revista bula
POR EM 02/11/2010 ÀS 02:16 PM

Ano político

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Ás vezes me aparece aqui em casa o Adamastor, meu amigo gigante, para serrar um cafezinho, uma cerveja, um bate papo em disponibilidade. Ao sentar-se, ontem, desconfiei de que não vinha com sede, pois sua testa trazia estampada uma pergunta, pela qual não tive de esperar muito. 

Você não acha que um ano político prejudica a economia? perguntou e ficou com os olhos cravados em mim. Cocei a cabeça. Economia não é minha praia, isso é lá com os economistas, me deu vontade de dizer. Então pedi a ele que prestasse bastante atenção porque em sua pergunta havia uma impropriedade vocabular, e esse sim, esse é assunto de minha área de interesse. 

Ele abriu um pouco a boca, mas, além de dentes, nada mais se encontrava lá dentro. Era apenas, como eu já sabia, sua cara de esperar explicação. Fechei a pasta onde procurava um texto antigo de que estava precisando e o encarei.  Como eu não fosse dar resposta imediata e direta àquilo que o preocupava, ele disse que aceitaria um cafezinho. Tomamos o cafezinho que encomendei em silêncio escuro e quente. 

Política, expliquei por fim, é a ciência referente aos fenômenos do Estado, como mais ou menos dizem todos os dicionários. E isso num sentido bastante restrito, porque Carlos Nélson Coutinho, filósofo brasileiro, afirma que todo ato com repercussão no outro é ato político. O Adamastor remexeu-se impaciente na poltrona. O assunto, na forma como o desenvolvia, não era de seu agrado. 

Ora, se vivemos em sociedade e agimos, e se nossos atos repercutem no outro, todos nós somos responsáveis por atos políticos. Num sentido amplo, claro. Ninguém que viva em sociedade e se relacione com seu semelhante pode dizer que não faz política. Se se pensa em política partidária, então a história já é bem outra.

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