revista bula
POR EM 31/12/2010 ÀS 11:32 AM

Caminhando e cantando

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Continuo caminhando, apesar de todas as minhas objeções muito bem fundamentadas, porque ninguém pode ficar parado. Se o espírito já voa devagar, nada melhor do que botar o corpo em movimento. E para que a sensação de perda (de tempo) não me estrague o dia, como às vezes acontece a qualquer vivente, abro olhos e ouvidos bem abertos e colho em minha tarrafa peixes de todo tipo e tamanho.

Ontem cruzei com um velhinho de outros tempos, que já viu e viveu até o que não existe mais, a não ser nele mesmo. Pelo menos foi essa a idéia que me ocorreu quando o ouvi gritar, em plena avenida: veeeer-durei-rooo. A melodia de sua voz, bem, não há como reproduzi-la aqui, mas é a mesma que, resistente, também vem atravessando a bruma dos tempos. Oh, já ouvi essa mesma canção quando adolescente, num dia em que estava namorando na praça, os livros em uma das mãos e o coração na outra. Depois de ter feito minhas primeiras barbas, ela, a melodia, me tirou da cama em uma manhã de domingo, quando me agradaria muito corrigir os excessos da noite levantando só depois do meio-dia. Na medida em que os anos me ressecavam a pele e branqueavam o cabelo, esses apelos foram sumindo, cada vez mais esmagados pelos modernos supermercados. Os velhinhos vendendo nas ruas, aposentados ou não, iam perdendo sua razão de existirem.

Quando o veeeer-durei-rooo repetiu seu anúncio, com o fio de uma voz carregada de timidez, e que passou roçando de leve meus ouvidos, voltei, e voltei a um tempo que vocês provavelmente nem saibam que existiu. Eram as marcas da segunda guerra mundial chegando ao Brasil. Jornais, revistas, com fotos de aço retorcido, com fumaça escura subindo ao céu, e os números, as conversas, o medo. Desse tempo, não consigo separar muito bem as coisas. Não sei por quê, mas me vejo trepado numa cerca de ripas enquanto a rua passa com suas atrações. É uma cálida manhã de sol, e a brisa, muito mansa, corre na direção da Patagônia. Eu ainda não sabia que o mundo termina na Patagônia, e até hoje não tenho muita certeza. Ali trepado me vejo ainda agora nos trezentos e sessenta graus simultaneamente. Então um outro velho, um velho que eu já conhecia, vem subindo a rua com dois balaios pendurados de uma vara horizontal que ele suportava no ombro. O cheiro do que ele traz nos balaios chega bem antes dele.

Mal passou por mim, repetiu: Olha a banana, banana menina, contém vitamina!

Seu anúncio continua existindo em mim. Um dia não existirá mais.

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