revista bula
POR EM 14/12/2010 ÀS 10:06 PM

Belo gesto

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O Adamastor me fez lembrar que todos nós nos entregamos à mórbida preferência por ver os vícios e defeitos humanos. E para exemplificar o que me dizia apenas como conceito, começou a citar filmes e livros, sobretudo filmes com sucesso de bilheteria. Mas é o pobrismo, hoje moda no Brasil, rebati. Bom que fosse só isso, refletiu meu amigo. E continuou dizendo que o facínora fascina porque comete o que muitos gostariam de cometer, sem coragem de arrostar a sociedade e arcar com as consequências.

Me lembrei dessa conversa com meu amigo, ontem de manhã. Como todos os dias, minha mulher e eu vamos de carro até certa avenida onde caminhamos por cinquenta minutos em passo acelerado. Antes do exercício, costumamos fazer alongamento. Colocamos as duas mãos empurrando o carro e as pernas se contorcem para soltar os músculos renitentes e infensos ao gosto do exercício. Agora reconheço: a posição em que trabalhamos as pernas é um pouco estranha.

Pois ontem, em pleno alongamento, vimos uma jovem mulher, não mais de vinte e cinco anos, atravessar a avenida olhando para nós, com semblante preocupado. Ao se aproximar, ela perguntou para a Roseli: A senhora não está se sentindo bem? Eu moro aqui perto, vamos até lá em casa.

Muito constrangido por termos provocado tal equívoco, mostramos à jovem mulher que apenas nos preparávamos para mais uma sessão de exercícios. Constrangida, mas sorridente, ela seguiu seu caminho. Nunca a tínhamos visto, talvez nunca mais venhamos a vê-la, mas passamos o resto do dia convencidos de que existem, sim, existem pessoas que resgatam o sentido da palavra humanidade. 

Hoje de manhã recebi emeil de um amigo historiador, sujeito de olhos muito abertos para tudo que acontece ao redor. E ele me fazia refletir sobre o voyeurismo, que, sobretudo com o advento da televisão, vem criando uma sociedade imbecilizada, para a qual apenas o escandaloso tem algum atrativo. Me lembrei dos livros e filmes que fazem sucesso, e é claro, me ocorreu que o Big Brother é a prova cabal disso tudo.

Mas há fissuras no sistema e é por elas que ainda respiramos. A moça de ontem foi uma brisa gentil que nos deu um pouco de esperança. Não a conheço, nada sei a seu respeito, mas, por uma lógica que me ajuda a viver, tenho certeza de que ela não assiste ao Big Brother. 

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