revista bula
POR EM 23/11/2010 ÀS 12:39 PM

Apenas um filhote (II)

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Choveu muito esta noite, uma chuva monstruosamente pesada. Hoje de manhã, a primeira coisa de que me lembrei foi do filhote de andorinha que tinha aparecido na varanda, chamando a mãe. Ele não tinha idade tampouco natureza para me tomar por protetor de coisa nenhuma.

Saí para o jardim a fim de ver se descobria alguma pista do passarinho, mas pareceu-me que ele conseguira fugir. De manhã cedo, quando o sol ainda não se torna veneno, andar pelo jardim é como estar no Éden sem saber. Abri moitas de impatienses, vasculhei molduras de pingo de ouro, examinei o interior de um tufo de barba-de-bode e só encontrei ausências. Já estava feliz com a vitória daquele serzinho insignificante, quando vi, rente ao muro, uma bolinha preta, imóvel, meio opaca. Era o filhote, rígido, inteiramente morto. Sua cabeça tentava penetrar numa barreira de azedinhas, que, por muito densa, não dera entrada e proteção àquele ser frágil, incapaz de resistir à chuva.

Lembrei-me, então, de uma das mais belas crônicas daquela que foi uma das mais belas cronistas do Brasil. Cecília Meireles, com a mão leve que tinha, descreveu seu encontro casual com um cachorro doente, em “Um cão, apenas”.  Da crônica da Cecília Meireles desci assustado para minha experiência empírica imediata, enquanto removia o diminuto corpo sem vida, que, enrolado em meio metro de papel higiênico, foi jogado no cesto de lixo. Como não pensar, numa hora dessas no destino de alguns seres, humanos ou não?

Conheço muita gente que afirma batendo no peito que nunca se arrependeu de nada do que fez na vida. Pois eu, agora confesso, arrependo-me de muita coisa do que fiz, mas também de muita que não fiz. Mas o que mais me pesa, neste momento, é pensar em todos os filhotes de que desisti antes do tempo. Qual o destino que tiveram? Resistiram à chuvarada? E se eu tivesse insistido uma vez mais, não teria salvo, quem sabe, um ser que ainda não estava preparado para se defender sozinho?

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