revista bula
POR EM 10/11/2010 ÀS 07:49 PM

Ao vencedor, as batatas

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O Adamastor me chegou indignado, outro dia, com o que leu no Quincas Borba. Às vezes me esqueço que já estou aposentado e recomendo algum livro ao meu amigo. Mas como, vociferava ele, um escritor, reputado como o maior entre os escritores brasileiros, teve o cinismo de escrever uma coisa dessas! Perguntei assustado a causa da gritaria e meu amigo confessou que estava lendo aquele livro de Machado de Assis, e por recomendação minha. Quase sempre me esqueço de que, quando meu amigo lê, já sei que vou ter problemas.  E o Adamastor é daqueles (a maioria das pessoas) que confundem o papel de um ator com sua vida civil, e qualquer pensamento em um livro com o pensamento do autor. Sem contar que a confusão entre narrador e autor é ainda maior.

Quincas Borba é uma personagem irônica, expliquei, figura comum na literatura de Machado. Aproveitei para uma pequena introdução à leitura do texto literário. Não se deve ler literatura ao pé da letra. Os sentidos estão quase sempre escondidos nos escaninhos do discurso. Ambigüidades, ironias, eufemismos e tantos outros recursos de retórica fazem parte do que há de lúdico na literatura, ou seja, participam de sua literariedade. Tive a impressão de que não fora suficientemente claro, pois meu amigo sacudiu a cabeça em movimentos horizontais, provavelmente significando que não, não concordava com nada daquilo. 

O Adamastor ainda me olhava desconfiado, sem se conformar com minha interpretação para a frase que utilizei como título desta crônica. Comigo é pão pão, queijo queijo, ele afirmava, sem perceber que não estava entendendo a lição. Tentei contextualizar a produção do romance, tentando salvar a pele do Machado das maldições de meu perigoso candidato a gigante. À época, meu caro, desabrochava uma corrente filosófica marcada pelo darwinismo, em que a seleção natural era o princípio básico. Mais ou menos como o pensamento daqueles que hoje defendem o mercado como regulador das relações humanas. Machado os ironizaria como ironizou o “humanitismo” de Quincas Borba.

Que entre os animais, destituídos de valores éticos, prevaleça a lei do mais forte dá para entender, mas nós, seres humanos, temos coisa melhor do que as leis selvagens da força ou do mercado para nos dirigir.  Não sei se ele se convenceu, mas perguntou se não havia café nesta casa antes de se retirar com o semblante carregado de nuvens.

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