revista bula
POR EM 27/09/2010 ÀS 10:50 AM

As serventias da Literatura

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Neste momento em que um texto do Flávio Paranhos sobre  a Utilidade da Arte esquenta as discussões aqui na Bula, me parece oportuno o retorno deste artigo que foi publicado há cerca de três meses. 

O artigo não responde nem polemiza com Flávio Paranhos, no entanto, por avaliar a questão a partir de enfoques e premissas diferentes, acaba apresentando afirmativas que, pelo menos em aparência, divergem das apresentadas por ele. Assim, a oportunidade se dá não pela polêmica, mas por conceder aos leitores alguns argumentos, ainda que rarefeitos, e uns pontos de vista a mais sobre essa discussão que, tenho suspeitas firmadas, não esgotará aqui, nem nesta geração. Portanto, vamos ao artigo.


(Carlos Willian Leite) 

 

As serventias da Literatura

Quem milita com Literatura neste mundo de coisas utilitárias, às vezes se vê instigado a responder de pronto: Para que serve mesmo a Literatura?  A resposta parece óbvia, mas na hora de responder assim de chofre e de forma objetiva, acaba-se caindo em apuros. 

Em primeiro lugar, para se dar uma resposta que convença minimamente, será preciso admitir que há certos fatores que entram na composição das forças do mundo que são, digamos, imateriais. Como a força do Papa, por exemplo, que não tem nenhuma divisão de brigada, mas conseguiu interferir em muitas guerras ao longo da História.  São forças não passíveis de avaliação imediatamente em peso, medida ou valor monetário. São coisas que não entram no cálculo do PIB, mas são primordiais. Como o ar , que ninguém calcula o seu preço, mas sem ele não existiríamos para dar preços às outras coisas. Com uma diferença significativa: o ar é natural; a Literatura é invenção da cultura humana. 

Seja como for, valendo-me de um ensaio de Umberto Eco, aí vão alguns exemplos de utilidade da Literatura que consegui elencar: 

1º — A Literatura contribui para a formação, estabilização e desenvolvimento de uma língua, como patrimônio coletivo. O que seria da língua portuguesa sem Luiz de Camões? O que seria do Italiano sem Dante Alighieri? O que seria do Espanhol sem Cervantes? O que seria do Inglês sem Shakespeare? O que seria da Civilização e da língua grega sem Homero? O que seria da língua russa sem Puchkin? É bom lembrar que línguas que não tiveram uma Literatura que sobressaísse entraram em decadência sem alcançar o apogeu. 

2º — A Literatura mantém o exercício, o arejamento, o frescor da língua, que é o principal fator de criação de identidade, de noção de comunidade, do sentimento de pátria e pertencimento a uma placenta cultural que nos acolhe e nos dá sentido à vida tanto individual quanto coletivamente. 

3º — A Literatura proporciona o aprendizado, de uma forma lúdica e segura, ao mesmo tempo em que permite o acesso das novas gerações aos valores universalmente aceitos como válidos, como a honestidade, o respeito ao próximo, a importância da cultura, enfim a transmissão de valores morais, bons ou ruins e o senso crítico de escolha entre eles ou rejeitá-los. 

4º — A Literatura expande a rede neural do leitor, possibilitando a diversidade das idéias, a capacidade de reflexão, a noção de flexibilidade e a tolerância para com o diferente. 

5º — A Literatura enseja o surgimento e a disseminação de valores estéticos, introduzindo na vida das pessoas o verdadeiro sentido do belo, distinguindo-nos da fauna geral. 

6º — A confabulação da literatura nem sempre segue o caminho desejado pelo leitor, possibilitando a ele entrar em contado com a frustração ficcional, como exercício das frustrações impostas pela vida de fatos, às quais é bom que resista. 

7º — A Literatura, como toda arte, amplia a visão da realidade e cria realidade nova. 

8° — Pelo que foi elencado, a Literatura não é uma panacéia — um remédio para todos os males —,  mas a base, a plataforma de lançamento de cidadãos melhores, numa sociedade do tipo que todas as pessoas de boa vontade desejam ver implantada. 

Certamente o leitor verá “utilidades” diferentes ou mesmo complementares a estas. 

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