revista bula
POR EM 27/11/2009 ÀS 02:59 PM

Bartleby e eu

publicado em

O Mal de BartlebyDiante de minha recusa em escrever, uma amiga (ela própria uma escritora) enviou-me por e-mail um artigo que saiu na revista “Literatura – Conhecimento Prático”, da editora Escala (“O Mal de Bartleby”), que eu não li. Não gosto desse conto de Melville, me dá agonia. Além disso, não acho que o nome que escolheram pra “síndrome que faz os escritores desistirem da escrita” tenha sido feliz. O que tem a ver a recusa bartlebyana com a recusa em escrever?
           
Pra começo de conversa, “recusa” não é bem o que acontece na maioria dos casos. Vamos então trocar a palavra por “impossibilidade”. Afinal, não se trata de ato voluntário. Trata-se mais de um não-ato. Uma mistura de preguiça, com emburrecimento, com inércia e, talvez, por incrível que pareça, de sensação de plenitude. Explico-me. Acabei comprando a revista sugerida por Margareth Giglio (a leitora-escritora) e acabei lendo a matéria e a entrevista que a acompanha, com o poeta Fabrício Carpinejar. Não concordo com quase nada. Mas Carpinejar disse algo que faz sentido. Quando está feliz, quando tudo vai bem, ele se desmotiva a escrever. Parece que precisa estar “fodido” pra sentar a bunda na cadeira e despejar teclas suficientes, dignas de se tornarem públicas.
           
Faz todo sentido. E talvez seja parte da culpa no que me diz respeito. Vai comigo tudo bem, obrigado. Mas não é só isso. Tem algo mais profundo e muito mais preocupante. Há vários anos, um tio meu, uma das pessoas mais inteligentes que já conheci (tão inteligente que é meio doido), mestre em Filosofia, doutor em Antropologia, professor de psicologia na UFSC (já viu que doidos fazem psicologia, psiquiatria ou psicanálise?), enfim, Marquito (Marcos Eduardo Rocha Lima) me disse que não conseguia mais ler ficção. Tinha uma estranha sensação de... inutilidade. De ridículo. Aquilo soou pra mim como extrema blasfêmia, vinda de uma pessoa que influenciou demais minhas leituras na juventude (Loyola Brandão, Sábato, Cortázar, Kafka). E creditei como uma de suas inúmeras bizarrices.
           
Pois de uns tempos pra cá (um ano, pouco mais ou menos), o mesmo está acontecendo comigo. Não é que não esteja conseguindo escrever ficção. Não estou é conseguindo nem ler ficção. Uma incômoda sensação de ridículo me empaca a leitura. Tentei terminar alguns livros que trouxe de Boston, não consegui. Aliás, o que trouxe de lá foi sintomático de meu estado de espírito. Vários livros de filosofia, algumas peças de teatro e dois (dois!) livros de ficção. Um do Roth e outro do Faulkner. O do Roth li por lá mesmo. E detestei. O do Faulkner é o que tentei terminar agora e não consegui. Daí fiz um auto-diagnóstico: deve ser porque emburreci para literaturas maiores. Quem sabe se tentar as menores? Comprei uns best-sellers. Tentei “Trem Noturno para Lisboa”. A quantidade de clichês bestselléricos é tão grande que eu ria quando deveria estar seriamente compenetrado. Não consegui terminar. As peças que trouxe de Boston, detestei todas, exceto uma: “November”, do Mamet.
           
Bom, mas ninguém está a fim de saber o que tenho lido ou deixado de ler. E muito menos fazem alguma falta meus escritos de ficção. O problema é que de uns tempos pra cá não estou conseguindo escrever nem não-ficção. É um esforço enorme ficar diante do computador e despejar palavras e palavras. Aquela mesma sensação de absoluta inutilidade... O compromisso mensal que tenho com a revista “Filosofia Ciência & Vida” é a única coisa que tenho conseguido fazer. E mesmo assim porque é um compromisso (com contrato) e porque é mensal. Se fosse semanal eu estaria lascado.
         
Pra finalizar, ultimamente nem filosofia tenho conseguido ler direito. Sabe a última coisa que li com prazer? “Os Sabores da Borgonha”, de Emmanuel Bassoleil. Um livro de receitas.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio