto acontecer.

Se eu tenho um carro, não posso pedir mais linhas de metrô? Se não tenho carro posso protestar por menos buracos nas ruas? Posso me alinhar aos professores em greve, mesmo estando formada e não tendo filhos? Ou só se pode assistir no Jornal Nacional bebericando a cervejinha do final do dia, na sala do apartamento de 60 metros financiado em trocentos anos na Caixa Econômica Federal?

Se eu não trepar cinco vezes por semana, e for a mulher mais bem comida do mundo, eu posso ficar nervosa e brigar pelo que eu acho certo? Ou é falta de homem? Me expliquem exatamente o que eu tenho que fazer para não virar motivo de chacota se um dia me engajar em uma causa. Como faz para ser ouvida?

É como dizer que uma mulher linda não pode (ou precisa) ser inteligente. Tenho que escolher entre ser consciente e viver na merda, ou rica e alienada? Entre ser linda e burra ou inteligente e feia?

Falta justamente, na minha desconsiderada opinião de classe média, mais gente na rua protestando pelo alívio no calo do outro. Solidariedade. Vergonha na cara, ambição. Ambicionar um país melhor, onde ser pobre não significa ser coitado e ser rico não significa ser insensível — surdo — cego.
 
Quem decide quais causas são dignas de protesto?

Queria ver todo mundo na rua, um protesto generalizado de insatisfeitos. Independente da causa, da classe, do assunto. Todos que gostariam que algo mudasse em algum âmbito público ou privado: ás ruas com cartazes.

Occupy sua vida, que é só uma. Seu país, nosso mundo. Sem para isso esvaziar de sentido a vida do outro.

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