revista bula
POR EM 16/11/2010 ÀS 03:49 PM

Apenas um filhote

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Ontem apareceu um filhote de andorinha na varanda aqui de casa. Como chegou até aqui, não imagino. Sei que elas, as andorinhas, andaram rondando meu telhado, mas daí a ocupá-lo sem permissão me parece uma invasão ilegal. O filhote piou com tal intensidade que, mesmo sem saber ainda tratar-se de um filhote de andorinha (com sua capa escura e o peito branco)  me botei a procurá-lo. Encontrei o filhote escondido atrás de um vaso de calanchoê.  Ele ficou imediatamente mudo, pois, em lugar da mãe, o que lhe apareceu foi um monstro horrível. Imagino que nesse momento estivesse arrependido de haver piado, pois pio sempre denuncia. Assim é a vida. Os antigos diziam que bom cabrito não berra. E acho que não berram para não se denunciarem. 

Levei a mão aberta em sua direção, num gesto que qualquer um deveria entender tratar-se de uma oferta de ajuda, mas que a avezinha, em sua profunda ignorância dos gestos humanos, quem sabe com profundo conhecimento dos mesmos, interpretou como ameaça à sua pequena vida. Saiu batendo as asas, que foram feitas para cortar espaços, ou para planar em longos e suaves círculos, mas elas ainda não tinham treinado o suficiente. Enfim, sua vida era ainda pequena. Mal conseguiu uma altura de mais ou menos um metro, já teve de aterrissar, por causa do cansaço. Mas ele tinha uma vida a preservar, por isso manteve-se atento.

Contornei alguns obstáculos e me aproximei novamente. Era minha idéia proteger o filhote de andorinha, mesmo contra sua vontade, como costumamos fazer, nós, os humanos, que estamos sempre salvando-nos uns aos outros, quase sempre com prejuízo de todos. De longe consegui ver seus olhinhos pretos e redondos, que brilhavam de pavor. Então adivinhei seu pequeno coração descontrolado, com seus duzentos e cinquenta batimentos por minuto.

Quando novamente estendi o braço querendo pegá-lo, ele, que ainda não me compreendeu, fugiu para o jardim. Lá, a cena repetiu-se duas, três vezes, até que me lembrei de uma história antiga.

A esposa do elefante, a dona aliá, passava por uma trilha da floresta quando se deparou com um filhote de pardal no chão, tremendo de frio. Condoída com a sorte do filhote, ela deitou-se em cima dele para aquecê-lo. Já fiz muito disso em minha vida até chegar à conclusão de que o belo gesto é aquele que está adequado à circunstância. 

A lembrança da história repuxou-me a consciência e deixei que ele sozinho fosse cuidar de sua vida. E fui cuidar da minha, que já não é pouca coisa.
 

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