revista bula
POR EM 20/12/2011 ÀS 10:59 PM

Caso a gente sobreviva

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Foi proposto que eu escrevesse uma carta retrospectiva do ano de 2011, visceral e melenta, porque é fim de ano e vem Natal e normalmente o balanço anual nos leva às lágrimas, felizes ou pesarosas.  O plano era me aproveitar desse momento sensível geral e melancolizar. Sucesso de tweets, retweets e curtição no Facebook. Sem mencionar os comentários por aqui... Mas seria falso e por enquanto, por aqui, consegui ser verdadeira. Ou superficialmente honesta. 

Devo confessar, que muito embora as resoluções para 2011 não tenham se cumprido, este fica como um dos melhores anos da minha vida. Das melhores trepadas, dos novos e provavelmente eternos amigos, da mudança profissional. Do triunfo do tempo que cura, sobre a pressa que fere. Da pressa que atropela, sobre o medo que paralisa. 

Do sentar e fumar um Marlboro no meio da madrugada para pensar. De escrever um SMS ou um e-mail cruelmente desnecessário (normalmente mais cruéis comigo que escrevo do que com quem recebe). Ou humilhantemente apelativo. E não escrever a maioria deles.  

Uma vitória ou um alívio. Ser uma escritora menos dramática e mais calada.  Exceto quando tudo transborda e a página em branco se enche de caracteres e meu micro universo de leitores se enche de olhos que provavelmente sangram por mais tempo do que eu.   

Menos drama, muito menos drama. Naveguei águas menos turbulentas em 2011. Algumas tempestades, todas importantes para aprimorar minhas habilidades marinheiras. 

Jack, nem sempre o melhor conselheiro. Quase sempre o melhor companheiro.  Dizem do culto ao álcool que a minha balzaca geração alimenta: sintomático. Talvez. Ou não. Jack talvez seja um resquício boêmio romântico dos nossos heróis, ou pura safadeza. Ou anestésico. Ou a forma que a gente tenha encontrado de encardir essa nossa existência contemporaneamente asséptica. 

Abandonei qualquer outra atividade remunerada que não fosse escrever, e surpreendentemente termino o ano não só conseguindo me sustentar como escritora, mas ainda tendo certo conforto financeiro. Claro que em um país como o Brasil, rica dificilmente eu serei, a menos que me submeta a escrever novelas globais ou manuais de autoajuda, vestidos ou não com o manto da saberia.  (Beijo, Paulo Coelho). 

A vida evolui, e meu futuro provavelmente não será viver numa cabana, comendo pão com banana. Tá tudo bem agora. 

2011 me trouxe equilíbrio, ou a promessa de equilíbrio em 2012. Da existência diurna, profissional e responsável às eventuais recaídas que ralam joelhos e fazem amigos contarem minhas histórias nos bares. Histórias sobre as minhas merdas, história sobre os meus excessos. E tá tudo bem. Tem gente que vive por meio das heroínas das novelas, e tem gente que vive por meio da amiga balzaca que bebe e faz papelão. (Quem nunca?) 

Sei que 2011 me ensinou que eu posso ter os dois, muito embora algum método para o caos seja necessário. Método para o caos parece uma contradição de termos, mas não é. Metodizar o caos até virar apenas uma loucura diagnosticável. Nem cura é necessária, nem controle. Só um diagnóstico e a conservação do caos enquanto forma de autopreservação do destrutivo que me habita. 

E a constante capacidade se entrar e sair da lama.

E a constante capacidade de errar.

E a constante capacidade de foder tudo, e consertar, pedir perdão, ou desculpas.

E sendo desculpado, criar um elo que fortalece o gauche que faz aquela relação duradoura e inabalável. 

Que eu erre mais em 2012, me machuque menos, aprenda a colocar o Marlboro, antes do Jack, antes do passo a frente e do salto final rumo ao vazio que me faz voar temporariamente até morrer. 

E que depois de morrer eu me levante e comece tudo de novo. 
 

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