revista bula
POR EM 11/12/2009 ÀS 01:20 PM

Apesar de vocês

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Victor JaraUm juiz chileno decidiu na última segunda-feira indiciar seis pessoas pela morte do ex-presidente Eduardo Frei Montalva, que governou o país de 1964 a 1970. Os acusados são os possíveis responsáveis pelo envenenamento de Frei, numa clínica em 1982. Seu filho Eduardo Frei é candidato às eleições do próximo domingo e propõe uma revisão da Lei de Anistia do Chile, que limpou a barra de um governo que sumiu com 3.000 pessoas. 

Dias antes da revelação bombástica sobre Frei Montalva, houve o enterro oficial dos restos mortais do cantor Victor Jara, barbaramente assassinado pelo governo do ditador-neoliberal Augusto Pinochet e exumado recentemente. Em 1973, a mulher de Jara fez a sepultamento às escondidas, tendo a companhia apenas de uma amiga. A cerimônia de agora foi a celebração da memória que mantém o assunto na ordem do dia e faz o ajuste de contas com o passado. 

Os chilenos vão dando os sinais de mudanças quando o tema são as ditaduras militares do Cone Sul —os verdadeiros laboratórios de torturas e do neoliberalismo, segundo mostrou Naomi Klein no livro “A Doutrina do Choque — A Ascensão do Capitalismo do Desastre”. Em 2005, foi revelado que Pinochet e sua gangue mantinha contas secretas no exterior com recursos de vendas de armas. Morreu com a imagem justa de carniceiro e de ladrão milionário. 

O revisionismo histórico no Chile vai no caminho certo de desfazer a imagem de país moderno e exemplo para o capitalismo. A sociedade chilena tem um índice de GINI, que mede a desigualdade de renda , pior que o do Brasil. O grau de violência política vai sendo revelado pelas histórias de Frei Montalva e de Jara. Caem a ideia de país bonitinho e a fantasia ideológica para o mercado de políticas liberais (vulgares) na América Latina. 

No Brasil, ao contrário, os revisionistas dizem que qualquer interpretação da Lei de Anistia é um revanchismo. Moldam a imagem de idiota para João Goulart em péssimas biografias e vivem da criminalização de quem enfrentou os governos que, além de torturar seus opositores, criaram belezuras como a favela da Cidade de Deus no Rio de Janeiro. Em pouco tempo, o revisionismo vai pedir que os militantes de esquerda peçam desculpas aos militares.

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