revista bula
POR EM 22/12/2010 ÀS 09:56 AM

Café filosófico

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Nem sempre se consegue estar atualizado, conhecendo tudo que acontece ao redor da gente. Tem-se ouvido muito falar em Café Filosófico, Salão de Ideias, Café Literário, tudo mais ou menos com o mesmo formato, mas algumas pessoas conseguem ver apenas um microfone aberto e uma oportunidade de se expressar. A coisa não é bem assim.

Corro o risco de ser acusado de ter produzido uma crônica didática, mas ela me parece necessária. Tenho visto muito equívoco envolvendo o assunto. Sem querer passar por dono da verdade, aí vão algumas observações que tenho feito, mas o objetivo real destas poucas e mal-traçadas linhas é bem outro.

O Salão de Ideias é o espaço da interação autor/leitor. Dúvidas, observações, talvez até contestações cabem no Salão de Ideias. Há um mediador com a função de esquentar a máquina, dando traços da biobibliografia do convidado e fazendo as primeiras perguntas para animar o público. Nada mais.

O Café Filosófico, originariamente, acontecia em um café na situação de informalidade que lhe é peculiar. Convidava-se alguém cuja assinatura aparecesse em algumas publicações, para esclarecer seus pontos de vista, para expor suas ideias a respeito de algum assunto de sua área. O autor fala, a plateia ouve. Só no final, as pessoas podem tirar suas dúvidas. Neste formato não existe o mediador. É uma palestra com tema definido, especialidade do palestrante. O nome, muitas vezes é uma impropriedade, pois o assunto abordado raramente é a filosofia.

O Café Literário, bem, todos a que assisti têm o mesmo formato do Salão de Ideias.

O que mais se vê, entretanto, é que tais eventos recebam qualquer um dos títulos, indiscriminadamente, ou seja, sem nenhum critério. Pior ainda (e era este o comentário que desde o início me propunha fazer): é muito comum a intervenção de pessoas da plateia que, descobrindo um microfone, passam a encantar o público com teses políticas, homenagens ao autor, leitura de “pequeno texto de minha própria lavra”. O autor, aquele que atraiu o público por causa de sua obra, esse fica na constrangedora posição de plateia, mantendo, geralmente, um silêncio respeitoso em face do intruso. 

A autopromoção, num momento desses, não é só falta de respeito em relação ao convidado, é também uma maneira de demonstrar deficiência cultural. Quase sempre anunciam uma pergunta e acabam defendendo uma tese, que, por excessivamente extensa, deixam o pobre do convidado inteiramente confuso e sem resposta nenhuma a dar. 

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