revista bula
POR EM 01/12/2010 ÀS 05:13 PM

Aventura pequena

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Quem relata, é uma professora de cidade vizinha, município com menos de vinte mil habitantes. Seus alunos ainda não conheciam cinema, apesar de viciados em televisão, e ela resolveu levá-los a um shopping de uma cidade maior, em viagem civilizatória. Enfim, civilização pressupõe, entre outras coisas, o consumo dos bens criados pela inteligência humana. O filme era bom, segundo seus parâmetros de julgamento, um filme de sucesso. Os próprios alunos o escolheram. Como geralmente acontece, a escolha deveu-se à badalação da imprensa, que prefere julgamentos de quantidade a considerações de qualidade. O filme já fora visto por tantos milhões etc e continuava atraindo multidões ao cinema por seu aspecto espetaculoso.

Como é praxe acontecer nesses casos, antes do cinema são necessárias duas visitas: uma chegadinha à lanchonete e outra ao banheiro. Não há primeira visita a um shopping Center sem essas duas chegadinhas. No meio de um filme, aparecer criança choramingando de fome ou pedindo para a “tia” para fazer xixi, ah, não, é de estragar a festa. De admirar, a prudência dessas professoras de cidade pequena, que preparam seus roteiros baseadas na experiência com crianças. Até a lanchonete, nada de extraordinário: comeram salgadinhos, tomaram refrigerante e estas coisas todas que se costuma fazer num estabelecimento comercial do gênero. O problema foi no banheiro. As meninas não saíam mais. Todo mundo ali no corredor, com cara de quem espera alguém que foi ao banheiro, que é uma cara muito especial. E nada de as meninas aparecerem.

O filme já tinha começado quando a professora resolveu entrar para ver o que acontecia. Suas alunas, maravilhadas, descobriram que bastava ficar na frente da torneira que ela mandava a água. Outras botavam as mãozinhas debaixo de um secador e o vento quente as encantava. Duas filas: na frente da torneira e na frente do secador. Instadas a se apressarem, as crianças não arredaram dali. A maior lição quem aprendeu foi a professora: melhor aventura não é a que se vê na tela, mas a que se vive de corpo presente. Por pequena que seja.  

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